Ari @Ari_ssa
Drama

Há de ser bom, mas nem ao certo tão bom será

Enquanto escovo meus dentes mecanicamente vendo as teias na parede com presas mortas prestes a serem devoradas por uma aranha do outro lado do banheiro e, me toco que nem sempre a mesma esteve ali. Quando ocorreu que não percebi? Talvez na mesma intensidade branda que meus dentes de leite se tornaram estes dentes que hoje escovo, dentes esses amarelados do café que me acorda todo dia, e dia após dia atrás de tragos de pensamentos vazios para ocupar o tempo me vejo mais velha que ontem, mas não sei onde deixei aquela criança lá trás. Renovo meus copos a medida que os quebro em festas em casa ou em almoços receptivos, escuto;“quebra!” Atrás de palavras chulas e risadas, conforto meus amigos que jamais vou esquecer deste dia e, que dia? Não me recordo nem destes companheiros que me levaram estas memórias vagas. Troco de roupas diversas vezes antes de me tornar vulnerável ao mundo, atrás da persona adequada ao ponto de encontro, até que em uma quinta-feira me despeço de roupas de que já não me cabem mais, presentes de amores que não me pertencem mais e, deixo meu armário oco de lembranças abstratas desta personalidade de ontem. Apenas não renovei votos, também abdiquei de amigos antigos e permiti o destino me trazer novos momentos. Não há vazio existencial em minhas casca, há um preenchimento de um novo material para uma nova embalagem. Não me encontro nessa antiga identidade e me acoplo ao teorema de renovações de novas células, simplesmente não me assusta mais um número em minha calça, mais um dente em minha boca ou menos um prato em minha mesa. E, por ventura me conforto em momentos de silêncio e o barulho do eco em minhas panelas na madrugada em busca de saciar uma ansiedade causada por o que vou ser amanhã. Me divirto com hipóteses, me arrepio com espíritos protetores e volto a dormir a luz suave da TV. Amanhã acordarei para escovar meus dentes e há de se pensar que tirarei aquele pequeno cadáver daquela teia, engano do leitor, estarei à espreita e observando quem será vencido pelo cansaço, eu a aranha.

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