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Luiza Fernandes

@Temperanza · desde 2025

Cansei de esconde-los em mim

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Vida

Pai

Você já não é mais o mesmo de antes, não tem mais tantos cabelos pretos quanto tinha Percebe-se uma pele enrugada, quando comparada à minha Eu sou o relógio da sua vida, sou a contagem de tempo e a percepção de que este não cessa De que este tem pressa e impede que paremos, que voltemos, a época em que os brinquedos construíam o nosso vínculo O nosso amor um pelo outro, que você aprendeu a ter por mim E eu tive de construir um para você, apesar ou por causa de tudo Por causa desse mundo que assusta, e me faz percorrer novamente para o lar que fiz no teu colo Que já não me cabe como antes, porque eu fiquei muito grande e não ocupo o mesmo espaço Mas ainda tenho os mesmos traços, e noto que a cada dia fico mais parecida com você Mesmo que eu tenha me afastado tanto disso, ainda há orgulho em dizer que sou sua Tanta ironia em perceber, que eu tenho de te lembrar de coisas minhas Você já não lê mais agendas de escolas, lê meus trabalhos e revisões que gasto horas refazendo Buscando uma perfeição que você já admira, mas nunca teve coragem de dizer Quem faz birras e teimosias já não sou eu, que devo lidar com suas raivas e nervos enquanto aprendo que há beleza no tormento que compartilhamos Que vivenciamos até os dias de hoje, sem nos preocuparmos quanto tempo ainda resta para nós Dessa vida que o senhor me deu, e a que estou tentando trilhar sozinha.

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Amor

Devolve

Me devolve? todo o amor que você levou de mim Toda a esperança que tinha no meu peito, que não permitia que eu me comportasse assim Me devolve a vontade de amar, de ser amada em voz alta Mesmo que eu sempre estivera tão escondida, tão reprimida Sem vontade de fazer valer a pena a paixão, porque sempre me encontro na mesma solidão Eu sou o amor, não tem como você me roubar de mim mesma, mas ando perdida nessa sala imensa Que eu andei arrumando, tirando o pó e pintando as paredes com uma nova cor, com um novo propósito De que quando o sol batesse novamente pela janela, eu teria coragem o suficiente de abri-la para deixar que ele entrasse Para aquecer de vez essa alma tão gélida, tão frágil e translúcida Me devolve eu pra mim mesma, a obsessão que eu tinha por encontrar alguém Que fizesse com que eu lembrasse, que o amor mora em mim Assim como eu gostaria de morar nele, nessa sala ensolarada que esquenta o coração.

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Amor

Olhos

Não olha nos meus olhos, não beija minha boca procurando a minha alma Não finja que me ama, porque um dia a gente se engana e começa a atuar Nesse delírio que vivemos a cada noite, a cada dengo de se aconchegar um no outro Sem saber os limites do abismo da tua solidão, da minha solitude Da tua libido e da minha angústia, disfarçada de ternura e carinho Como água que se enrola nesses moinhos, que se perdem nos rios desses mares vastos e vazios E que se encontram por acaso, igual eu e você Perdidos por ai nessas ondas de carência, de sobrevivência Nesse mundo que mata cada vez mais, os brilhos e encantos Que você enxerga quando olha nos meus olhos.

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Poema

Bloqueio Criativo

Faz tanto tempo que não escrevo, quando faço é nada com nada Não rimo, não ligo, não tem apreço, não tem conexão entre as palavras Porque eu me busco enquanto penso, já sei que me escondo em meio as estrofes Nessas anedotas que já não tem mais graça, já não é história nem fantasia Já não tem sentimento, não é poema nem poesia Uma escrita que gira entre metáforas, que se destinam e se baseiam à quem as escreve A autora que não se reconhece como próprio furo, própria farsa da notícia dessa imprensa Vergonhoso, retornar a ler todas as fábulas, tudo que já senti ou ainda devo de sonhar Tudo que já descarreguei por aqui, que não me faz querer voltar Para as metáforas que só falam sobre eu mesma, para as anedotas que não ouvem mais risadas Para o tempo em que eu escrevia para os outros, sobre mim.

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Amor

Saudade

Convidei a saudade para tomar um café, falamos sobre você Lembramos de todos os cafés que você acompanhou, da manhã da tarde e da noite Lembramos dos momentos bons, choramos um pouco Lembramos dos momentos ruins, as brigas e como você era tolo Lembramos dos toques, dos beijos, e os carinhos que em mim restou Lembramos que a vida continua, dizendo que tudo chegou ao fim Deste livro que talvez eu não abra mais, porque quando abrir ainda lembrarei de você E a saudade é ocupada, talvez não tenha tempo para tantos cafés.

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Amor

Se não vier mais

Se você não vier mais, nem que seja pra buscar as tuas coisas Que deixe comigo o teu cheiro que contigo, te acompanhou a vida inteira Que tanto queria eu acompanhar, mas que por destino, falta de maturidade Ou tempo, não pude Caso não surja mais na minhas memórias, que esteja em minha lembrança No meu coração, que em minha autópsia os médicos digam Morreu de amor, mas não deixou de viver Se não aparecer, saiba que em meus sonhos você ainda é protagonista Vigarista por sinal que se esconde nas brechas, mas não deixe de vir até mim Se não vier mais, nem que para buscar suas coisas Saiba que nelas eu me fundi, para que viva a vida imersa a você Mesmo que se você não vier mais.

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Poesia

Quando Vier

Quando vier, não deixe de bater na porta Me faz olhar pela janela, me faz caminhar até lá fora Quando vier, bate palma para que eu te receba Para que eu te mereça, me pede que passe um café Quando vier, não deixa de sentar na cadeira De reparar na poeira, reza comigo pela fé Quando vier, se debruça na mesa Me aperta as mãos com força, me engole inteira Quando for embora, não deixa que a memória me apague Que a minha voz se torne silêncio, que o tempo te impeça de bater na porta Novamente, quando, se um dia, retornar e vier.

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Drama

Vela

Eu sinto que me apagaram, tal como aquelas velas de aniversário que iluminam todo o ambiente De repente me assopram, deixando minhas faíscas acesas sobre a mesa como mera lembrança do que fui Mal cantaram parabéns como aviso prévio, cortaram o bolo e o pedaço mofado veio para mim Fazendo com que eu imaginasse quando a festa teria fim, para que finalmente pudesse ficar escuro o suficiente Para novamente acender e iluminar o ambiente, mas enquanto isso não acontece A parafina que me envolve me endurece, não abastace o prato que me colocaram Para que não sujasse o bolo, mera formalidade para total proveito dos convidados Quando todos se vão, busco por fósforos perto de mim Mas enrijecida como estou não alcanço, e por medo de queimar não avanço Porque quando me incendiar por inteira, o que sobrará de mim? Se a parafina que me envolveu todo esse tempo, ela que foi tudo que sobrou da memória do que já foi Se for, quem dirá quando me acenderão novamente como posso ter a certeza que o cheiro de vela queimada não me atormente? Estática, fico saboreando a sensação de um dia ter sido, e a possibilidade de ser novamente.

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Amor

Retorne

Retorne brevemente, antes que a memória de ti saia de minha mente Que te pensa incessantemente, que te prende na corrente Deste coração que sente, uma falta de ti Não parta novamente, me deixando frente a frente Com o vazio que construí, enquanto te aguardava E te guardava nos sonhos, nas orações, nós búzios nos orixás Que fosse meu amor, que me traria alguma paz, Em saber que um dia, o pedido que fiz a todas estrelas e velas Se cumpre com a tua presença em minha vida, essa presença singela e bela que ecoa em todos os cantos de mim Retorne logo, para que a tua memória, em minha mente fique.

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Amor

Súplica

Deixa está angústia amarrada, fica e me acalma Derrete todo teu sofrer da alma, me deixa pelada me faz sua amada Encontra em mim o teu porto de alegria, faz com que a promessa se cumpra um dia Estende essa esperança de final feliz, mesmo que distante tu é o homem que eu sempre quis Deixa este arrepio no pé do corpo, tropeça na risada se faz de tonto Pesa esse amor no meio do vendaval, me encontra no horizonte deste milharal Encontra em mim a paz que tu plantou, faz com que vá embora essa dor Me incendeia de sonhos de serenidade, me busca nas ruas da tua cidade Me faz tua mulher, do jeito que você quiser Mas me traz calmaria ao ficar, não deixa essa angústia te levar.

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