O chá nunca foi tão amargo
Tão molhado, tão falho.
Tão cheio, tão fraco.
Sinto o gosto do caramelado,
preso no fundo, imerso,
intocado.
Talvez tenha outra xícara,
com um verde mais claro.
Talvez tenha escolhido errado…
Talvez tenha bebido aquela
onde reuni tudo que vinha
dos meus olhos encharcados.
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Gosto de comer, mas não só comer:
Engolir, empurrar para dentro, sem cuspir.
Sentir o gosto da dor de me vestir
e não caber.
Ruir.
Engulo choro, arranco os cabelos...
Me sinto em desespero, até tudo entrar para dentro.
Entra a vontade, entra a ansiedade, entra toda a carne que um dia eu não quis...
Entra tudo, sem gosto de muita coisa.
Um bolo de cerveja, algum líquido de chocolate.
Um pudim para mais tarde!
Algumas lágrimas no martini.
Engulo até minha vontade, minha vida.
Engulo nada que já quis.
(E me escondo aqui, no escuro.
Engolindo os mosquitos, os sussurros.
Que me dizem tanto, que me afundo.
E o que me resta é um gosto amargo na boca,
imundo).
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Sufocos não são sentimentos.
São lembranças, momentos.
A mente se mexendo, remoendo
e o coração torcendo, doendo.
Uma quase morte,
um suspiro forte,
um beijar com corte...
Um silêncio que absorve
o grito que não tem sorte
de ecoar o suficiente.
Sufocar, ficar doente,
é o mesmo.
(E não acaba sempre...)
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Quero fazer meu instante estático:
Instantâneo, insano, incomparável.
Queria me trazer ao seu lado,
embebedar meu suspiro fraco
de alguns goles do seu abraço.
(Gotas do teu amasso,
teu carinho em meus cachos,
amar nunca foi fácil, tem sido farto).
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Me machuco fácil
alguns passos... E simplesmente caio.
Ao suspirar me marco
a pele vira cicatriz e mais nada.
Uma queimadura, tropeço, faca afiada,
uma ilusão de ótica, algumas palavras,
um cigarro quente, minha própria mente
e de repente... Para.
Parar também dói, congela, amarga
tudo de uma só vez, uma falha.
Nas palavras que escrevo
em dizer que tenho medo
de sangrar tanto ao ponto de sobrar de mim
algumas partes:
despedaçadas, destroçadas, migalhas.
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Se palavras dizem nada...
Se letras são apenas símbolos...
Prefiro suspirar no seu ouvido princípios:
De sentimentos vindos, sortidos ao meu alcance.
Dos nossos relances de memória
e a história de um eu e você doce
que entre beijos se torna apenas /nossa/
O que sinto é bobagem, se dito
me obrigo a senti-lo, ouvi-lo
soando como a paz, soando como preciso.
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Você não entende o que é ser poesia.
Mesmo que eu te escreva todos os dias
em versos reais demais, rimas contidas.
Verdades bem mais que despidas.
(Estar nua não é mais conquista).
Te escrever já passou de desejo:
é mais uma lembrança sórdida
de um doce beijo,
de-cres-cendo.
— Olho para trás e não te vejo.
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A partir de hoje, eu te des-preço.
Não me despeço ou te desprezo...
Apenas me afasto do peso de te ter aqui.
Contas não pagas se acumulam
eu sei muito bem disso.
Mas meu nome já tem tantos riscos...
Resquícios, desperdícios de energia,
o peito já não faz aquela folia
de primeiro amor.
As lágrimas já aprenderam,
mesmo não sendo tão simples
enxugar dor.
Te reconheço como minha conta
mas não como primeira necessidade.
Devolução, eu sei que já é tarde,
e é por isso que um segundo sem você
me sufoca de tanta saudade.
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Gosto de te beijar sem boca.
De te despir, decompor, derreter.
Como um chocolate mais que amargo
(de enjôo doce nunca conseguiria viver).
E assim te sinto aqui, ali, lá,
te sinto do lado de cá
e do outro.
Te sinto sobreposto
a todos os meus planos
te vejo compondo, cantando
e mais que isso:
Me encorporando
a sua própria massa.
Pedindo para ouvir minhas palavras
sujas de sentimentos, gastas.
Exponho meu eu, mas já não importa
transfira gostar, querer, existir
por um simples:
vem cá e fecha a porta.
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Eu gosto de como você me transtorna.
De forma crua me borda, me fura.
Me torna arte e sem muita ternura:
Me aflige, me aflora e então florece.
Se tu me dissesse que era artista,
diria apenas... Que não duvido.
Seu sorriso bilha, vicia, convida...
A beijar seus lábios e trançar carícias:
Nos fios dos seu cabelos.
No contorno das suas linhas.
Na sua palma quente.
Nas suas cicatrizes frias.
Pensar em você me sufoca,
soca, acerta.
Te escrever é só uma forma de...
Implorar para que não tenha pressa.
Você me revolta.
(Por me fazer querer viver alguma vida).
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