Pai
Você já não é mais o mesmo de antes, não tem mais tantos cabelos pretos quanto tinha Percebe-se uma pele enrugada, quando comparada à minha Eu sou o relógio da sua vida, sou a contagem de tempo e a percepção de que este não cessa De que este tem pressa e impede que paremos, que voltemos, a época em que os brinquedos construíam o nosso vínculo O nosso amor um pelo outro, que você aprendeu a ter por mim E eu tive de construir um para você, apesar ou por causa de tudo Por causa desse mundo que assusta, e me faz percorrer novamente para o lar que fiz no teu colo Que já não me cabe como antes, porque eu fiquei muito grande e não ocupo o mesmo espaço Mas ainda tenho os mesmos traços, e noto que a cada dia fico mais parecida com você Mesmo que eu tenha me afastado tanto disso, ainda há orgulho em dizer que sou sua Tanta ironia em perceber, que eu tenho de te lembrar de coisas minhas Você já não lê mais agendas de escolas, lê meus trabalhos e revisões que gasto horas refazendo Buscando uma perfeição que você já admira, mas nunca teve coragem de dizer Quem faz birras e teimosias já não sou eu, que devo lidar com suas raivas e nervos enquanto aprendo que há beleza no tormento que compartilhamos Que vivenciamos até os dias de hoje, sem nos preocuparmos quanto tempo ainda resta para nós Dessa vida que o senhor me deu, e a que estou tentando trilhar sozinha.
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