Que saudade doída,
Me ver nesse limbo da vida.
Calafrios no calor do Rio,
Sei que essa noite vou ter um desafio.
Oh, êxtase de uma realidade não vivida;
Venha me confortar, sabe que és bem-vinda…
Te amo mais que a história da minha vida.
Quero chorar no colo da tristeza,
Fazer ela sofrer comigo, em sua dureza.
Assumir que chamo pela mamãe,
Revelar essa ira,
Me martirizar nos pés de Satã, meu desdém.
Vender essa alma mal amada por trocados,
Gastar meus últimos dias só por birra,
Vadiar por bares de luz apagada,
Dar desgosto para não sentir a dor,
Sem dó, nem julgamentos, sem temor.
Se me magoou, coloco a culpa no meu pai, que não me deu valor,
Mas se o vejo sofrer no karma, me puno com o pudor.
Sofremos o mesmo vício de tristeza.
Cansada dessa mentira, quero uma certeza para chamar de minha.
Gritar no eco: eu me perdi no mito do livre-arbítrio,
Se cheguei aqui, não escolhi, não foi meu critério.
Se tentei ser perfeita, só para mim menti,
Esse genitor nunca viu, então de que adianta tentar tanto assim?
Meu São Jorge nunca falha,
Admiração, mas impossível ser a minha batalha.
Essa criança já foi dilacerada e só cresce como aberração,
Cacos e pedaços para criar um adulto,
Fazendo o papel de Deus da criação. Não sei se sou blasfêmia ou insulto.
Derretendo vidro para ser flexível,
“você é difícil demais.”
Você só pensa isso porque nunca me deu voz,
Mas só para te dar poder, eu me quebro mais uma vez,
mas se me olhasse veria que eu grito sem voz.
Grito só para saber que nunca te perdoei, pai.
Continuar lendo
Olho para o meu reflexo e vejo uma mulher através de atitudes de menina. Questiono-me que narrativa ela pode criar a partir dos erros subjugáveis de um vasto campo de atos falhos... ela é apenas um peão. O monstro abstrato torna-se a persona da máscara que encena obstáculos que um jovem não pode traçar.
Veja só você, com pasta de dente riscada em sua bochecha e um roupão humilde, levemente embriagada, analisando onde viu e não poderia agir, seguindo o destino que apenas a intuição pode direcionar. Afinal, somos cegos, baby; eu finjo não ver e você finge não saber.
Um homem medíocre em afeto, empobrecido em evolução, não pode compreender a competência de encarnar o desmascarar de uma face oculta. Quem és tu, nesse trono que julga quem é digno de sua submissão? Este lobo em pele de cordeiro deve ser sacrificado pelo coelho de março, o louco e impuro!
A caça já vê o caçador prestes a atirar novamente, e cabe a ele decidir se será a presa da cadeia alimentar. Mas hoje não há preparo à mesa da cortesia, restará a sopa invertida ao anseio do rei dos mitos.
Sim, cederei a seus desejos como a isca da pesca, mas, como a sereia dos sete mares, olharei para o imenso vazio de seus olhos verdes, como se soubesse de tudo. E nada pode te afastar dos meus pesadelos, mas já minhas mentiras serão o conforto da doce corte.
Olhe só o que construímos e destruímos com sua luxúria. Não pisque por um minuto que seja; não há motivos para não ver o que poderia ser se não fosse tão só… Se não vê seu reflexo, pergunto-me o que viu em mim.
Continuar lendo
Enquanto escovo meus dentes mecanicamente vendo as teias na parede com presas mortas prestes a serem devoradas por uma aranha do outro lado do banheiro e, me toco que nem sempre a mesma esteve ali.
Quando ocorreu que não percebi? Talvez na mesma intensidade branda que meus dentes de leite se tornaram estes dentes que hoje escovo, dentes esses amarelados do café que me acorda todo dia, e dia após dia atrás de tragos de pensamentos vazios para ocupar o tempo me vejo mais velha que ontem, mas não sei onde deixei aquela criança lá trás.
Renovo meus copos a medida que os quebro em festas em casa ou em almoços receptivos, escuto;“quebra!” Atrás de palavras chulas e risadas, conforto meus amigos que jamais vou esquecer deste dia e, que dia? Não me recordo nem destes companheiros que me levaram estas memórias vagas.
Troco de roupas diversas vezes antes de me tornar vulnerável ao mundo, atrás da persona adequada ao ponto de encontro, até que em uma quinta-feira me despeço de roupas de que já não me cabem mais, presentes de amores que não me pertencem mais e, deixo meu armário oco de lembranças abstratas desta personalidade de ontem.
Apenas não renovei votos, também abdiquei de amigos antigos e permiti o destino me trazer novos momentos. Não há vazio existencial em minhas casca, há um preenchimento de um novo material para uma nova embalagem. Não me encontro nessa antiga identidade e me acoplo ao teorema de renovações de novas células, simplesmente não me assusta mais um número em minha calça, mais um dente em minha boca ou menos um prato em minha mesa. E, por ventura me conforto em momentos de silêncio e o barulho do eco em minhas panelas na madrugada em busca de saciar uma ansiedade causada por o que vou ser amanhã. Me divirto com hipóteses, me arrepio com espíritos protetores e volto a dormir a luz suave da TV.
Amanhã acordarei para escovar meus dentes e há de se pensar que tirarei aquele pequeno cadáver daquela teia, engano do leitor, estarei à espreita e observando quem será vencido pelo cansaço, eu a aranha.
Continuar lendo
Em luzes baixas
Debaixo do cobertor
Habita a alma perdida
Só ela
Sozinha
Sem vida
Em completa anestesia.
O dia lá fora é uma festa sem convite
Mais uma vez,
Não há ninguém
Não quem possa me cativar
Me levar desse conforto desconfortável
Tirar esse amargo
De não estar fora no dia ensolarado.
Não há ninguém ao meu lado
Apenas as paredes podem
ouvir, ver, sentir
O segurar do choro
O desânimo respirar
A tristeza em acordar
Venha noite.
Me permita
ficar acordada tentando dormir,
Pensar em uma vida que não vivi
Só ali estou viva.
Continuar lendo
Acabou e doeu
Doeu porque acabou
E eu não sinto que o erro foi meu.
Apenas,
Perdi meu romeu.
Me deu veneno e desapareceu.
Mas ele estava bem ali
Respondendo
E não dizendo
Que o amor acabou morrendo.
Vai acabar me perdendo.
Continuar lendo
Eu achei que o seu amor era corajoso,
Que era o mais forte que alguém já teria sentido por mim.
Vejo agora como é fraco e você é covarde para dizer o que sente por mim.
Fala que não sente mais o mesmo,
Fala que cansou e acabou.
Ou fala de amor e que nada mudou e vai tentar por mim,
Fala que errou e isso não é o fim.
Mas pelos céus, fale para mim!
Eu não mereço esse amargor no sabor do seus lábios na minha memória.
Eu nunca senti tanto que o amor é dor como agora.
Não tira de mim algo que eu já tive e perdi,
Um dia eu tive seu amor e senti, e você arrancou isso de mim.
Então, por favor, fala para mim se acabou e posso ir,
ou vai lutar por mim.
Continuar lendo
Eu me permiti sentir a falta.
e agora me faz falta não sentir,
que já vivi minha melhor parte com você.
O gelado úmido das minhas roupas entregam que eu fiquei a noite toda na piscina
Tonta de gin
Sem pensar muito em como chegar em casa
Posso dormir aqui?
Cama tão pequena para dois...
Ok, apenas quero dormir
Minha garganta está em chamas
Meu corpo congelado
Meu coração quer sair pela boca
O que você tá fazendo aí do meu lado?
Não passa a mão em mim!
Eu não quero você
Talvez seja a minha imaginação ouvir que você está ofegante falando coisas para mim, que você achou que não ouvi
Eu quero tanto falar
Eu quero falar "não"
Não sei como chegar em casa
Então tenta dormir, tenta dormir
Ele vai parar
Ele é legal demais para isso
O sol nasceu, hora de ir e destrair
Ou se convencer que não foi com você
Continuar lendo
Eu quero falar
E não sai som,
Eu ouço palavras
Mas é isso mesmo que ouço?
Eu não vou falar.
Então, por que minha boca está se mexendo?
Eu não consigo respirar.
Eu perdi o controle.
Eu não estou vivendo
Ou sobrevivendo,
Eu acho que me tornei um corpo
Que permite que a onda me leve.
Anos se passaram
E eu afundei no mar.
Hoje eu não vou gritar;
"Vem me ajudar, me salva do mar!".
Eu já sei que ninguém vai escutar.
Eles acham bonitinho
sofre pelo celular,
Mas aqui,
agora,
No real
Eu tô no chão do mar.
E dessa vez
Um dia,
Uma hora,
A qualquer segundo,
Eu vou nadar pra superfície,
Sozinha,
Do jeito que eu afundei.
Então me deixa descansar
Estou me preparando para nada(r).
Continuar lendo