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Rael

@bomberman · desde 2021

Ácido.

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Drama

Cacos em Mosaico

Xícara, café, Rio, taxi. Relógio, tic, vazio, tac. Canela, chuva, dela, entendo. Porta, trinca, eco, dentro. Cinza, pedra, rua, chão. Carro, lua, avião. Montanha, alguém, longe, parte. Alma, escuta, não. Cidade, fria, tarde. Janelas, chama, muros. Olho, aberto, arde. Lençol, cama, surdo, escuro. Quarto, cozinha, sala. Saudade, passado, puro. Ausentes, ninguém, fala. Ansiedade, futuro, duro. Luz, sombra, silêncio, teto. Roupa, chão, lar, sedento. Passo, só, lento, alerto. Amor, alento, escasso, tento. Fôlego, preso, reintero. Foto, rosto, sequer, conheço. Telefone, mudo, preço, espero. Cadeira, estudo, recomeço. Olhar, desvio, silhueta. Ação, presente, vazio. Espelho, mente, ampulheta. Palavra, garganta, silêncio, rio. Some, medo, pausa, lombra. Silêncio, abrigo, só. Tempo, medo, causa, assombra. Chuva, face, pingo, nó. Nome, vento, suspiro. Presença, ausência, contraste. Alma, dura, cura, firo. Ciclo, fome, eco, embate. Fortaleza, destino, peito. Grandeza sem distância. Roda o mundo sem sujeito. Dá semente à circunstância. Suspiro fundo. Caso frágil. Pele, fumo, frio, lago. Olho, fecha, nu, naufrágio. Braço, aberto, nega, nado. Suba, força, nade! Vivo! Ágil, leve, limpo, esquivo! Desce, ego — desse jeito... Do sujeito aparecido.

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Depois da chuva

No sono que vem depois da chuva, percebo: nada tenho a escrever. A tristeza é menos triste, e dá clareza ao que existe. O sol seguirá, aos viventes e aos abandonados, muito acima de vossa tempestade. Adourescendo aquelas montanhas, onde a revoada do sul se incandesce e arranha, de luz, a tristeza tamanha. Inocentes da tua mágoa, piam, gritam, bebem, copulam, nas copas das árvores e nos salões. Convidam, instigam, seguem, rotulam. Permiti-me fugir da rima, do enquadramento do poema. Tenho fugido de tanta coisa... Como fujo, alma, de ti. E o universo, alheio, permanece tão dormente a tanta coisa. Se meu olhar fosse um quadro, teria rastros catastróficos de pincéis, tentando traçar o caminho de aves que me enviariam uma mensagem de recomeço. Como se quisessem apagar, ou talvez recomeçar... Mas dei-me conta: já não havia tanta tinta branca.

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Auto-estima

Eu sou uma falsa promessa

Meus sonhos são como o pudim nos sonhos. Que perde o gosto logo que a gente acorda faminto Eu sou a boca seca mastigando o vento. Por fora, sou o potencial de tudo acontecer. Sou fruto da fé dos outros em mim. A única e última esperança de quem mais amo. Eu tenho me contentado com a maldita projeção sobre minha imagem. é É o máximo que consigo fazer. Eu já estou parecendo o suficiente pra todos acreditarem? Só de parecer já algumas vezes já está dificil, tenho que parecer o resto da vida? Imagine o trabalho de ser de fato. Por dentro, que preguiça. Que se foda o sucesso que tanto preciso pra pagar a porra das contas. Afinal isso tudo continua sendo uma selva maquiada de cimento e legislações toscas para que nos sintamos seguros e civilizados. O mundo só precisa de um sopro para que os "saudáveis" surtem e mostrem sua animalidade. Ah é difícil parecer. Eu não sou quem levanta pra bever água e procurar algo de verdade na geladeira. Ultimamente tenho me coberto para sonhar com outro pudim. - E aí como estão as coisas? - Cara, está tudo bem. - E os projetos? - Estou arrumando umas coisas. - Tá mas já vendeu algum? - Já vendi 5. "Mentira. Vendi um a preço de custo pra gerar uma indicação que nunca veio. O produto é de fato diferenciado talvez eu seja um vendedor terrível." - Que isso cara, parabéns! "Caramba ele já vendeu 5. Esse tem visão, descobriu um nicho bom que poucos estão. O cara é novo. E têm muita sorte de gostar do que faz, tem realmente um potencial fudido. O produto é o melhor que já vi. Ele fala bem, conhece os termos técnicos... Que sorte esse cara têm. Tudo deu certo pra ele. No começo ele parecia tão idiota." - Obrigado pela força irmão. "Tmj" "Que vergonha. 6 meses nesse projeto que tinha tudo pra dar certo e parece que eu é quem me iludi. O problema sou eu? Será que sou autista? Não gostam de como eu falo? É isso. Não sou verdadeiro o suficiente. Não tenho prova social. Deve ser porque sou magrelo. Ou porque sou inseguro? Ou eu só tenha me iludido mesmo."

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Traidor

Quisera eu o brilho rotineiro Subindo e descendo o mais rapido que pude três, quatro degrais em um passo Quisera eu, salvar dentro de mim Toda platonicidade que se ilude Diante de toda a cintilância Das proprias dissimulações que faço Quisera eu justificar minha estadia Em um cosmos tão mal explicado Os ideais que de mim fazia Foram no fim um fracasso Quisera eu fugir Dessa incessante cronometragem mental Meu coração é um relógio Alarmando um tempo escasso Um paciente num hospital qualquer Um numero na tabela A espera do que me acude Um inocente Uma alma qualquer Num mundo que me deu Sequelas que me fizeram rude Um fiel sem fé A procura de um destino que me mude Rogo-lhe destino Que traga um Deus que me ajude Porque sou eterno passageiro Nestas tuas sádicas paralelidades ambulantes do cosmos? Tua lingua paradoxal Me condena a uma jornada perpétua Me lança nos universos infinitos Minhalma, perturbada por tamanha pequenez E tão desencorajada a continuar pequena Exije de Ti a morte eterna Ou as pequenas alegrias que lançaste à sorte Neste infindo espaço

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Amor

Rato molhado

Foi um bom começo Casa dos móveis velhos, nunca esqueço Das vozes que ecoavam De uma sala vazia Foi um bom começo Novo amor, fim de dezembro Nós moscada eu me lembro Frio, escada e ventania Ah, te vi na escadaria a subir Foi assim que começou O que viria a sucumbir Noutro começo e outro amor Ah, te vi na padaria a sorrir Num sonho de café e cor Branca fumaça a subir Entre os olhares de amor As migalhas que lhe esperam E os pães tão amassados Vá para as ruas que lhe fizeram! Óh pobre rato molhado Ah, o que mais lhe destrói É que ele nem pode, do algoz, Chegar perto demais Ah, o coração como dói Rato nem sabe que o rói, e o mal que ele próprio se faz

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Amor

A Ladra

Dentro de mim Minto e não mais aguento Aqui nos busco E sempre haverá Nós dois a sós Nas horas sem fim Sinto que se passa o tempo Sem ti, me busco Mas nunca me encontro Depois de nós

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Amor

Bairro de infância

Olhares se despediram Noites se passaram As estradas não mais me viram Nem estrelas que brilhavam Os bares que lotaram não souberam Se meus passos adentraram ou saíram Como os amores que amava ainda esperam se os lugares que habitavam sucumbiram? Aqueles sorrisos nas mesas Sempre estarão por lá Os cigarros, a cerveja, quem bocejou a caminho de um lar Os amantes ao luar se beijarão de repente Sem sequer notar, partirão dali, de uma vez para sempre...

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Amor

Quando fechei o portão

A lágrima embaça a lua e as estrelas A poeira embaralha ruas e alamedas Conheço estradas que jamais me viram Desesperanço a cada contorno Qualquer chance de retorno De onde todas as mágoas saíram De onde não me viram partindo Jamais me verão voltando Onde não me viram sorrindo Jamais me verão chorando Eu andei, fumando um cigarro Eu corri, tomando uns esbarros Como não morri debaixo de um carro não sei Tantos esparros da vida tomei... Abaixo e amarro o cadarço e sigo Ou me encaixo no fardo de sarros sorrisos? Só sei que cansei Corri sentindo que andar era pouco Se morri correndo eu não sei Nem ouvi me chamarem de louco Quando morrer sorrindo tentei Gritando até ficar rouco Cansei, dormi Sonhei que te amei Real Bomberman

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Amor

A Escritora

Não quero ter coragem para amar Nem que o amor me dê coragem De dizer que estou te amando De te amar de fato para dizer Quero ter vantagem pra contar Não te contar pra ter vantagem E fazer do tempo passando Um passatempo em sua miragem Onde nossos poros se amassam Nos anexos em grampos, fólios e traços Onde nossos corpos se abraçam Nosso sexo em prantos, notórios espasmos E, neste momento Que eu sinto que jamais morrerei Eu diria que te amo Mas o amor não é um orgasmo Rael Bomberman

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Amor

A Vadia

Eu estou aqui Onde os outros estiveram, dormiram e se foram Eu vou transar, dormir e partir Como os outros que te esperam farão Eu estive aqui Onde você chorou, sorriu, me beijou Onde amanhã vai chorar, sorrir e beijar quem quer que passar ou passou De manhã, outro vai vir Onde eu estive a dormir e te abracei Irão te usar dormir e partir. Como eu te usei, cansei e dormi. Eu sei Você está aí Onde dizem que é especial A suma figura branca e borrada numa mistura de santa e safada que bebe, vomita, fuma e passa mal Ainda lembro de ti, refletindo nas águas teus sonhos profundos há tempos E de te ver partir para as sombras e mágoas dum mundo sedento Rael Bomberman

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