antes de dormir
penso em muitas coisas
das mais triviais e bobas
até sobre como a Reta de Sorgenfrey
não é segundo-enumerável
penso também frequentemente
em versos
na antessala do sono
já compus diversos poemas
que sempre se perderam
na volatilidade da memória
algumas pensamentações são engraçadas
no meio sono
imaginei o meu leitor
ele lia este poema
que não diz nada com nada
e imaginei
aquela voz que temos na mente
quando lemos
dizendo
— aquela voz que temos na mente quando lemos —
e não dizendo nada
e acabava assim
sem mais nem menos
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soa o sinal e é hora de ir embora.
a profa. diz, cansada, — finalmente —
e em meio aos pais, enxame impaciente,
a minha mãe espera-me lá fora.
é tardezinha e o céu inda está claro.
mais dois amigos fazem companhia,
brincamos entre nós, ninguém sentia
o peso de um momento muito raro.
tudo era simples. Misteriosa, a vida.
o tempo, mais elástico, durava.
nos corações sequer uma ferida.
olhávamos o céu, havia mais brilho.
olhávamos as mãos, não havia nada.
e a minha mãe dizia — vamos, filho! —
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a vida é um sopro,
ele disse.
e o vento o levou...
chega a manhã após a noite mal dormida.
no chão o pé direito após o pé esquerdo;
um pouco sonolento, um tanto meio lerdo;
um gole de café me traz de volta à vida.
visto ao avesso a blusa e as chaves, na saída,
esqueço no ferrolho. Ao caminhar, eu quase
tropeço no degrau da escada e vou de base.
por pouco não me acerta um carro na avenida.
na telha de uma casa, avisto um gato preto;
esbarro numa moça e quebro o seu espelho;
no bar derramo o sal... e um velho dá conselhos
a quem suponho ser um de seus próprios netos.
eu peço um copo d'água, as minhas mãos tão frias...
e a senhorinha ao lado diz: “que lindo dia!”
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ninguém assume
mas todo mundo almeja
o cume
diz-me: com quantos passos faz-se a valsa?
para rodar contigo nesta dança,
ceder-lhe-ia os sonhos, a lembrança,
a verdadeira vida, a vida falsa.
se a minha mão a tua mão alcança,
se a tua dor a minha dor enlaça,
talvez não haja força mais que faça
partir a minha dança da tua dança.
depois hão de ficar comigo o gesto
do teu corpo e da silhueta o esboço
cingidos aos meus gestos em segredos.
e tu, sem ter de mim nenhum protesto,
hás de levar contigo no pescoço
o colar feito de ossos dos meus dedos.
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na gelada e erma noite eu caminhava
em solidão de minha companhia
quando por essa mesma estrada fria
em minha direção se aproximava
um vulto de capuz, e enquanto andava
um pouco com a morte parecia
e assim, vendo-o ali, eu já sabia
a peça que o destino me pregava
meus passos cada vez mais devagar
tremiam... suplicavam pra voltar
mas eu continuava na estrada
cerrei as mãos quase quebrando os dedos
em cada osso meu gritava um medo
e ele passou por mim sem dizer nada
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o amor que eu amo é altruísta, eu canto
no silêncio um amor que vai além
um amor transcendental e que ninguém
há de fazer-lhe mal, causar-lhe espanto
o amor que eu amo é puro e sacrossanto
não há ninguém na Terra, além ou aquém,
cujo amor mais amor que o meu contém
um amor que é tudo, é infinito e é tanto...
o amor que eu amo, o meu amor, sem rumo,
é leve como o vento e abstrato,
um amor que é fluido... amor trémulo fumo
que solitário vaga os céus... de fato
um amor que eu amo tanto, e que, em resumo,
sem este amor eu juro que eu me mato
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se viver valesse a pena
por que depois da partida,
todo o mundo, quando morto,
não quer mais voltar à vida?
eu autor não sou ninguém
um alguém que você leu
confundiu com outro alguém
essa voz que não sou eu