Não é real, as flores disseram
Espelhando o aroma de teu corpo em meu ser
Naquela manhã, nublada e chuvosa,
Foste embora sem ao menos me ver
Não é real, clamaram as nuvens
Ignorei-as, é claro, não queria esquecer
Que o amor de verdade permanece em tudo
Mesmo quando o mundo não consegue entender
Não é real, soprou-me o vento
Imitando tua voz aos meus ouvidos atentos
Procurei-te ao redor, mas não encontrei
Murcharam-se as flores
Desaguaram-se as nuvens
E o vento, então, por fim cessou
Se fora real o amor que senti
Onde estará quem o mundo imitou?
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A nossa sombra projetada nos muros
Aumenta conforme o sol se põe
Talvez sejam os infortúnios
Que nos causam tais ilusões
Em outra vida te amei...
Amei, mas não me lembro
Pôs-se o luar no lugar do sol
Chove prata ao invés de ouro
E a luz que agora me atinge
Dá-me a sombra tão pouco
Em outra luz te amei...
Amei, mas era manhã
Poer... essa coisa doentia
Doer... e se foi a poesia
Soer... como sempre foi.
E a aurora fulge deslumbrante
Derramada qual tinta no céu
E um verso surge no horizonte
Trazendo vida ao papel
Em outras cores te amei...
Amei, e era só.
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A minha distração é te imaginar por todo canto
E divagar conversas com o teu fantasma por aí; Convencer-me de que os teus olhos brilhariam
E de que aquela canção alegraria os teus ouvidos.
Mas tu não imaginas o que é perder
Sem nunca haver possuído.
Protejo meu peito das tempestades, não da chuva;
Das lembranças, não dos medos.
Mas os trovões ainda se fazem ouvir por toda a casa
E a minha solidão permanece igual à tua.
E eu só entendi o que era o amor
Quando tentei te entender.
Àquele que ler: sabe-se lá quem.
Ao que cantarolar, tenha dó também
Ao que beber, embriague-se aos poucos
Ao que chorar, derrame-se aos loucos
Ao que perder, que ganhe o mundo
Ao que ganhar, que não perca o rumo
Ao que partir, não se despeça
A quem ficar, que não tenha pressa...
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Todos os momentos espontâneos e desajeitados
Fizeram-me mais feliz do que aqueles combinados
E eu não gostaria de planejar vivê-los outra vez.
O sorriso que surge ao achar algo engraçado
É infinitamente melhor que o fotografado.
Aliás, peço-te que não me fotografes, mas, se o fizeres, que seja a fotografia mais ridícula possível, do momento mais improvável ou constrangedor.
Dentro de mim, nesta alma que respira, a vida acontece quando o acaso nos convida.
Planos, planilhas e planícies.
A última opção me parece bem melhor.
Dentro de mim, nesta mente inquieta, viver é aproveitar o tempo que nos resta.
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Tão natural quanto meus braços ao seu redor
E a sombra das árvores se movendo ao sol
É o meu sorriso ao te admirar
E o latir dos cachorros
E o vento carregando as flores
Tão simples pensar em você
Como respirar fundo o frescor da tarde
Nas silenciosas horas passageiras
E as nuvens esbranquiçadas
E o nosso reflexo na água
É tudo de mim, sem reservas
Para te entregar, um dia, sem pressa
Mas tudo o que eu gostaria mesmo
Era te receber
É tão simples, não é?
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Bem ao fundo do mar, onde a luz não alcança
Ancoro-me, por vezes, à tua lembrança
Tão calma, tão mansa
Meu seguro cais
Meu coração conhece o caminho do mar
Mas pensar em partir já me faz questionar:
“Será que me arrisco a não mais voltar?”
Os ventos me empurram para o lado norte
Mas preso ao passado é pior do que a morte
Para quebrar as correntes, preciso ser forte
Assim, fundeado por vontade própria
Sem bússola em mãos e à deriva do caos
Percebo, finalmente, o que mais importa:
Eu não sou o barco
E nunca houve âncora.
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Preciso escrever. Finalmente quero escrever.
Novamente, a necessidade de colocar em palavras
O que não consigo dizer
Pode ser eu, ou pode ser você, tanto faz
Como uma criança descobrindo algo que todos os adultos já sabem
Mas os olhos brilham, o rosto sorri, as pernas saltitam e os braços se esticam para alcançar um céu que se tornou tão próximo
“Por que o sorriso?”, alguém vai dizer
“Por que saltitar?”, outro questiona
“Pra quê escrever?”
Não é “pra quê”. É “para quem”, eu digo
Talvez eu tenha visto a silhueta do amor
Talvez o cupido tenha se lembrado de nós
Talvez eu tenha te visto por aí, quem sabe
Ou pode ter sido apenas minha mente pregando uma peça
Vai saber
Eu só sei que quero escrever.
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Estar perto é tão relativo, querida
Pois quando não sei por onde você está
Todo lugar se torna distante para mim
Embora eu guarde sua imagem em meu peito
Não sei se os raios de sol dessa manhã tocaram sua pele
E nem se aquela estrela distante brilhou em seu céu
Mas, para que você soubesse que estive aqui,
Soprei sementes de dente-de-leão
Na esperança de que o vento as levasse até sua varanda e lhe mostrasse um caminho
Para que você soubesse
Corri pelas ruas e deixei minhas pegadas no chão
Assim, quem sabe, você as pudesse seguir
Contei para as árvores alguns segredos
Para que você os soubesse
Caso alguma folha caísse em seu jardim
E que cumpri uma das promessas que fiz:
Estou de volta, aqui, bem perto
Para que você saiba.
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Branco, esmeralda, lilás e azul
Em meus olhos, tua luz é desfeita
O calor e a ternura que tanto me acolheram
Atiram-se agora para longe de mim
Não há dor, mas um súbito sorriso afugentado
Desbotado por lamúrias criadas na mente:
A metade de um ponteiro, o sol sobre a cabeça
A brisa que se dissipa ao atingir-nos a face
Bronze, escarlate, laranja e anil
Finalmente à parte.
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Faltou-me coragem, e não tempo
Falhou-me o peito, e não a razão
Passaram-se horas em pleno silêncio
Perdido em teus olhos, sem teto ou chão
A noite nos veio, findou-se o dia
E agora, para onde eu vou?
Se parte de mim prefere tua pele
Se parte de ti dizer sim ou não
Se partes assim, saudades me deve
À parte de nós, total solidão.
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