Você já não é mais o mesmo de antes,
não tem mais tantos cabelos pretos quanto tinha
Percebe-se uma pele enrugada,
quando comparada à minha
Eu sou o relógio da sua vida,
sou a contagem de tempo e a percepção de que este não cessa
De que este tem pressa e impede que paremos,
que voltemos, a época em que os brinquedos construíam o nosso vínculo
O nosso amor um pelo outro,
que você aprendeu a ter por mim
E eu tive de construir um para você,
apesar ou por causa de tudo
Por causa desse mundo que assusta,
e me faz percorrer novamente para o lar que fiz no teu colo
Que já não me cabe como antes,
porque eu fiquei muito grande e não ocupo o mesmo espaço
Mas ainda tenho os mesmos traços,
e noto que a cada dia fico mais parecida com você
Mesmo que eu tenha me afastado tanto disso,
ainda há orgulho em dizer que sou sua
Tanta ironia em perceber,
que eu tenho de te lembrar de coisas minhas
Você já não lê mais agendas de escolas,
lê meus trabalhos e revisões que gasto horas refazendo
Buscando uma perfeição que você já admira,
mas nunca teve coragem de dizer
Quem faz birras e teimosias já não sou eu,
que devo lidar com suas raivas e nervos enquanto aprendo que há beleza no tormento que compartilhamos
Que vivenciamos até os dias de hoje,
sem nos preocuparmos quanto tempo ainda resta para nós
Dessa vida que o senhor me deu,
e a que estou tentando trilhar sozinha.
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Me devolve?
todo o amor que você levou de mim
Toda a esperança que tinha no meu peito,
que não permitia que eu me comportasse assim
Me devolve a vontade de amar,
de ser amada em voz alta
Mesmo que eu sempre estivera tão escondida,
tão reprimida
Sem vontade de fazer valer a pena a paixão,
porque sempre me encontro na mesma solidão
Eu sou o amor, não tem como você me roubar de mim mesma,
mas ando perdida nessa sala imensa
Que eu andei arrumando, tirando o pó e pintando as paredes com uma nova cor,
com um novo propósito
De que quando o sol batesse
novamente pela janela,
eu teria coragem o suficiente de abri-la para deixar que ele entrasse
Para aquecer de vez essa alma tão gélida,
tão frágil e translúcida
Me devolve eu pra mim mesma,
a obsessão que eu tinha por encontrar alguém
Que fizesse com que eu lembrasse,
que o amor mora em mim
Assim como eu gostaria de morar nele,
nessa sala ensolarada que esquenta o coração.
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Não olha nos meus olhos,
não beija minha boca procurando a minha alma
Não finja que me ama,
porque um dia a gente se engana
e começa a atuar
Nesse delírio que vivemos a cada noite,
a cada dengo de se aconchegar um no outro
Sem saber os limites do abismo da tua solidão,
da minha solitude
Da tua libido e da minha angústia,
disfarçada de ternura e carinho
Como água que se enrola nesses moinhos,
que se perdem nos rios desses mares
vastos e vazios
E que se encontram por acaso,
igual eu e você
Perdidos por ai nessas ondas de carência,
de sobrevivência
Nesse mundo que mata cada vez mais,
os brilhos e encantos
Que você enxerga quando olha nos meus olhos.
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Faz tanto tempo que não escrevo,
quando faço é nada com nada
Não rimo, não ligo, não tem apreço,
não tem conexão entre as palavras
Porque eu me busco enquanto penso,
já sei que me escondo em meio as estrofes
Nessas anedotas que já não tem mais graça,
já não é história nem fantasia
Já não tem sentimento,
não é poema nem poesia
Uma escrita que gira entre metáforas,
que se destinam e se baseiam à quem as escreve
A autora que não se reconhece
como próprio furo,
própria farsa da notícia dessa imprensa
Vergonhoso, retornar a ler todas as fábulas,
tudo que já senti ou ainda devo de sonhar
Tudo que já descarreguei por aqui,
que não me faz querer voltar
Para as metáforas que só falam sobre eu mesma,
para as anedotas que não ouvem mais risadas
Para o tempo em que eu escrevia para os outros,
sobre mim.
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Convidei a saudade para tomar um café,
falamos sobre você
Lembramos de todos os cafés que você acompanhou,
da manhã da tarde e da noite
Lembramos dos momentos bons,
choramos um pouco
Lembramos dos momentos ruins,
as brigas e como você era tolo
Lembramos dos toques, dos beijos,
e os carinhos que em mim restou
Lembramos que a vida continua,
dizendo que tudo chegou ao fim
Deste livro que talvez eu não abra mais,
porque quando abrir ainda lembrarei de você
E a saudade é ocupada,
talvez não tenha tempo para tantos cafés.
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Se você não vier mais,
nem que seja pra buscar as tuas coisas
Que deixe comigo o teu cheiro que contigo,
te acompanhou a vida inteira
Que tanto queria eu acompanhar,
mas que por destino, falta de maturidade
Ou tempo,
não pude
Caso não surja mais na minhas memórias,
que esteja em minha lembrança
No meu coração,
que em minha autópsia os médicos digam
Morreu de amor,
mas não deixou de viver
Se não aparecer,
saiba que em meus sonhos você ainda é protagonista
Vigarista por sinal que se esconde nas brechas, mas não deixe de vir até mim
Se não vier mais,
nem que para buscar suas coisas
Saiba que nelas eu me fundi,
para que viva a vida imersa a você
Mesmo que se você não vier mais.
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Quando vier,
não deixe de bater na porta
Me faz olhar pela janela,
me faz caminhar até lá fora
Quando vier,
bate palma para que eu te receba
Para que eu te mereça,
me pede que passe um café
Quando vier,
não deixa de sentar na cadeira
De reparar na poeira,
reza comigo pela fé
Quando vier,
se debruça na mesa
Me aperta as mãos com força,
me engole inteira
Quando for embora,
não deixa que a memória me apague
Que a minha voz se torne silêncio,
que o tempo te impeça de bater na porta
Novamente,
quando, se um dia, retornar e vier.
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Eu sinto que me apagaram,
tal como aquelas velas de aniversário que iluminam todo o ambiente
De repente me assopram,
deixando minhas faíscas acesas sobre a mesa como mera lembrança do que fui
Mal cantaram parabéns como aviso prévio,
cortaram o bolo e o pedaço mofado veio para mim
Fazendo com que eu imaginasse quando a festa teria fim,
para que finalmente pudesse ficar escuro o suficiente
Para novamente acender e iluminar o ambiente,
mas enquanto isso não acontece
A parafina que me envolve me endurece,
não abastace o prato que me colocaram
Para que não sujasse o bolo,
mera formalidade para total proveito dos convidados
Quando todos se vão,
busco por fósforos perto de mim
Mas enrijecida como estou não alcanço,
e por medo de queimar não avanço
Porque quando me incendiar por inteira,
o que sobrará de mim?
Se a parafina que me envolveu todo esse tempo,
ela que foi tudo que sobrou da memória
do que já foi
Se for, quem dirá quando me acenderão novamente
como posso ter a certeza que o cheiro de vela queimada não me atormente?
Estática, fico saboreando a
sensação de um dia ter sido,
e a possibilidade de ser novamente.
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Retorne brevemente,
antes que a memória de ti saia de minha mente
Que te pensa incessantemente,
que te prende na corrente
Deste coração que sente,
uma falta de ti
Não parta novamente,
me deixando frente a frente
Com o vazio que construí,
enquanto te aguardava
E te guardava nos sonhos, nas orações,
nós búzios nos orixás
Que fosse meu amor,
que me traria alguma paz,
Em saber que um dia,
o pedido que fiz a todas estrelas e velas
Se cumpre com a tua presença em minha vida,
essa presença singela e bela que
ecoa em todos os cantos de mim
Retorne logo,
para que a tua memória,
em minha mente fique.
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Deixa está angústia amarrada,
fica e me acalma
Derrete todo teu sofrer da alma,
me deixa pelada me faz sua amada
Encontra em mim o teu porto de alegria,
faz com que a promessa se cumpra um dia
Estende essa esperança de final feliz,
mesmo que distante tu é o homem
que eu sempre quis
Deixa este arrepio no pé do corpo,
tropeça na risada se faz de tonto
Pesa esse amor no meio do vendaval,
me encontra no horizonte deste milharal
Encontra em mim a paz que tu plantou,
faz com que vá embora essa dor
Me incendeia de sonhos de serenidade,
me busca nas ruas da tua cidade
Me faz tua mulher,
do jeito que você quiser
Mas me traz calmaria ao ficar,
não deixa essa angústia te levar.
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