Registro I : Causa & Efeito
Nós evoluímos ou mudamos? Durante anos tratei minhas mudanças como evolução, como se cada nova versão de mim fosse necessariamente superior à anterior. Como se avançar fosse, por si só, uma forma de progresso. Mas talvez eu apenas confundisse movimento com crescimento. Porque mudar não significa tornar-se melhor. Significa apenas tornar-se outro. E talvez o “eu” que deixei para trás não tenha sido destruído. Talvez apenas tenha se tornado invisível. Cada escolha, cada erro, cada abandono, cada sonho esquecido, permanece como uma marca naquilo que veio depois. Não como memória, mas como consequência. Porque o passado não precisa ser lembrado para continuar produzindo efeitos. Um "eu" produz o seguinte. O seguinte abandona o anterior. E, ao fazê-lo, torna-se a causa de outro. Assim seguimos: mudando, substituindo, enterrando. Até que aquilo que um dia chamamos de “eu” se torna apenas uma lembrança distante de alguém que já não reconhecemos. Seu rosto mudou. Sua voz mudou. Seus sonhos mudaram. Talvez até sua própria ideia de existência tenha sido substituída. E, ainda assim... se aquele homem desapareceu, por que ainda encontro suas digitais em tudo aquilo que sou? Talvez porque ninguém desapareça por completo daquilo que ajudou a construir. Podemos abandonar suas crenças. Negar seus erros. Esquecer seus sonhos. Mas não podemos desfazer aquilo que eles causaram. E talvez seja esse o verdadeiro paradoxo: cada versão de mim precisa morrer para que a próxima possa existir. Mas nenhuma delas desaparece completamente. Porque aquilo que fui continua causando aquilo que sou. E aquilo que sou já começou a causar aquilo que ainda não fui. No fim... Talvez eu não seja uma sucessão de pessoas. Talvez eu seja apenas uma sucessão de consequências. E talvez evoluir não seja tornar-se alguém melhor. Talvez seja apenas aprender a carregar as causas que nos trouxeram até aqui. Talvez mudar seja apenas isso: morrer em pequenas partes, sem jamais deixar de existir. — Z —
S.T
Incrível construção e pensamentos, meu amigo. Todo o formato me passa uma sensação de "Épico", como a reflexão final de um personagem prestes a partir. E, de fato, concordo com seu pensamento, sinto que somos como criaturas remendadas após se rasgarem.