A leve sensação de frio
Tocava a minha pele...
Ao som de Gnossienne
E paisagens tão desoladas,
Algo preenchia o meu ser,
Como o paradoxo do tempo.
De dentro das abstrações,
Dos sentidos, da nostalgia,
De sentimentos esquecidos
Ou incapazes de existirem,
Eu senti o suave e misterioso
Ato de existir... Apenas existir.
A linguagem fugiu de mim,
Mostrou-me algo magnífico,
Que é como habitar o etéreo
E tocar nas mãos do tempo,
Da realidade, dos sonhos,
Das fantasias e da existência...
Hoje não consigo conservar
As memórias do que ocorreu,
Nem distinguir se era memória,
Sonho, desejo ou algum delírio,
Mas em algum canto profundo,
Entre as linhas que compõem
Todos os momentos da vida,
Isso desperta uma nostalgia
Que é quase melancólica demais
Para representar algo tão sublime.
Max Tuvache
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Na igreja,
Rosarinho se confessou:
engravidei do rio, senhor padre.
Com gesto de água
arredondou o ventre.
O padre
se enrugou:
ela que não usasse desculpa
para os seus mortais pecados.
A ofensa tremia
na voz dela quando retorquiu:
— Desculpe, padre,
mas Nossa Senhora
não emprenhou de um feixe de luz?
Para mais, acrescentou Rosarinho,
o senhor padre
nem nunca, nem jamais viu esse rio.
E rematou
com lânguida saudade: aquele ondear,
as tonturas que ele traz...
Pegou o padre pela mão
e o convidou a descer o vale.
Agora,
todas as noites
o padre se banha
nas águas do rio pecador.
Poema presente no livro "Poemas Escolhidos", de Mia Couto, publicado pela editora Companhia das Letras.
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Os pássaros são belos,
Todos eles, sem exceção!
Mas, por vezes, me pego pensando
Que, se eu fosse um pássaro,
Eu seria muito cheio de mim
Por ter tantos admiradores.
E, por isso, e também não por isso,
Eu não acharia todos
Os outros pássaros tão belos;
Talvez não achasse nem metade,
Nem um terço deles.
-Max Tuvache.
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Dentro do avião,
Meus pensamentos
Causaram uma turbulência.
A vida é uma perturbação.
- Max Tuvache.
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A minha verdade não é definida pela percepção dos outros, mas pela minha própria. Tudo que posso conceituar, posso criar. Sou, afinal, como um deus. Porém, sou impotente a mim mesmo.
Sou meu suserano e sou meu vassalo. Conheço a tudo, mas não conheço-me. Possuo tudo, menos o controle. Busco a redenção sem saber o meu pecado. Amaldiçoo a razão, pois dela veio a minha deturpada percepção.
- Max Tuvache.
A
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po
de
ria
me
di
zer
on
de
es
tá
a
mi
nha
cons
ci
ên
cia?
- Max Tuvache.
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Os homens, no mundo dispersos,
Concentraram-se frente à balconista.
"Aberta a venda de ingressos
Para o congresso humanista."
Em honra aos grandiosos progressos
De uma sociedade tenra e sufragista
Todos poderão ver os nomes impressos
Na nova história humana-progressista:
Os visionários dos triângulos convexos
Saudarão a humanidade escapista.
- Max Tuvache.
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Furai os próprios olhos.
Este é o seu sacrifício,
Se queres, de fato, ver
Sem autoinfligir em si
Tanto repúdio e ânsia.
Os olhos são insuficientes.
Tua dor não limita-se à visão.
Furai, também, os tímpanos,
Assim não perceberá a cacofonia
Das engrenagens do mundo.
Feito, em ti a essência
Estará em sua forma bruta,
Sem a deformação
Da imagem de Deus.
- Max Tuvache.
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Certa vez, a cidade pôs-se a dormir,
E todos dormiram tranquilamente.
Os habitantes acordaram confusos:
Não havia a luz; ainda era noite.
Nesse tempo, não haviam relógios,
E o tempo era definido pelo dormir
E pelo despertar, regido pelo sol;
Não sabiam o que fazer, e nada fizeram.
Houve muito pânico, histeria e desalento,
Mas quanto mais habitavam a cidade,
Que nunca despertou-se novamente,
Mais acomodavam-se no crepúsculo,
Estando acordados em uma cidade estéril.
- Max Tuvache.
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