Emergindo em meio ao lodo
Toco seu torço
Molhado e enrijecido
Suas pétalas fecham-se ao toque
Murchas e adoecidas
Protegem-se do desconhecido
Alimentadas por cinzas
Chamas e brasas apagadas
Aborrecido
Pulsando em desalinho
Escorre e afunda-se
Superficial
Parasita em meu peito
Sujo e encardido
Arrasto os dedos
Rasteja por entre minha carne
Toma seu lugar por entre minhas costelas
Doente, inconsistente
Aninha-se em minha mente
Acordo, ainda dormente
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Barulhento, em silêncio
Palco vazio, por onde estende-se
Vozerio, murmúrios vazios
Rastejando por entre os papéis
Roteiro límpido
Tinta escorrendo por entre minhas veias
Escrita falada
Em tilintares ríspidos
De um relógio quebrado
Céu longínquo
Meus dedos acariciam as nuvens
Resquícios de fuligem
Perdido e esquecido
Sussurra ao pé do meu ouvido
Rouco, em um grunhido
Baixinho, mórbido
``O que somos?``
Respondo
``Restos``
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Esfomeado pelo sentimento de companheirismo
Infeliz, embriagado
Viciado em lamurios arrastados
Murmura para um espelho
Quebrado, partido em pedaços
Sem reflexos para escutá-lo
Um teatro sem público
Silêncio absurdo
Moribundo, vagabundo
Viajante sem rumo
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Por entre um trago
Silêncio, enclausurado
Ao relento, inadequado
Vagando em meio ao nublado
Cinzento cubículo
Atormentado pelo tabaco
Além da fumaça, o que resta?
Antes palpável
Ao se afundar em cinzas
Lhe resta apenas um punhado
Descaso
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Peito encharcado
Umedecido pelo cansaço
Borbulham os entrelaços do meu emaranhado
Enrugado
Trêmulo, o ar pesado assopra meus ouvidos
Olhos vazios
Sobrecarregado
Não há vestígios de um corpo habitado
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Esgueirando-se pelos buracos do tempo
Um calor longínquo é visível
Invisíveis respingos de segundos
Escorrem por entre as rachaduras
Constantemente, põe-se lentamente
Eminentemente, perco a visão de sua despedida
Lamentável ironia
Declino no "comércio" de minha mais-valia
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Se dissipa pela minha língua
Escorrendo por entre minhas entranhas
Adentrando meu organismo
Euforia
Meu peito parece derreter
Preenchido
Um sorriso parece se manter
Meus dedos deslizam por entre as pílulas
Copo em mãos, mais um antidepressivo
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Seguro teu líquido translúcido
Me sinto ser absorvido
Incolor, indolor
Sinto como se fosse abençoado
Me recolho em meu ninho
E volto em pedaços
Teu sangue me preenche
Nos menores buracos
Imundice em meu tapete
Meus lábios, inchados
Vinho tinto se estende
Veneno misturado
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Encaro o espelho
Embaçado
Se são meus olhos ou o reflexo
Um pensamento
Vermelho em meus lábios
Escorrendo pela clavícula
Passeando por minha pele, rastejando
Sinto seu aroma percorrendo minha carne
Inspiro os laços do seu corpo
Azul, vermelho, roxo
Me preenchendo, vermes rastejam
Se proliferando e infestando meu organismo
Seu sabor percorre pela minha língua
Nos tornamos um só
Consumindo nosso amor
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Contorna minha cintura
Enlaça meus ombros
Encara-me com seu olhar
Ah, seu olhar...
Uma imensidão acastanhada
Pontos de luz reluzem e cintilam,
Um breu iluminado por cores misturadas
Um sentimento quente e açucarado me encara
Seus dedos suaves me trazem arrepio
Sinto seu calor, toque que me contagia por debaixo dos tecidos que nos separam
Seu aroma doce me contagia
Embriaga
Nossos passos deixam um rastro
De poeira dourada
Rodopio, balanço, passo após passo
E me encaminho
Janela aberta, luz alaranjada
Um cheiro de velas queimadas
Fecho meus olhos e sinto-me ser embalada
O tecido quente e macio
O cheiro de casa.
Meu sonho se foi, soprou a vela
Passou os dedos pelas paredes, fechou as janelas
E me desejou.
Desejou que ele pudesse, na madrugada seguinte, voltar para casa
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