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Valmon Dias Ferreira

@Valmon · desde 2024

Estudante Medicina, mas apaixonado por literatura desde a infância.

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SONETO NÚMERO 2

O poeta é um fingidor, diz o Pessoa, Que finge tão desesperadamente Que até chega a fingir a dor que sente, Fingindo a própria dor até que doa. O poeta é um fingidor, diz o Pessoa, Que finge para si e toda a gente, Sentindo verdadeira a dor que mente, Num gosto estranho por sofrer à toa. Infelizmente a minha dor é real, Não acrescento ao meu penar ou mal, Como o poeta tolo que a fingira. Eu sofro, sim, mas não me desespero, E se sofro, não sofro porque quero - Quem dera que essa dor fosse mentira.

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SONETO NÚMERO 1

Eu sou só um pobre, em todos os sentidos, E de corpo e alma fracos igualmente. Sou como outros que, também perdidos, Não andam para trás e nem para frente. Eu sou o teimoso a que nada dá ouvidos, Que fracassa ao tentar se diferente. Repito os mesmos erros cometidos Com uma devoção que é comovente. Somos a prole podre e vil de Adão, A prole podre e vil, sem exceção, Que vaga pelo mundo inutilmente. Nós somos irmãos e somos rivais, Em tudo diferentemente iguais. Quem disser melhor de si é tolo ou mente.

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Biografia

Melodia

Quando eu era criança e vivia na pobreza Eu saía com meu pai de bicicleta Agarrado em sua cintura Na garupa Enquanto ele procurava emprego. No caminho eu fazia várias perguntas. Perguntas absurdas, manchadas de imaginação. Uma de que me recordo muito claramente foi "Pai, um dia as melodias vão acabar?" Ele não fazia ideia do que era melodia, Muito menos eu. "Um dia elas vão só se repetir" Acrescentei olhando para o seu rosto, Tentando olhar para o seu rosto, Já que ia muito concentrado em não atropelar E nem ser atropelado por ninguém. "Acho que sim" Ele respondeu, Sem convicção. Não lembro se conseguimos emprego naquele dia, Mas lembro de seu rosto magro e suado, Enquanto pedalava Pedalava E pedalava Pedalava Pedalava Eu ouvia a melodia das catracas E ele Pedalava E pedalava

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Amor

Encontro

Depois de vários desperdícios, eu Depois de vários contratempos Eu, depois de ter desassumido a minha forma De ter pagado as minhas contas Depois de ter parado numa padaria, eu Depois de tantas luzes e tanto sol Despercebido daqueles que como eu Andam distraídos, eu Depois de um dia público E impúdico no que tem de mentiroso, eu Depois de vários quarteirões, Volto para casa e te encontro.

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Janela

Eu queria ser essa janela alta, Paisagem cedida apenas à imaginação. Ser falta de vínculo Um quase nada A parte inexata De uma equação. Como uma árvore Quero ficar sempre aqui - enraizado, Livre da fala e do movimento, Perdendo a consciência aos poucos, Até o estado Em que não terei mais pensamento.

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Poesia

O doente

O poeta não passa de um doente Para o qual não há remédio. Antes, morto de tristeza. Agora, morto de tédio.

As invenções de Graham Bell

Mabel, a esposa de Graham Bell, lhe escreveu certa vez "Eu me pergunto se você pensa em mim No meio desse seu trabalho, Do qual tanto orgulho e tanto ciúmes tenho, Porque foi esse trabalho Que roubou de mim parte do coração do meu marido, Pois, onde estão os pensamentos e interesses dele, Lá é que deve estar seu coração" Para mim, essas palavras Que a depender dos ouvidos que as ouvem Podem soar ternas, ridículas e até mesquinhas, São mais importantes que todas as invenções de Graham Bell, São mais importantes que esse poema.

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Estudo angélico

Eu, filho do amoníaco e do carbono, Monstro de rutilância e escuridão, Não tenho mais fé, não tenho mais sono, Não tenho Vontade e nem ambição.

Família

Ervas daninhas

A parte mais doce da minha vida É o sorriso da minha avó Queria ser como ela Cuidando do jardim Sem pressa. E eu trancada nesse quarto Distante e adiando visitas Iluminada somente Pela luz tonta do celular. A parte mais doce do meu sorriso É a minha avó Ela é tão feminina Que nem precisa de revistas. Talvez amanhã eu vista aquela renda Talvez amanhã eu leve botas Para ajudar com as ervas daninhas Talvez amanhã.

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Eu nunca vi o Corcovado

Eu nunca vi o Corcovado, Eu nunca vi o mar nem tenho pressa. Mas também, Eu nunca vi meus filhos brincando, Nunca vi minha mãe morrendo E meu pai definhando com a morte da minha mãe, Ou vice-versa. Eu nunca vi meu corpo velho caindo, Eu nunca vi eu me vendo velho, Como imóvel numa casa, Despercebido. Eu nunca vi uma folha da minha 'comigo-ninguém-pode' nascendo, É sempre muito cedo ou muito tarde, Fica dentro de um espaço no presente, Inalcançável.

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