Glauber Santtos @Glauber_Santtos
Carinho

O Eu Sepultado

Sente-se, meu velho eu, preciso te contar Quantas partes de nós precisei sacrificar. Enterrei nossos sonhos para a dor não nos vencer, Mas morri tantas vezes tentando sobreviver. — Você matou nossa essência para não sentir a ferida? — Eu só queria continuar, mesmo odiando a vida. — Então, por que, se estamos vivos, parecemos sepultados? — Porque alguns dos nossos mortos nunca foram enterrados. Olhe nos meus olhos e me diga, sem piedade: Você ainda reconhece em mim alguma humanidade? Ou sou apenas o cadáver dos sonhos que você plantou, Um homem que respira no lugar de quem você amou? — Dize-me: ainda há em ti algum desejo de existir? — Há! Mas já não sei se viver é o mesmo que persistir. — E quando te perdeste de tudo o que acreditavas ser? — No instante em que sobreviver me custou o próprio ser. — Não te revolta ter vivido sem jamais te pertencer? — Revolta-me ter sido inteiro e não saber quando deixei de ser… — E quem há de responder por tudo o que sacrificaste? — Ninguém… Perdi-me tentando salvar o pouco de mim que restava. E agora compreendo, encarando o vazio: Não foi a morte de quem eu fui que me levou ao extremo; Foi a vida que me desfez, lentamente, Até que já não houvesse em mim Nada que lamentasse o meu fim. E, diante de mim, meu velho eu permanece calado. Talvez porque não haja resposta para o que foi destruído, Talvez porque ambos saibamos o que tentamos esconder: Eu não enterrei quem fui para deixar de existir. Enterrei quem fui porque já não sabia como viver. Escrito por: RosaNegra e Glauber Santtos

Comentários · 2

  1. RosaNegra

    Agradeço pela parceria, poeta! Foi uma honra escrever contigo

  2. Nilza Poetisa

    A parceria ficou perfeita e linda. Vocês tem essa sintonia. E deve explorá-la. Bravíssimo 👏👏👏✍️