O poeta é um fingidor, diz o Pessoa,
Que finge tão desesperadamente
Que até chega a fingir a dor que sente,
Fingindo a própria dor até que doa.
O poeta é um fingidor, diz o Pessoa,
Que finge para si e toda a gente,
Sentindo verdadeira a dor que mente,
Num gosto estranho por sofrer à toa.
Infelizmente a minha dor é real,
Não acrescento ao meu penar ou mal,
Como o poeta tolo que a fingira.
Eu sofro, sim, mas não me desespero,
E se sofro, não sofro porque quero -
Quem dera que essa dor fosse mentira.
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Eu sou só um pobre, em todos os sentidos,
E de corpo e alma fracos igualmente.
Sou como outros que, também perdidos,
Não andam para trás e nem para frente.
Eu sou o teimoso a que nada dá ouvidos,
Que fracassa ao tentar se diferente.
Repito os mesmos erros cometidos
Com uma devoção que é comovente.
Somos a prole podre e vil de Adão,
A prole podre e vil, sem exceção,
Que vaga pelo mundo inutilmente.
Nós somos irmãos e somos rivais,
Em tudo diferentemente iguais.
Quem disser melhor de si é tolo ou mente.
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Quando eu era criança e vivia na pobreza
Eu saía com meu pai de bicicleta
Agarrado em sua cintura
Na garupa
Enquanto ele procurava emprego.
No caminho eu fazia várias perguntas.
Perguntas absurdas, manchadas de imaginação.
Uma de que me recordo muito claramente foi
"Pai, um dia as melodias vão acabar?"
Ele não fazia ideia do que era melodia,
Muito menos eu.
"Um dia elas vão só se repetir"
Acrescentei olhando para o seu rosto,
Tentando olhar para o seu rosto,
Já que ia muito concentrado em não atropelar
E nem ser atropelado por ninguém.
"Acho que sim"
Ele respondeu,
Sem convicção.
Não lembro se conseguimos emprego naquele dia,
Mas lembro de seu rosto magro e suado,
Enquanto pedalava
Pedalava
E pedalava
Pedalava
Pedalava
Eu ouvia a melodia das catracas
E ele
Pedalava
E pedalava
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Depois de vários desperdícios, eu
Depois de vários contratempos
Eu, depois de ter desassumido a minha forma
De ter pagado as minhas contas
Depois de ter parado numa padaria, eu
Depois de tantas luzes e tanto sol
Despercebido daqueles que como eu
Andam distraídos, eu
Depois de um dia público
E impúdico no que tem de mentiroso, eu
Depois de vários quarteirões,
Volto para casa e te encontro.
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Eu queria ser essa janela alta,
Paisagem cedida apenas à imaginação.
Ser falta de vínculo
Um quase nada
A parte inexata
De uma equação.
Como uma árvore
Quero ficar sempre aqui - enraizado,
Livre da fala e do movimento,
Perdendo a consciência aos poucos,
Até o estado
Em que não terei mais pensamento.
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O poeta não passa de um doente
Para o qual não há remédio.
Antes, morto de tristeza.
Agora, morto de tédio.
Mabel, a esposa de Graham Bell, lhe escreveu certa vez
"Eu me pergunto se você pensa em mim
No meio desse seu trabalho,
Do qual tanto orgulho e tanto ciúmes tenho,
Porque foi esse trabalho
Que roubou de mim parte do coração do meu marido,
Pois, onde estão os pensamentos e interesses dele,
Lá é que deve estar seu coração"
Para mim, essas palavras
Que a depender dos ouvidos que as ouvem
Podem soar ternas, ridículas e até mesquinhas,
São mais importantes que todas as invenções de Graham Bell,
São mais importantes que esse poema.
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Eu, filho do amoníaco e do carbono,
Monstro de rutilância e escuridão,
Não tenho mais fé, não tenho mais sono,
Não tenho Vontade e nem ambição.
A parte mais doce da minha vida
É o sorriso da minha avó
Queria ser como ela
Cuidando do jardim
Sem pressa.
E eu trancada nesse quarto
Distante e adiando visitas
Iluminada somente
Pela luz tonta do celular.
A parte mais doce do meu sorriso
É a minha avó
Ela é tão feminina
Que nem precisa de revistas.
Talvez amanhã eu vista aquela renda
Talvez amanhã eu leve botas
Para ajudar com as ervas daninhas
Talvez amanhã.
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Eu nunca vi o Corcovado,
Eu nunca vi o mar nem tenho pressa.
Mas também,
Eu nunca vi meus filhos brincando,
Nunca vi minha mãe morrendo
E meu pai definhando com a morte da minha mãe,
Ou vice-versa.
Eu nunca vi meu corpo velho caindo,
Eu nunca vi eu me vendo velho,
Como imóvel numa casa,
Despercebido.
Eu nunca vi uma folha da minha 'comigo-ninguém-pode' nascendo,
É sempre muito cedo ou muito tarde,
Fica dentro de um espaço no presente,
Inalcançável.
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