O Pecado do Rio (Mia Couto)
Na igreja, Rosarinho se confessou: engravidei do rio, senhor padre. Com gesto de água arredondou o ventre. O padre se enrugou: ela que não usasse desculpa para os seus mortais pecados. A ofensa tremia na voz dela quando retorquiu: — Desculpe, padre, mas Nossa Senhora não emprenhou de um feixe de luz? Para mais, acrescentou Rosarinho, o senhor padre nem nunca, nem jamais viu esse rio. E rematou com lânguida saudade: aquele ondear, as tonturas que ele traz... Pegou o padre pela mão e o convidou a descer o vale. Agora, todas as noites o padre se banha nas águas do rio pecador. Poema presente no livro "Poemas Escolhidos", de Mia Couto, publicado pela editora Companhia das Letras.
Batistone Poetisa
nossa, ja quero comprar esse livro pra ler