Me sentia cada vez mais e mais doente, como se fosse incumbido de uma dégénérescence, algo que por ora ficava sob uma análise constante e profunda, mas que não tinha aí nenhuma luz sob a verdade ou uma conclusão aparente. O que tinha por análise dessa doença, de forma concisa, era minha aparente preocupação constante e as angustiantes oscilações de humor: isso era claramente algum tipo de doença, dégénérescence...
Acordava atônito, já com um aperto no peito, como se a noite algo me removesse o coração e o colocasse de volta minutos antes de acordar, e também um estado de confusão mental, não conseguia organizar os pensamentos de forma clara e objetiva, e com isso acarretava uma rigidez nos músculos do corpo por conta do alto nível de estresse que se acumulara.
Geralmente acontecia com mais frequência quando por vezes acordava olhando meu saldo na conta bancária. Eis aí algo que pode ser útil, uma pista sobre a doença - era doença de preocupação. Como não vou a médicos e não possuo nem convênio nem parentes que possam me acompanhar, nem mulher e filhos, nada, deixo a par da sorte e do acaso tudo que me acontece. Mas se eu fosse um médico, e um médico sábio, e fosse dar um diagnóstico ao doente, seria: preocupação excessiva (com dinheiro) medicamento: indiferença divina, ou, a perda da necessidade de enriquecimento.
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Somos incutidos a nos proteger e criar, com isso, variadas artimanhas que nos preservam no mundo. Ensinados a nos proteger do outro, dos possíveis malefícios e desastres; do mundo.
Mas nos damos conta tarde demais que nosso pior inimigo não são as circunstâncias, nem as pessoas, tampouco o mundo em que vivemos - nosso pior inimigo é o reflexo no espelho. Proteja-se de si!
Sombra que persegue e cobre toda a
possibilidade de luz!
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Neste lugar estranho
Onde gente, alegremente, faz festa
E a vida toda é um baile
Sigo submerso no meu ser, que é tampouco alegre muito menos festivo
Atacado pela graciosidade de tudo, pelas formas várias, pelas vidas várias, pela estranheza!
Eu, que não tenho sequer irmandade com o mundo e as coisas
Eu, que sequer sei o que sou, caso não conclua de forma pessimista: Um miserável
Por que estou aqui e que faço eu nesse baile de maravilhas?
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Nasci numa manhã gélida em pleno inverno esplendoroso
Mas nu, ao frio, fui deixado
Onde sem maestria, nem experiência suficiente fui seguindo, ao longo do tempo, uma vida de contento e lamento.
Hoje já adaptado e robusto
as feridas que a vida me deu, metamorfoses ocorreram
e o vento que bate no rosto já não dói
o frio do inverno já não gela tanto
o amor que acreditei, como criança querubim, se revelou não existente e fruto de reflexo de mim mesmo
sorrio, tudo que se passa em dor é ensinamento
antes me doía, hoje me alegro com o tempo.
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Tenho feito o hábito de tomar doses diárias de uma bebida misteriosa que resulta em descobertas diferentes, dia após dia.
Entro, sento-me isoladamente no canto do bar e peço ao garçom um gole da dose. Ele me traz a bebida sobreposta numa tabuleta e as cores assim como os efeitos sempre variam ao consumir. - Qual será o mistério de hoje, nobre garçom? Pergunto diretamente sem muitas emoções. Ele me responde - Isso depende, pois as bebidas são feitas de acordo com o cliente e o momento presente: que é esse do qual você experimenta; e não pode ser previsto nem alterado. - Agradeço pela incerteza, respondo eu.
Essas doses diárias são sempre necessárias. Isso concluí tem um bom tempo e sempre me inclino ao consumo das mesmas. Como dito, os efeitos e cores variam, as vezes o garçom me traz algo branco de cor amarga e com o primeiro gole já me sinto com fortes dores de cabeça e confusão mental - é a Dose de Consciência. Por vezes algo de amarelo e doce como o mel, bebo, e sinto uma epifania momentânea, uma alegria pura e completa, que se entende por um longo período de tempo - é a Dose de Felicidade. Mas têm tido um bom tempo em que o garçom me trás o mesmo copo, a mesma cor e o mesmo efeito: algo azul escuro, com certa profundidade na bebida, um gosto não tão doce, mas também não tão amargo - essas são minhas Doses de Melancolia, que se tornam presentes, dia após dia.
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Sentado na praça, medito sob ventos suaves
as tristezas, incertezas e desgraças
das quais vivi, das quais vivo, sobre as quais viverei
a Melancolia, dia após dia, nutrida
com melancolia, cria bases
no palácio da memória, o palácio das memórias, inundadas de lamentos.
Pudera eu ser outro em outro momento, mas não seria o que eu sou, isso é certo: Uma traça
corroendo-me a razão, o peito, a vida inteira
mudando a perspectiva da visão - da desgraça. Uma traça (...)
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O véu que cobre os olhos,
O negrume cobrindo as estrelas,
O cobertor que cobre o homem,
A terra que cobre os corpos,
A carne que cobre os ossos;
Passa sempre, muda sempre
esquecidos todos
com o esquecimento dos séculos!
Acredito que eu nunca tenha sido amado de fato por alguém.
Sempre sinto um quê de alheio, de periférico - como um estorvo -.
Algo que não vale a pena...
Me dói ter consciência disso, mas esse, talvez, seja o meu Destino.
Ser só, completamente só.
E preencher esse vazio; essa solidão, com amor próprio.
Sou minha melhor companhia, meu melhor amigo e meu maior amor.
Mesmo que eu quisesse as coisas não poderiam ser diferentes: Destino!
Meu júbilo se instaura na contrariedade dos fatos. Quais fatos?
O fato de que a minha solidão é minha mais fiel companheira.
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Deixe que cada árvore dê seus frutos,
que cada folha despenque em seu próprio tempo,
que cada estação mude e renove-se,
cada amor duradouro dure, e cada amor passageiro passe.
Que cada amizade perdure e cada infelicidade transpasse.
Deixe ser o que é, o que for é o que tiver de ser (...)
No final do dia sempre fica uma parte nossa.
Sempre um pouquinho de nós é roubado - pelo tempo, civilização, trabalho, relações sociais, deveres e responsabilidades (...)
E exauridos nos encontramos tentando buscar um pouco de nós, nas coisas que amamos. Tentamos esse contato conosco, por intermédio do que a gente estima e nos da um sopro de vida - Seja a arte, literatura, cinema, caminhada, vinho tinto (...)
Mas percebemos. Que algo nos foi furtado, e essa sensação esmagadora gera a angústia da possibilidade de talvez, caso fosse possível, ter uma outra vida. Uma outra forma de desperdiçar a vida. Uma outra forma de ganhar a vida. De vencer na vida. De levar adiante de forma absolutamente livre...
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