Quero superar essa dor
Mas me doem os peitos
O teu que já não me encaixo
Meu seio que já não escancara sua língua
E se dizer que te amo
Aumentasse meu torpor
Diria que te amo mais do que a mim
E que por isso me doem
Doem as pernas que só caminham
No caminhar dos seus olhos
Que quando não me vêem
Eu já não me vejo
No toque do seu corpo
Que quando não me sentiu
Eu não mais me senti
O inteiro do seu amor
Continuar lendo
Paixão minha
Que se foi embora
Como dói amar mais
O olhar dos outros
E o meu próprio
Eu não enxergar
E em somente um mês
Nascerá meu neném
Vocês podem imaginar
Olhos esbugalhados
Transmissores de sorrisos
Faceiros que dilatam
Pupilas pulsantes em alegria
Todavia
Este vez chora, vez esperneia
Vez range entre dentes
A injustiça em ser nascido
Sem que mesmo possua
Seu desejo onírico da escolha
É o meu Neném
Nem trabalho
Nem estudo
(Essa ficou nos rascunhos. 2024, um mês antes do ENEM)
Continuar lendo
Ontem nasci só
Nua e chorosa, fazia do medo
Um manto a me agarrar
Como o vício que é viver
E de viver, se esquecer
Da nudez em chorar
Uma lágrima
Que de testemunha
Os ouvidos aquecem
É a pele íntima que se veste
Por detrás de todo o tecido
Uma cúmplice do crescer
E a vontade junto cresce
De que um dia me desapareça
A necessidade de amar
Através de outros corpos
Pois amanhã morro íntima
Como vim ao mundo
Sozinha e repleta de mim
Continuar lendo
Ele nunca soube se a necessidade de existir, em contrapartida com a sensação de inexistência, era o que o matava ou ainda o mantinha vivo.
O sangue ainda corrente em seu corpo não passava de um caminho vivo que percorria para os demais, meros incógnitos.
Viver o crucificava, e sentia que a ferida de sua existência tornara-se o cordeiro que absolvia seus pecados.
Enquanto a dor fosse sua salvação, o egoísmo em subsistir para ele próprio já não o levaria até o inferno.
Mas pensar nele mesmo nunca foi o sinônimo;
Já não vivia para si e muito menos conhecia sua identidade, que não fosse o que via no espelho: um rosto cadavérico buscando se encaixar em algum túmulo onde lhe sucedesse descanso.
Mas estava sozinho. Outra vez.
"Tarde demais", foi o que disse um pouco antes da sua primeira morte.
Aprenda com a vida; são diversas as mortes que se iniciam com pequenas pontadas na couraça denominada de pele.
A última e mais fatal é a da alma.
Enquanto procurava uma cova em sua solidão, ele se perguntava se era essa a mais indolor.
Continuar lendo
Ele acreditaria que era sua própria dor, se a tristeza já não estivesse ganhando seu próprio ritmo do qual ele próprio era impossível seguí-la, sendo lento demais, desengonçado demais, e assim sentia que o mundo estava na sua própria cabeça, motivo pelo qual suas preces sempre continham a exasperação que se manifestava num choro incessante, como o cordeirinho santo que o era, sempre melindroso e bem agradecido, enquanto forçava-se a se conformar em ter nascido de um jeito tão defeituoso; "deve existir um motivo, é claro. Sempre há um motivo recompensador!"
Mas lá estava ele, como um jovem de lágrimas secas nos olhos sobre o seu travesseiro enquanto lembrava-se de um dia ter crido na suposta salvação. Agora sabia ser impossível; entendia que sua fé não passou de uma ilusão.
As lágrimas tornaram-se tão subvertidas quanto a sua alma, e ideias vilipendiadas acerca dos Céus tomavam sua mente enquanto lembrava-se das preces que resultaram em choros de alegria, onde o mesmo travesseiro testemunhava contentamentos, e também a iludida esperança de que um dia não se tornasse quem hoje era. Tarde demais.
Se o Céu não atendia suas preces; mudando sua maldita essência, então ele tinha de mudar sua essência acerca do Céu.
Continuar lendo
Nos agarramos em girassóis
Tão urgente e automático
Quanto a pressa de Van Gogh
Ou melhor
Vamos reformular
Nos agarramos numa pressa
Tão urgente e automática
Quanto os girassóis de Van Gogh
Pintamos nossa obra
Querendo colher o amarelo
Girando em linha reta
Nos equilibrando em girassóis
Ou melhor
Vamos reformular
Pintamos o amarelo
Querendo colher nossa obra
Mas essa parte nunca muda
Essa parte, a gente não reformula
Girando em linha reta
Nos equilibrando em girassóis
Refletimos nossa própria criação
Nos agarramos ao espelho e
Queimamos nossa pele
Ou melhor
Vamos reformular
Refletimos nossa própria pintura
Nos agarramos aos girassóis e
Essa parte nunca muda
Essa parte, a gente não reformula
Queimamos nossa pele
Continuar lendo
Sei que minhas palavras machucam
Tanto quanto o silêncio da sua dor
Talvez meu calar não feriria
Como doeu ouvir da sua boca
O fulgor de toda sua frieza
O gélido tilintar do que hoje é mudo
Minhas desculpas são ditas
Mas falas são apenas desculpas
Cometendo a mesma pergunta
Questiono novamente meu erro
Em busca da mesma dor
Dolorosa resposta para um
Errôneo perdão
Apenas me perdoe
29/08/22
Continuar lendo
Não queria ser o erro
Mas já sou o errado
Em querer ser o acerto
Eu finalmente beijei!
Mas quem sofreu de amor
Foram minhas estrofes
Antes tão curtas quanto
O gosto de um beijo
Extinguindo-se da boca
Escondendo-se na mente
Contaminando meus versos
E fazendo das palavras
Meras súditas da experiência
Saudosa lembrança que retorna
Como uma segunda vez
Nova, novamente, contaminante
27/08/22
Continuar lendo