Depois da chuva
No sono que vem depois da chuva, percebo: nada tenho a escrever. A tristeza é menos triste, e dá clareza ao que existe. O sol seguirá, aos viventes e aos abandonados, muito acima de vossa tempestade. Adourescendo aquelas montanhas, onde a revoada do sul se incandesce e arranha, de luz, a tristeza tamanha. Inocentes da tua mágoa, piam, gritam, bebem, copulam, nas copas das árvores e nos salões. Convidam, instigam, seguem, rotulam. Permiti-me fugir da rima, do enquadramento do poema. Tenho fugido de tanta coisa... Como fujo, alma, de ti. E o universo, alheio, permanece tão dormente a tanta coisa. Se meu olhar fosse um quadro, teria rastros catastróficos de pincéis, tentando traçar o caminho de aves que me enviariam uma mensagem de recomeço. Como se quisessem apagar, ou talvez recomeçar... Mas dei-me conta: já não havia tanta tinta branca.
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