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Glauber Santtos

@Glauber_Santtos · desde 2020

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Carinho

O Eu Sepultado

Sente-se, meu velho eu, preciso te contar Quantas partes de nós precisei sacrificar. Enterrei nossos sonhos para a dor não nos vencer, Mas morri tantas vezes tentando sobreviver. — Você matou nossa essência para não sentir a ferida? — Eu só queria continuar, mesmo odiando a vida. — Então, por que, se estamos vivos, parecemos sepultados? — Porque alguns dos nossos mortos nunca foram enterrados. Olhe nos meus olhos e me diga, sem piedade: Você ainda reconhece em mim alguma humanidade? Ou sou apenas o cadáver dos sonhos que você plantou, Um homem que respira no lugar de quem você amou? — Dize-me: ainda há em ti algum desejo de existir? — Há! Mas já não sei se viver é o mesmo que persistir. — E quando te perdeste de tudo o que acreditavas ser? — No instante em que sobreviver me custou o próprio ser. — Não te revolta ter vivido sem jamais te pertencer? — Revolta-me ter sido inteiro e não saber quando deixei de ser… — E quem há de responder por tudo o que sacrificaste? — Ninguém… Perdi-me tentando salvar o pouco de mim que restava. E agora compreendo, encarando o vazio: Não foi a morte de quem eu fui que me levou ao extremo; Foi a vida que me desfez, lentamente, Até que já não houvesse em mim Nada que lamentasse o meu fim. E, diante de mim, meu velho eu permanece calado. Talvez porque não haja resposta para o que foi destruído, Talvez porque ambos saibamos o que tentamos esconder: Eu não enterrei quem fui para deixar de existir. Enterrei quem fui porque já não sabia como viver. Escrito por: RosaNegra e Glauber Santtos

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Vida

O Bestiário Da Alma

Sou homem ou fera vestida de razão? Anjo que apodrece, demônio que ora, carrego um cemitério dentro do coração e alimento os monstros que me devoram A carne exige sangue, a consciência, perdão Vivo entre o pecado e a santidade, com Deus agonizando em minha contradição e o Diabo aplaudindo minha humanidade Que espécie de criatura nos tornamos, se destruímos o mundo para nos sentirmos vivos? Erguemos tronos sobre os corpos que pisamos e chamamos de progresso os nossos crimes antigos Ó natureza cruel! Ó sublime hipocrisia! Somos lobos com discursos de cordeiros, vendemos nossas almas pela falsa euforia e enterramos nossos filhos sob os próprios celeiros Se a razão nos distingue dos animais, por que fazemos da existência um matadouro? Que valor tem a paz proclamada nos jornais, se há sangue em nossas mãos e ganância em nosso ouro? Eis o paradoxo: Queremos ser divinos, mas nos ajoelhamos diante da própria vaidade Construímos paraísos, fabricamos desatinos e culpamos os demônios pela nossa crueldade No fim, quem nos condena? O céu ou a terra? Quem há de julgar o que fizemos de nós? Talvez Deus tenha chorado ao nos ver de joelhos, implorando salvação com o sangue na voz E quando a última estrela abandonar o firmamento, quando a Terra já não suportar nossos pecados, não haverá redenção, milagre ou sacramento que absolva os animais que fingimos não ter despertado Pois o inferno não começa depois da morte, nem o mal precisa de tridentes para existir Às vezes, a fera mais cruel e mais forte é o homem que aprendeu a sorrir enquanto faz o mundo ruir. : Glauber Santtos

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Entre o Túmulo e a Flor

Ainda sonho encontrar o amor Na última morada da minha dor Onde o peito, cansado de sangrar Aprendeu a confundir ferida com flor Não quero mais aquele amor que parece que vêm apenas para me salvar Quero que venha para permanecer Sentado entre os escombros da alma Quando tudo em mim quiser morrer Se existe Deus dentro da ferida Pode haver também uma pequena luz Uma célula de amor, tão invisível Mas que nasce onde a própria dor me reduz Que paradoxo cruel, quase divino Ser curado justamente pelo que temo sentir Pois talvez seja preciso amar outra vez Para descobrir que ainda sei existir Então, se um dia encontrares meu coração Não te assustes com aquilo que a dor deixou Há cicatrizes que parecem túmulos Mas é dentro delas que o amor floresceu. :Glauber Santtos

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Desta vez, acabou?

Tempo, por que precisa passar tão devagar? Esperar pela morte é tão difícil Quando sou torturado durante uma madrugada inteira Antes de apagar ao primeiro raio de luz Oh, acabe com isto Cave o buraco Mande-me para baixo Onde a dor finalmente vencerá Tudo o que foi dito Todas as memórias e todos os sentimentos Fingindo ser real enquanto esqueço quem sou Existe uma porta E do outro lado, há escuridão É para lá que sempre vou Quando preciso sentir mais dor na pele Para disfarçar aquilo que me destrói por dentro O pecado está sempre à minha porta Então, ele sussurra: — Corte as veias Talvez eu tenha feito um pacto Sangue derramado pelo chão É sempre assim, até a dor parecer diminuir Uma luz brilha em meus olhos A morte me recebe com um sorriso Então, eu pergunto: — Desta vez, acabou? : Glauber Santtos

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A Luta Interior

— Como está sua noite? — Se eu te disser a verdade? — Claro. — Minha noite se resume a The Fight Within, do Memphis May Fire, e uma taça de vinho. — Só isso? — Às vezes, é tudo o que preciso. — E o que você está pensando? — Em tudo que eu venci em silêncio… e em tudo que ainda estou tentando vencer dentro de mim. — Parece uma noite pesada. — Talvez. Mas algumas noites não foram feitas para serem felizes. Foram feitas para a gente se ouvir. — E a música ajuda? — Muito. Tem coisas que eu não consigo explicar falando. Algumas músicas simplesmente dizem por mim. — Então… você está bem? — Estou aqui. Acho que, por enquanto, isso já é alguma coisa. : Glauber Santtos

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Frases

O Tempo

O tempo é um oceano, onde as correntezas nos levam para destinos que desconhecemos. : Glauber Santtos

Vida

Brincar De Ser Deus

Ele brincava de ser Deus com as mãos sujas de barro, decidia quem merecia o céu e quem deveria conhecer o inferno Vestiu a própria arrogância de santidade, ergueu um altar feito de espelhos e chamou de milagre tudo aquilo que conseguia controlar Dizia: “Eu sei o começo, eu conheço o fim" Mas não sabia sequer o que fazer com o próprio medo quando a noite chegava e o silêncio pronunciava seu nome Ele criou pecados para depois vender perdão Criou monstros para justificar suas guerras Criou destinos para nunca precisar admitir que também estava perdido E quanto mais alto subia, mais distante ficava do céu Porque há uma diferença entre tocar as estrelas e pensar que elas pertencem às suas mãos Um dia, o espelho rachou E por trás da coroa não havia um deus Havia um homem Um homem pequeno, apavorado diante do infinito, tentando transformar sua impotência em onipotência Então percebeu: não era Deus quem ele queria ser Era alguém que nunca mais precisasse sentir que poderia perder tudo Mas o universo não se ajoelhou O tempo não obedeceu A morte não negociou E o amanhã continuou chegando sem pedir sua permissão Foi assim que seu reino terminou Não com trovões Nem com anjos Muito menos com fogo descendo dos céus Terminou simplesmente quando ele finalmente entendeu que até quem brinca de ser Deus continua sendo humano E talvez essa seja a punição mais cruel: descobrir que nenhuma coroa pode salvar um homem da própria humanidade. :Glauber Santtos

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Vida

O Sol E A Liberdade

Nasci entre as sombras, onde a noite sempre impera Com grilhões invisíveis rastejando sobre meus pés Preso aos temores, criações da minha alma Prostrado ao peso de antigos porquês Mas vi, ao longe, o Sol rasgar o abismo Feito um incêndio erguido contra o chão Talvez eu tenha compreendido Fugir do próprio abismo Não é deixar o mundo, é libertar o próprio coração O Sol não pede ao céu qualquer licença Não teme a noite, a treva ou seu poder O Sol arde sozinho, dissipando a bruma Como quem nasce sabendo que vai vencer E eu, que tanto procurei em portas fechadas Descobri que a prisão estava em mim Eram crenças, culpas, vozes acorrentadas Que prometiam um começo, mas diziam sempre “fim” Oh, eu caminhei em direção à chama Mesmo sabendo que haveria dor Pois toda alma que verdadeiramente ama Precisa atravessar seu próprio interior Queime, Sol, aquilo que me aprisiona Consuma os medos que escondi dentro do peito Faça da minha fraqueza uma coroa Levante-me da minha queda E mostre-me o caminho certeiro Não quero uma liberdade feita de ausência Nem quero um céu vazio onde nada há Eu quero libertar minha própria consciência E descobrir quem sou quando ninguém me julgar Se a carne é barro, que o espírito seja vento Se o mundo é cárcere, que a alma seja céu Se a vida me impõe seu sofrimento Que eu encontre liberdade dentro do que sou E quando a noite vier, inevitável Não temerei seu manto sobre mim Pois sei que o Sol, embora invisível Continua queimando para além do fim Talvez liberdade não seja alcançar o Sol Mas aprender a carregá-lo na escuridão Ser luz quando o mundo exigir um farol E não confundir silêncio com solidão Eu sigo algo entre a terra e o infinito Com meus pés no mundo e os olhos no além Porque meu espírito, quando escuta o próprio grito Já começa a romper as correntes que o detêm E se um dia eu finalmente compreender Que não existe céu distante para alcançar Talvez descubra, no instante de morrer Que o Sol que procurei sempre esteve em meu olhar. : Glauber Santtos

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Vida

Ad Astra Per Aspera

Da terra firme ao silêncio do espaço Partimos carregando a nossa herança As dores humanas, o medo do fracasso E a teimosa mania chamada esperança ​Subir aos céus não é fuga ou vaidade É procurar no escuro uma misteriosa razão Trocar o peso da gravidade que nos mantém Pela vertigem de uma desconhecida missão ​Pois o silêncio do cosmos não assusta Quem traz na alma o desejo de saber A travessia é longa, a dor é o que custa Mas nascer de novo exige transceder ​Se a noite é cega e o abismo é profundo A nossa luz é o rumo que nos guia Enfrentar nossos limites, deixar nosso mundo E alcançar as estrelas no fim do dia. : Glauber Santtos

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Vida

Até O Sol Voltar

As sombras se esticam pelo chão da sala O peso do mundo repousa nos meus ombros Mas quando a tempestade ameaça e avança Sua presença afasta todos os escombros ​Segure a minha mão enquanto o vento sopra Eu mantenho a sua firme na escuridão Não precisamos de promessas gigantes Apenas da certeza desta mesma mão ​O tempo consome o que é feito de pedra Mas o que sustentamos juntos permanece Na travessia incerta de cada dia É no seu abraço que a alma sossega ​Se a vida exigir mais do que podemos dar Dividimos o fardo até o sol voltar. : Glauber Santtos

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