Queria, do universo teu, achar-te
Um pouco apenas de querer no peito,
Ser um pedaço da tua noite quando me deito,
Ter um espaço no céu só para amar-te.
Queria, dos receios teus, achar-te
Um momento só de desvario,
Ser um pedaço do teu desafio
No coração que de amor se parte.
Queria, dos planos teus
O descuido de encontrar os meus
Nas sortes que se tem na vida.
Queria, dos braços teus
O doce e sereno adeus
Da solidão vivida.
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Amar-te é como de Deus um novo invento.
É como o vento a levar do fogo a brasa.
É como uma casa p'ra fugir do vento,
Como a liberdade p'ra servir de casa.
Amar-te é como o rio a levar a pedra,
Como lareira a dominar o frio.
Como chuva a semear a erva
E talvez como pedra a levar o rio.
É como um pássaro em vôo leve.
Como o céu a servir de manto.
Como um segredo que querer mais deve
Revelar-se e declamar um canto.
Amar-te é como o céu a tocar o chão,
Como o orvalho a cair ao léu.
É como a lua a me caber na mão
E como o chão se tornando céu.
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É noite no bosque, a recatar o vento,
É pálida a lua que um segredo esconde.
É triste o riacho a escoar lá dentro.
É noite no bosque ao estreitar da rua,
É fundo o poço ali recôndito.
É triste o segredo que guarda a lua.
É noite no bosque, a revelar desejo.
Brilhante a moeda no poço jogada,
Jogada a esperança de ganhar-te o beijo.
É noite no bosque, e outros mais viu a lua:
"- É preciosa a terra por ti pisada!"
"- É belo o sorriso na face tua!".
À noite, no bosque, o segredo:
É farto o poço de tristes moedas,
De quem lhe deseja, e declarar tem medo.
É noite no bosque, o vento fugido da rua.
Ruidoso o riacho nas suas quedas,
Aos outros tantos pedindo moedas,
P'ra lançá-las no poço desejando a lua.
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O teu sorriso é mar para navegar.
A tua voz é riso que o próprio encanto
Fez na terra ecoar enquanto
Deus fê-la iluminar.
Os teus olhos têm a leveza do firmamento,
E têm cor da terra quando o sol a aquece.
Têm gosto de fel quando me esquecem,
Ou se me escondem por um momento.
O teu cheiro tem ares de lealdade.
Tem cores da vida quando se levanta,
Tem choros de adeus quando amores planta,
E, plantando amores, colhe saudade.
O teu canto é hino sofrido e brando
Das noites solitárias e tristes
Das paixões das quais te cobristes
E adormeceste amando.
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Sou o produto de um ser inacabado.
O penhor da vida quando o mal descansa
O conflito de mim quando a alma mansa
Agita-se como encarcerado.
Sou de mim um pequeno pedaço
Quando outros mais se me libertam.
Um pouco do todo quando se despertam
Fragmentos dos antigos passos.
Sou mais eu quando me desfaço
De ser sempre o eu vivido.
E assim, sou metal muito bem polido
E às vezes ferrugem quando me refaço.
Sou inteiro quando a vida é incompleta;
Devaneio quando o mundo é são;
Sou prova viva da contradição;
Sou de tudo, sou poeta.
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Se um pouco apenas souberas
Que mérito levas das estrelas
Quando tu, na tua alma a contê-las
Fê-las brilharem por longas eras...
Se um pouco apenas souberas
Que se as canções que a natureza canta
Não se fizeram-te por beleza tanta
É cantando-lhe amores que tu as fizera...
Se um pouco apenas souberas
Que meus invernos e suas friezas
Aqueceram-se em tuas primaveras!
Se um pouco apenas souberas
Que dos meus olhos fizeram-se presas
E dos teus olhos fizeram-se feras!
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Não quero do tempo a volta
Quando se tem a lembrança.
Não quero à mente ver se alcança
Um pouco menos de lucidez.
Não quero de um só abraço a vez
Quando só ao delírio cedo,
Nas noites sonhando sem medo
E acordando feliz.
Não digo que queira o que um dia quis:
Que algum plano se nos ouvisse,
E ainda que coisa tal pedisse,
Maior bênção seria se errado desse.
Não vou derramar-te uma só prece
Se é que desejo por ti eu tenha,
E ainda que a mim me venhas,
Não cedo-te um beijo apenas.
Esse desejo a que me condenas,
O mato só a lembrar-te o gosto,
Pois não fere-me o doce mosto
Memorando-me somente.
Não quero o desgosto intermitente
De suportar-te comigo,
Mas sem mágoas tais consigo
Relembrar teu fiel amor.
Não quero-te como for,
Mas inda lembro-me contigo.
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Quando o céu recolhe-se da desgraça
E a esperança doTeu povo cansa,
Minha prece em fé de Ti descansa,
Até que a justiça da Tua mão se faça.
Mais quero das nuvens, Senhor,
Ver descer Teu juízo e ira,
Que viver mais essa dor
Com a qual minha nação feriras.
Que o silêncio perdoes dos justos,
Que as vozes infiéis se calem,
E que as forças dos céus abalem
Dos pecados os seus custos.
Se Lhe aprouver ouvir-me - mesmo mudo-,
Como indômito desmerecido,
Clamarei, junto ao meu pedido
Tua vontade, que bem sabe tudo.
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Um cinzeiro,
Uma dor.
Uma vívida
E longa dívida
Sem labor.
Um cinzeiro,
Uma lembrança,
Uma desavença,
Uma descrença
De uma criança.
Um cinzeiro,
Uma pena
De um passado
Inacabado
Que se encena.
Um cinzeiro,
Uma amargura,
Um tormento,
Um momento
De censura.
Um cinzeiro.
Uma prisão,
Um desalento,
Um momento
De solidão.
Julia Lemos
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Se com tremor de encanto desse
Eu conquistar-te a mil abraços
E afagar sutis encalços
Que ao te olhar me acontecem!
Ou desse, apenas com o pensamento
Interpretares mil dilemas
Que só de me passar condenas,
Quando ao teu querer me atento!
Se desse -algum desprezo que me rendes-
Descansar eu de então viver
No cativeiro a que me prendes!
Se desse que tu me fosses liberdade
E nos faróis com quais contendes
Fosses símbolo de lealdade!
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