Esta falta de ar
Repentina
Com esforço
Eu tosso
E tosso
Madrugada
Martírio
No hospital
Será ?
Não digo o nome dela
Chamo por Deus
Pela Mãe
Pelo Universo
Medo de estar com ela
De contaminar
Os que eu amo
Mas o ar me falta
Me falta tudo
Cada hora um luto
E nessa luta
Pela vida
Vou fazer o exame
Pra saber se é a maldita
Assim talvez me acalme
Eu não tomei vacina
O que vai ser das minhas crianças?
Amanhã eu trabalho
Não vou poder ir trabalhar
E esse poema
Nem sei mais como terminar
Era só pra desabafar
Denise Amaral
Escrever uma história
Uma lembrança
Um presente
Parece mais brincadeira de criança
Sentada num banco de praça
Iluminada por um poste
Eu espero que goste
De mim
Denise Amaral
Chuva caiu em pingos grossos
Na torneira dos sorrisos
Inundou um lago inteiro
Mas havia solidão
Dentro do meu abraço
Porque era um braço fazio
Na tela do celular
E a chuva a cantarolar
Uma nuvem de lembranças.
Denise Amaral
Divagar
Bem
Devagar
Sentindo a noite dentro
Todo meu ser em mim
Ninguém pode ser assim
Mas sou só
Só um pensamento
Respinga como orvalho
Manda tudo pro caralho!
Não tem como viver
Entre seres humanos
Desprovidos de humanidade
Qual é a verdade?
Não se apegue nessa luz
Nem confie na escritura
Você é só uma criatura
Você também é seu criador
Só você é responsável
Pelos seus atos
O grande barato
É que ninguém sabe a verdade
Em teoria
Se resolve na terapia
Em igualdade
Sabemos que ninguém é igual
E
De perto
Ninguém é normal
Denise Amaral
Mais um dia amanhece
Um dia de trabalho. ..
Um dia qualquer
Uma vida qualquer coisa
Nada de especial
O sol está no céu
O vento me conta um segredo
Eu me calo
Espero.
Finco meus pés na terra
Sinto minhas raízes
Abro meus braços
Deixo ramos brotarem
Sou um lindo ipê
Floresço até no inverno
O meu trabalho
É manter viva a esperança
Quando olharem para mim
Todos vão sorrir
O meu sorriso
Apenas eu serei triste
Apenas mais um dia
Com mais tantos pela frente
O sol pode me abraçar
A lua é minha amiga
As crianças trazem esperança
Dia após dia
Vida após vida em flor
Em cada renovo do broto
Um novo aprendizado
Que eu conto ao vento
Vou ficar aqui
Até meu último dia
Até a última flor
Então venha me ver
O ipê que você plantou
Meu amor.
Denise Amaral
Um dia a cabeça deixou o corpo
Decaptada pela própria mão
Ela rolou e riu
Adeus adorável prisão!
Ela riu sem razão
Mas estava feliz
Um dia os braços foram cortados
Pelos próprios pés
Como conseguiram os dedos
Segurar uma cerra elétrica?
Mas a inteligência era tão pouca
Já que não tinha cabeça
Que ele nem questionou
Por fim o pé se amputou
Um de cada vez
Dexou pegadas de sangue
No piso duro da vida
O corpo ficou ali inerte
Um coração batendo sozinho
Sem ter quem o concerte
Denise Amaral
Há tempos não tenho alma
Alegria sem corpo
Sem peso nem esperança
Sou como o som se propagando infinitamente
Depois que o grito de agonia silenciou o defunto
Não sei porque estou no mundo
Porque existo
As cores que vejo de olhos fechados
As imagens que sinto
Não são reais
Mas são melhores
E me mostram outras vidas
Ou o que poderia ser
Se eu pudesse crer
Em mim.
Denise Amaral
Você serve de alimento
Para o sistema
Minha criança
Nunca te disseram que você só serve para consumir?
E eles te devoram
Se alimentam dos teus medos
Transformam teus sonhos em pesadelos
Fabricam as tuas doenças
E te entopem de remédios
Porque eles precisam de você
Criança
Se alimentam de você
Enquanto pervertem
A tua inocência
Pervertidos
Não te deixam morrer
Quem iriam manipular?
Sem você, criança
Não seriam nada
Nem uma ilusão real
Para amar
Denise Amaral
Quando pensei fazer rima
Nem sonhei fazer política
Achava um palavrão
Tanta gente ganhando dinheiro
Tanta gente dormindo no chão
E o povo escolhendo votar
No canditado na eleição
Como se vota no cavalo campeão
Apostando num bolão
Como se eleição
Fosse copa do mundo
A camisa da seleção
Até virou protesto
Mas de resto
O que mudou na nação?
Mas tem que falar de política
Não de politicagem
Tem uma grande diferença
Entre querer um bem maior
E querer só levar vantagem
O projeto maior é derrubar
O direito a educação
Para que o cidadão
Em vez de aprender a pensar
Se torne cativo de alguém
Que em nome de Deus
Da família (dos seus)
Fale em nome de todos
Não somos todos iguais
Mas temos direito de ser
E ter oportunidades
De crescer
E principalmente
De pensar
Porque o que eu quero
De melhor
É o mesmo que você
Negro
Indígena
Mulher
Homem
Criança
Ô Brasil, não repita a lembrança
Dos tempos de escravidão
Nem de ditadura
Nem de loucura
Já basta de fogo e sangue.
Denise Amaral
Sobre Trocas:
Ela toda princesa
Num lindo vestido azul
Estava cansada de tanto frufru
Ele, espada em punho
Queria um vestido usar
Mas não tinha ninguém pra lhe dar
Mamãe teve uma ideia
Vamos trocar?
O bom de ser criança
É entrar de alma limpa
Sem medo e sem preconceito
O bom de ser mãe
É poder educar direito
Aprendendo com as crianças
Denise Amaral