Há feridas na alma que são
feito bala alojada no peito.
Amedrontados pela dor,
pelo sangue que precede a cicatriz, acovardamo-nos.
Deixamos a pele fechar,
fazendo do peito morada perpétua da dor.
E então, cada abraço dado não é completo. Por dentro o peito ainda sangra.
A carne ainda dói,
rasgada pela ferida que não fechou.
Ali resta um estilhaço.
É preciso coragem para abrir o peito. Deixá-lo sangrar.
O tempo estanca o sangue
e cicatriza a alma.
Abra o peito. Sangra-te.
Para então não mais sangrares.
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contigo sou
calor e cor
frio não faço
o silêncio
entre nós é
estardalhaço
num piscar de olhos se vai o agora.
o amanhã parece grande e faz sombra.
ofusca a luz do hoje.
confunde o que é,
com a neblina do que será.
o outro dia. o outro olhar. o outro beijo.
a outra vida. a outra história.
a outra pessoa.
a outra viagem. a outra chance.
a outra sexta-feira de janeiro.
todos inexistem, mas fingem vir em breve.
e sobram epitáfios. o "devia ter" flerta
com o medo que se tem de viver.
o medo com o qual se tem convivido.
a prepotência. o controle. a ilusão.
o tempo não se curva. é um arauto de Deus.
a inocente tentativa de economizar
o que não se pode usar depois.
ele, o tempo.
a boa lembrança é
o anúncio primeiro
de um viver verdadeiro.
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Pela primeira vez,
eu não faço ideia do meu futuro.
Pela primeira vez,
entreguei meu amanhã aos cuidados das melhores Mãos.
E sobre o hoje: Deus aponta,
eu vou lá e vivo.
Pela primeira vez,
o medo do amanhã subjaz à sede do hoje.
Pela primeira vez, o medo ladra,
mas a caravana segue.
O máximo que posso, com tudo o que tenho.
E as engrenagens do acaso guiam - é que Deus é o dono do acaso.
- GeF
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Já podia sentir uma fraqueza nas pernas. Uma fraqueza gostosa, de quem fez o que quis em excesso. Como quem come com os olhos, além da fome. Ambos ainda ofegantes. Ele sentado, ela ainda deitada com as pernas por cima das dele. Encharcados de suor no banco traseiro, semisorrindo em silêncio.
.
Os vidros embaçados não os deixam assistir ao filme lá fora, mas também não permite que ninguém os veja nus. Ele a encara, ainda sorrindo. Ela levanta um dos pés à altura de sua bochecha. "Você é um dos meus melhores", ela sussurra. Ele sorri, mas mantém o silêncio. Não espera que seja verdade, não faz diferença - pra ambos.
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A fome aperta depois de endorfina, suor e gemidos. Eles decidem ir embora mesmo antes do filme acabar - não se importam de que os outros carros estacionados sob a noite percebam que o filme era um safado pretexto para sexo aventureiro e jovem.
.
Com os vidros já translúcidos, ele se senta no banco da frente. Ela repousa a mão em sua nuca e a acaricia. Comenta da noite estrelada. Ele, com o pudor que ainda resta, veste a bermuda e abre a janela do motorista. Coloca a cabeça pra fora como quem se debruça sobre um parapeito. Ela gargalha, acha sensual a espontaneidade dele.
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Ele olha para a lua e para o sem número de estrelas acima deles. Se sente vivo. Não pensa em mais nada. Só sorri olhando pra cima. Se sente vivendo intensamente o momento. Sabe que está vivendo certo. Plenitude e agradecimento o invadem por segundos. Ele sabe que dentro de minutos, o êxtase pós-gozo dirá "até a próxima" e virará as costas; sabe que em instantes caminhará consigo mesmo.
.
Ele sempre foi muito bom em identificar o hiato que vaga entre uma tempestade e uma calmaria.
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Dá a partida no carro, um selinho nela. "Brigada por hoje, até qualquer dia" ela diz em seu ouvido.
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É madrugada de domingo. A cidade, vazia. Ele não tem pressa.
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dizem que o tempo
no momento
vale ouro
no mercado
e que o mercado
vende ouro
mas compra
tempo
e que é ele
o tempo
um dos deuses
mais lindos
mas é o ouro
seu discípulo
e o mercado
o seu templo
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olhei nos olhos
do meu vazio
ele me encarou
de volta
só um
de nós dois
sorriu
- GeF
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presenteei uma andarilho com a camisa azul escuro que você me deu de aniversário.
ele passava frio e me pediu roupas com cara de quem implora.
meu coração é gelatina, você sabe.
virei as costas e o pobre homem partiu.
sem norte, perambulou à esquina.
restei com a tranquila certeza de que, embora aquela camisa agora vagasse em algum recanto tímido do mundo,
eu jamais voltaria a vê-la.
exatamente como o amor que eu sentia por você.
- GeF
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Era fim de tarde e o vento ja soprava frio, anunciando a noite. Havia pacificação nos olhos do velho. Ele sorria um sorriso pouco, mas tranquilo. Enquanto a cadeira de balanço pendulava, tomava mais um trago e observava a rua. Seu neto, já homem, contemplava a confortável companhia do avô.
No entretempo daquela prosa de varanda, uma moça cruza a rua. A jovem segurava a bolsa com firmeza, um par de livros e ostentava um pequeno buquê de flores na mão que sobrava. Apesar do cenário, o neto percebeu e comentou com o velho avô: "ganhou flores mas parece triste, a moça. Amor é uma flor roxa que nasce no coração de um trouxa", encerrou o rapaz rindo com certo desdém.
O velho ouve a fala do neto, mas silencia. Após segundos, a cadeira ainda a balançar, sorri e devolve com a voz linear e sutil: "o amor não é sobre flores, filho. O amor é sobre podar os espinhos".
- GeF
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submerso naquele breu:
estrelas.
lua.
eu.
- GeF