Glauber Santtos @Glauber_Santtos
Vida

O Bestiário Da Alma

Sou homem ou fera vestida de razão? Anjo que apodrece, demônio que ora, carrego um cemitério dentro do coração e alimento os monstros que me devoram A carne exige sangue, a consciência, perdão Vivo entre o pecado e a santidade, com Deus agonizando em minha contradição e o Diabo aplaudindo minha humanidade Que espécie de criatura nos tornamos, se destruímos o mundo para nos sentirmos vivos? Erguemos tronos sobre os corpos que pisamos e chamamos de progresso os nossos crimes antigos Ó natureza cruel! Ó sublime hipocrisia! Somos lobos com discursos de cordeiros, vendemos nossas almas pela falsa euforia e enterramos nossos filhos sob os próprios celeiros Se a razão nos distingue dos animais, por que fazemos da existência um matadouro? Que valor tem a paz proclamada nos jornais, se há sangue em nossas mãos e ganância em nosso ouro? Eis o paradoxo: Queremos ser divinos, mas nos ajoelhamos diante da própria vaidade Construímos paraísos, fabricamos desatinos e culpamos os demônios pela nossa crueldade No fim, quem nos condena? O céu ou a terra? Quem há de julgar o que fizemos de nós? Talvez Deus tenha chorado ao nos ver de joelhos, implorando salvação com o sangue na voz E quando a última estrela abandonar o firmamento, quando a Terra já não suportar nossos pecados, não haverá redenção, milagre ou sacramento que absolva os animais que fingimos não ter despertado Pois o inferno não começa depois da morte, nem o mal precisa de tridentes para existir Às vezes, a fera mais cruel e mais forte é o homem que aprendeu a sorrir enquanto faz o mundo ruir. : Glauber Santtos

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