Já fui morto em muitos momentos:
Quando expelido do ventre materno
E vi-me refém do mundano inferno
Que troveja em vívidos tormentos.
Morri, sempre, mais e tanto,
Açoitado por impuros olhares
A conspirarem nos cruéis altares
Onde se colhem a dor e o pranto.
Compelido a permanecer somente,
Abracei da essência a brevidade,
Dissolvendo-a vagarosamente.
Apenas para descobrir a vida
Desmentida nesta vã verdade:
À morte acompanha a via ressentida!
(L.V)
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Cristal celeste:
Cruzeiro do Sul...
Os céus vão espumando
Em ondas de azul.
O véu do poente
No coral espelhado
É o céu misturado
Co'o mar reluzente.
A morte cerúlea
Na foz da amplidão
Reúne os matizes
Em um turbilhão.
Do mundo surgido,
É senhor e arauto
O homem nascido:
Placenta e cobalto.
(L.V)
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Corpos de neon dançam
Sob flashes cáusticos
Enquanto ondas vítreas rebentam
Sobre lares e antros — coxas e catracas.
Rios de vaselina e Pinho deságuam
Em quartos e cabarés onde amantes
E multidões aderem suas peles
Com a viscosidade divina do látex
E com o húmus lixiviado da carne.
Kramer Gui Savonarola Calvino
Diderot Casanova Baudelaire Sade
Devassam-se mutuamente nos becos.
Genebra Florença Paris Veneza São Paulo
Garotos ajoelhados perente retábulos
em grata ereção
pelos pecados consentidos.
(O gozo prévio catequiza a moral)
Minha boca diametralmente apartidária enoja-se
Da própria inação conquanto minha língua invada bocas e mentes extremas.
Sou pai, sou o feto de meu próprio ideário...
Mas a remissão incestuosa dos hipócritas
"É meu dever e minha sedição."
(L.V)
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Coluna fulgurante,
Densa e quente.
Língua divina, espiralada,
Esfumaçada e fervente.
Matriz espessa de entranhas —
Flamante, chamejante, ardente.
(Febre do corpus telúrico!)
Irrupção viscosa de ígneos rizomas.
Ventre férreo... Foz incandescente!
(L.V)
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Pele em medo,
Nascitura e quebradiça:
Pele súplice de vida.
Pele ávida,
Fecunda,
Forjada em âmnio e dente.
Pele comovida dos túmulos —
Marmórea,
Óssea,
Escalpelada.
Pele tingida,
Envelhecida,
Costurada.
Pele anoitecida
Alvejada,
Invadida...
Em linhas de nervos costurada.
(L.V)
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Poesia rimada
Verso brando
Vaso branco:
Louça quebrada.
Poesia rimada
Verso manco
Falso encanto:
Linhas borradas.
Poesia rimada:
Verso santo
Por enquanto
Fé amestrada.
Poesia rimada
Verso franco?
Ledo engano —
Poesia mimada.
(L.V)
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Vi o mar desbravar o céu
Enquanto as estrelas ancoravam
Rútilos corais que adornavam
A imensidão do negro véu.
E desse mar vi a chuva quebrar
Suas ondas — qual batismo —,
Aspergindo o vasto abismo
Com gotas puras de luar.
Vi as nuvens nas marés
Dispersarem suas espumas,
Sincronizadas com o balé
De vagas brancas como plumas.
Vi o Sol no fundo do mar
Represando o sal da terra,
E as ondas sempre em guerra
Banhando os astros sem parar.
(L.V)
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Na memória que é só lembrança
De tudo aquilo que se foi
(E que ficou em mim!)
Ecoa um grito de recusa
Transpassado pela seta atroz
Das horas da tua partida
Que também me levaram
Ainda mais além
Para longe de mim e de mim.
E o sorriso que resta
É um sorriso sonhado
Dentro de um sonho remendado
Que vou sufocando
Na clausura das ausências.
E chamo, sem saber que chamo,
O nome que fugiu de mim
Em um verso nunca escrito.
As horas continuarão a espreitar os dias,
Mas nunca haverei de passar
Da superfície dos teus olhos,
Nem teu tempo será
O pretendido dono de mim...
(L.V)
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Tal alvura
Me assombra
Na rigidez
Da carne toda dura
Na penumbra
Do teu tato feminino
Na timidez de menino,
E na infinita vontade
Que perdura.
(L.V)
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Imprimo em vão,
As letras turvas dos meus suspiros.
Cedo, como quem tem sede,
Ao justo torpor do teu olhar.
Tua voz - um torvelhinho -
Me atrai, e me traio
Na órbita insondável
Da carne.
(Melíflua Lua cheia!)
Desejo....
Perturbam-me sonhos suados,
Unhas inebriantes,
Cintura mourisca e balouçante.
Fêmea divina em queda
A condenar-me docilmente
À pira impenitente
De teus lábios de vinho.
Flamante alvura!
(L.V)
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