Não te enganes pelo rosto indiferente à tua frente.
Nada mais é do que a máscara que eu mesmo entalhei.
Foram anos e mais anos performando a indiferença
e um mestre na performance, admito, me tornei.
Mas um ser inesperado ameaça o espetáculo.
Um arauto da bonança ou portador do mau agouro?
Borboletas/mariposas se debatem no casulo,
atraídas pela luz que vem de seus cabelos louros.
Eu não sei aonde leva esta luz no fim do túnel,
e o medo, estou certo, irá comigo até o fim.
Mas ganhaste, deus dos tolos, vou deixá-lo conduzir-me.
Que os fantasmas do futuro tenham compaixão de mim.
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É o Caos o implacável condutor do universo.
Ele rege as nossas vidas e também rege esses versos
e a efemeridade é o resultado inevitável.
Mas que quando as areias do tempo me levarem
e talvez em sua memória minhas lembranças habitarem,
que estas sejam as lembranças de um tempo agradável.
Como as almas conduzidas por Caronte pelo Estige
sou levado pelas águas do seu corpo, do seu ser.
Livre sou de qualquer medo, dor nenhuma me aflige
e as cores do meu mundo finalmente posso ver.
Sob as ondas dos teus cachos os meus dedos se entrelaçam.
Os meus olhos se encontram com os pardos olhos teus.
Minha boca toca a ponta das montanhas que os separam.
Os teus lábios finalmente se encontram com os meus.
Como as almas conduzidas por Caronte pelo Estige,
eu transbordo calmaria, encontrar-me-ei com Deus.
Um cruel discernimento, no entanto, me atinge:
o barqueiro que conduz a minha alma é Morfeu.
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Um refém das circunstâncias de uma vida sem escopo
à espera do demônio que devolva-lhe o tempo.
Os ponteiros muito em breve encontrar-se-ão no topo.
As estrelas e a lua testemunham seu tormento.
Seu tardio redentor tem outra vinda anunciada.
Chega a hora de colher da liberdade o doce fruto.
O destino, pervertido, dá um'alta gargalhada.
A angústia ensurdece até mesmo o mais astuto.
No estômago da besta, dá-se conta da desgraça.
Desaquecem-se as entranhas, desregulam-se os hormônios.
Logo após regurgitado, a penumbra lhe abraça.
Foi mirado o paraíso e acertado o pandemônio.
Corre rápido o azarento pela ponte da agonia.
A angústia o impulsiona, a gravidade o arrebata.
Na sua mente, cresce a ânsia pelo fim daquele dia.
Outra besta o devora e suas esperanças mata.
Expelido, corre o tolo rumo ao último diabo.
Este sim há de enfim trazer um fim ao seu tormento.
Já no leito, regozija: o revés foi superado,
mas jamais, nunca, jamais, terá de volta aquele tempo.
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Hoje, no caminho para o meu abatedouro
percorreu a minha mente uma memória de você.
Velhos tempos quando ainda proferia sentimentos,
precedentes da geada que acometeu meu ser.
Agora, entendedor da minha própria natureza
me pergunto se era amor aquela estranha sensação.
Qual seria o resultado se tivesse aberto a guarda
e eu tivesse dado ouvido ao que mandava o coração.
Vários anos se passaram desde o nosso reencontro
e sequer cumprimentamos um ao outro aquele dia.
Moradores do presente desdenhando do passado,
conscientes do que é e sem saber o que seria.
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Amizades de infância
e romances literários
costurados sem constância
por meu tolo imaginário.
Os meus traumas já contidos
e meus medos superados
num roteiro sem sentido
de final já esperado.
Como besta endiabrada
vou correndo pelas ruas
na intenção alucinada
de juntar minha mão às tuas.
Soterrado sob escombros,
um desejo inquietante.
Minhas mãos tocam teus ombros
e depois todo o restante.
Ó, pensamentos desvairados
desta mente vigarista!
Sem critério amontoados
como obra dadaísta.
Desprovido de sentido,
como o texto aqui escrito,
rompo a dor com um sorriso:
Devaneio, logo existo!
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Concebendo universos,
como deusa vigorada,
arquitetas dimensões
muito em breve apagadas.
Consciente, como este,
que ao fim estás fadada,
do que vale a existência
e por quem serás lembrada?
Vede, atentos olhos em meu rosto, mãos e corpo.
Ouvi o que vos digo e o que penso, bons ouvidos.
Saciar-se-ão em breve, ó estranhas afligidas!
Este âmago insofrido há de, em breve, ser suprido.
Contemplando o céu noturno e o seu manto estrelado
como outrora contemplaste o santo lago e a montanha
sou tomado, como foste, por temor e solitude
e o demônio da tristeza me devora as entranhas.
O amor que propagaste eu invejo, Manuel.
Julgo eu mesmo e condeno a tua abnegação
Imagino e compadeço com a dor que tu sentiste.
Repugno-o e o admiro na mais vil contradição.
Sob outras circunstâncias, numa época distinta,
talvez fosse eu o mártir ou seguisse os passos teus.
Neste inferno, no entanto, de esperanças desprovido,
perambulo contemplando a real face de Deus.
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Eu me pego refletindo sobre a minha salvação.
A poção pro mal do mundo; o propósito da vida.
Se é justo que eu passe a minha efemeridade
perseguindo a riqueza na mais tola das corridas.
E se a fábula cristã for, na verdade, uma mentira?
E se Lúcifer fez bem em questionar a hierarquia?
Toda grande inovação, revolução ou descoberta
fundamenta-se em dúvidas, confronto e rebeldia.
É possível expurgar nosso sistema econômico?
Tenho tempo ou poder para curar a raça humana?
É sensato acreditar que há futuro para a espécie?
É prudente batalhar por uma terra tão profana?
Faz-se claro que não tenho as respostas, mas perguntas,
e é possível que a resposta nem exista, em conclusão.
No entanto, toda vez que minhas pálpebras se fecham,
eu me pego refletindo sobre a minha salvação.
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