Sente-se, meu velho eu, preciso te contar
Quantas partes de nós precisei sacrificar.
Enterrei nossos sonhos para a dor não nos vencer,
Mas morri tantas vezes tentando sobreviver.
— Você matou nossa essência para não sentir a ferida?
— Eu só queria continuar, mesmo odiando a vida.
— Então, por que, se estamos vivos, parecemos sepultados?
— Porque alguns dos nossos mortos nunca foram enterrados.
Olhe nos meus olhos e me diga, sem piedade:
Você ainda reconhece em mim alguma humanidade?
Ou sou apenas o cadáver dos sonhos que você plantou,
Um homem que respira no lugar de quem você amou?
— Dize-me: ainda há em ti algum desejo de existir?
— Há! Mas já não sei se viver é o mesmo que persistir.
— E quando te perdeste de tudo o que acreditavas ser?
— No instante em que sobreviver me custou o próprio ser.
— Não te revolta ter vivido sem jamais te pertencer?
— Revolta-me ter sido inteiro e não saber quando deixei de ser…
— E quem há de responder por tudo o que sacrificaste?
— Ninguém… Perdi-me tentando salvar o pouco de mim que restava.
E agora compreendo, encarando o vazio:
Não foi a morte de quem eu fui que me levou ao extremo;
Foi a vida que me desfez, lentamente,
Até que já não houvesse em mim
Nada que lamentasse o meu fim.
E, diante de mim, meu velho eu permanece calado.
Talvez porque não haja resposta para o que foi destruído,
Talvez porque ambos saibamos o que tentamos esconder:
Eu não enterrei quem fui para deixar de existir.
Enterrei quem fui porque já não sabia como viver.
Escrito por: RosaNegra e Glauber Santtos
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Sou homem ou fera vestida de razão? Anjo que apodrece, demônio que ora, carrego um cemitério dentro do coração e alimento os monstros que me devoram
A carne exige sangue, a consciência, perdão
Vivo entre o pecado e a santidade, com Deus agonizando em minha contradição e o Diabo aplaudindo minha humanidade
Que espécie de criatura nos tornamos, se destruímos o mundo para nos sentirmos vivos? Erguemos tronos sobre os corpos que pisamos e chamamos de progresso os nossos crimes antigos
Ó natureza cruel! Ó sublime hipocrisia! Somos lobos com discursos de cordeiros, vendemos nossas almas pela falsa euforia e enterramos nossos filhos sob os próprios celeiros
Se a razão nos distingue dos animais, por que fazemos da existência um matadouro? Que valor tem a paz proclamada nos jornais, se há sangue em nossas mãos e ganância em nosso ouro?
Eis o paradoxo:
Queremos ser divinos, mas nos ajoelhamos diante da própria vaidade
Construímos paraísos, fabricamos desatinos e culpamos os demônios pela nossa crueldade
No fim, quem nos condena? O céu ou a terra? Quem há de julgar o que fizemos de nós? Talvez Deus tenha chorado ao nos ver de joelhos, implorando salvação com o sangue na voz
E quando a última estrela abandonar o firmamento, quando a Terra já não suportar nossos pecados, não haverá redenção, milagre ou sacramento que absolva os animais que fingimos não ter despertado
Pois o inferno não começa depois da morte, nem o mal precisa de tridentes para existir
Às vezes, a fera mais cruel e mais forte é o homem que aprendeu a sorrir enquanto faz o mundo ruir.
: Glauber Santtos
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Ainda sonho encontrar o amor
Na última morada da minha dor
Onde o peito, cansado de sangrar
Aprendeu a confundir ferida com flor
Não quero mais aquele amor que parece que vêm apenas para me salvar
Quero que venha para permanecer
Sentado entre os escombros da alma
Quando tudo em mim quiser morrer
Se existe Deus dentro da ferida
Pode haver também uma pequena luz
Uma célula de amor, tão invisível
Mas que nasce onde a própria dor me reduz
Que paradoxo cruel, quase divino
Ser curado justamente pelo que temo sentir
Pois talvez seja preciso amar outra vez
Para descobrir que ainda sei existir
Então, se um dia encontrares meu coração
Não te assustes com aquilo que a dor deixou
Há cicatrizes que parecem túmulos
Mas é dentro delas que o amor floresceu.
:Glauber Santtos
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Tempo, por que precisa passar tão devagar?
Esperar pela morte é tão difícil
Quando sou torturado durante uma madrugada inteira
Antes de apagar ao primeiro raio de luz
Oh, acabe com isto
Cave o buraco
Mande-me para baixo
Onde a dor finalmente vencerá
Tudo o que foi dito
Todas as memórias e todos os sentimentos Fingindo ser real enquanto esqueço quem sou
Existe uma porta
E do outro lado, há escuridão
É para lá que sempre vou
Quando preciso sentir mais dor na pele
Para disfarçar aquilo que me destrói por dentro
O pecado está sempre à minha porta
Então, ele sussurra:
— Corte as veias
Talvez eu tenha feito um pacto
Sangue derramado pelo chão
É sempre assim, até a dor parecer diminuir
Uma luz brilha em meus olhos
A morte me recebe com um sorriso
Então, eu pergunto:
— Desta vez, acabou?
: Glauber Santtos
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— Como está sua noite?
— Se eu te disser a verdade?
— Claro.
— Minha noite se resume a The Fight Within, do Memphis May Fire, e uma taça de vinho.
— Só isso?
— Às vezes, é tudo o que preciso.
— E o que você está pensando?
— Em tudo que eu venci em silêncio… e em tudo que ainda estou tentando vencer dentro de mim.
— Parece uma noite pesada.
— Talvez. Mas algumas noites não foram feitas para serem felizes. Foram feitas para a gente se ouvir.
— E a música ajuda?
— Muito. Tem coisas que eu não consigo explicar falando. Algumas músicas simplesmente dizem por mim.
— Então… você está bem?
— Estou aqui. Acho que, por enquanto, isso já é alguma coisa.
: Glauber Santtos
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O tempo é um oceano,
onde as correntezas nos levam
para destinos que desconhecemos.
: Glauber Santtos
Ele brincava de ser Deus
com as mãos sujas de barro,
decidia quem merecia o céu
e quem deveria conhecer o inferno
Vestiu a própria arrogância de santidade,
ergueu um altar feito de espelhos
e chamou de milagre
tudo aquilo que conseguia controlar
Dizia:
“Eu sei o começo,
eu conheço o fim"
Mas não sabia sequer
o que fazer com o próprio medo
quando a noite chegava
e o silêncio pronunciava seu nome
Ele criou pecados
para depois vender perdão
Criou monstros
para justificar suas guerras
Criou destinos
para nunca precisar admitir
que também estava perdido
E quanto mais alto subia,
mais distante ficava do céu
Porque há uma diferença
entre tocar as estrelas
e pensar que elas pertencem às suas mãos
Um dia,
o espelho rachou
E por trás da coroa
não havia um deus
Havia um homem
Um homem pequeno,
apavorado diante do infinito,
tentando transformar sua impotência
em onipotência
Então percebeu:
não era Deus quem ele queria ser
Era alguém
que nunca mais precisasse sentir
que poderia perder tudo
Mas o universo não se ajoelhou
O tempo não obedeceu
A morte não negociou
E o amanhã continuou chegando
sem pedir sua permissão
Foi assim que seu reino terminou
Não com trovões
Nem com anjos
Muito menos com fogo descendo dos céus
Terminou simplesmente
quando ele finalmente entendeu
que até quem brinca de ser Deus
continua sendo humano
E talvez essa seja
a punição mais cruel:
descobrir que nenhuma coroa
pode salvar um homem
da própria humanidade.
:Glauber Santtos
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Nasci entre as sombras, onde a noite sempre impera
Com grilhões invisíveis rastejando sobre meus pés
Preso aos temores, criações da minha alma
Prostrado ao peso de antigos porquês
Mas vi, ao longe, o Sol rasgar o abismo
Feito um incêndio erguido contra o chão
Talvez eu tenha compreendido
Fugir do próprio abismo
Não é deixar o mundo, é libertar o próprio coração
O Sol não pede ao céu qualquer licença
Não teme a noite, a treva ou seu poder
O Sol arde sozinho, dissipando a bruma
Como quem nasce sabendo que vai vencer
E eu, que tanto procurei em portas fechadas
Descobri que a prisão estava em mim
Eram crenças, culpas, vozes acorrentadas
Que prometiam um começo, mas diziam sempre “fim”
Oh, eu caminhei em direção à chama
Mesmo sabendo que haveria dor
Pois toda alma que verdadeiramente ama
Precisa atravessar seu próprio interior
Queime, Sol, aquilo que me aprisiona
Consuma os medos que escondi dentro do peito
Faça da minha fraqueza uma coroa
Levante-me da minha queda
E mostre-me o caminho certeiro
Não quero uma liberdade feita de ausência
Nem quero um céu vazio onde nada há
Eu quero libertar minha própria consciência
E descobrir quem sou quando ninguém me julgar
Se a carne é barro, que o espírito seja vento
Se o mundo é cárcere, que a alma seja céu
Se a vida me impõe seu sofrimento
Que eu encontre liberdade dentro do que sou
E quando a noite vier, inevitável
Não temerei seu manto sobre mim
Pois sei que o Sol, embora invisível
Continua queimando para além do fim
Talvez liberdade não seja alcançar o Sol
Mas aprender a carregá-lo na escuridão
Ser luz quando o mundo exigir um farol
E não confundir silêncio com solidão
Eu sigo algo entre a terra e o infinito
Com meus pés no mundo e os olhos no além
Porque meu espírito, quando escuta o próprio grito
Já começa a romper as correntes que o detêm
E se um dia eu finalmente compreender
Que não existe céu distante para alcançar
Talvez descubra, no instante de morrer
Que o Sol que procurei sempre esteve em meu olhar.
: Glauber Santtos
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Da terra firme ao silêncio do espaço
Partimos carregando a nossa herança
As dores humanas, o medo do fracasso
E a teimosa mania chamada esperança
Subir aos céus não é fuga ou vaidade
É procurar no escuro uma misteriosa razão
Trocar o peso da gravidade que nos mantém
Pela vertigem de uma desconhecida missão
Pois o silêncio do cosmos não assusta
Quem traz na alma o desejo de saber
A travessia é longa, a dor é o que custa
Mas nascer de novo exige transceder
Se a noite é cega e o abismo é profundo
A nossa luz é o rumo que nos guia
Enfrentar nossos limites, deixar nosso mundo
E alcançar as estrelas no fim do dia.
: Glauber Santtos
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As sombras se esticam pelo chão da sala
O peso do mundo repousa nos meus ombros
Mas quando a tempestade ameaça e avança
Sua presença afasta todos os escombros
Segure a minha mão enquanto o vento sopra
Eu mantenho a sua firme na escuridão
Não precisamos de promessas gigantes
Apenas da certeza desta mesma mão
O tempo consome o que é feito de pedra
Mas o que sustentamos juntos permanece
Na travessia incerta de cada dia
É no seu abraço que a alma sossega
Se a vida exigir mais do que podemos dar
Dividimos o fardo até o sol voltar.
: Glauber Santtos
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