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Niely

@Ampulheta · desde 2022

A poesia afeta e faz parte da alma.

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Acho que enlouqueci:

Eu sei que não consigo continuar, estou fora de controle. Na corrente sanguínea, traços de uma tristeza que não passa tão facilmente. Você entende que todo o meu corpo está tomado por isso? Eu deveria ter lutado mais, me esforçado mais, mas como poderia saber que estava doente, no auge da adolescência? Sempre estive confortável na minha situação, mas de uns tempos pra cá, a rebeldia tem tomado conta, assim como a insatisfação e indignação pelo que me tornei. Hoje, adulta, consigo lidar e ter a responsabilidade que deveria ter. Porém, não é tão simples assim, há dias em que grito mudo e soa extremamente desconcertante. Acho que estou enlouquecendo e o motivo é estar dentro de mim mesma por tanto tempo.

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Sobre a escrita

Passo dias sem excitação relacionada à escrita. De repente, despretensiosa, ela se torna indomável. Tento, com afinco, arrancá-la de quem sou, mas ela gruda na pele e faz-me implorar por míseras palavras. Como posso dizer que sou escritora, se escrevo quando sou possuída por um princípio incontrolável de desejo? Se eu pudesse ser algo, seria um diário velho, daqueles que você expulsa seus pensamentos, um por um, nas folhas amareladas. Acompanharia alguém uma vida inteira: sabendo segredos, partidos e o mais obscuro da vida. Queria ser levada ao mar, num dia qualquer, ter minhas páginas arrancadas e largadas na água cristalina, pois se a dor vem em ondas, sou oceano. Acho que Iemanjá adoraria ler quem sou. Quase como de súbito, penso em acabar esse texto, afinal, pus para fora uma parte de mim que somente a escrita conhece. Não se pode arrancar algo de um escritor tão facilmente, por isso, todos os dias peço que não me arranquem a vida, pois sem ela, não consigo tocar a quantidade de corações que planejei.

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Isso é sobre rosas?

Não tens ideia da gravidade que é viver com intensidade. Eu sempre escrevi para tirarem as madrugadas dos poetas, porque elas podem ser fatais. Mas e quando não se pode fugir de si mesmo? Eu alço voo, o mais alto que consigo, para sair de tudo que sou, mas o vento balança meus cabelos encaracolados e me lembra de tudo que passei. Quero acabar com a guerra dentro de mim, então, desço e pego uma rosa em mãos. Os espinhos me fazem sangrar, as vozes me dizem para parar, mas eu a seguro firme, como quem deve tudo a pequenos acúleos. Repito a mim mesma que preciso sentir novamente, nem que seja dor, mas que seja maior do que a tristeza. Será que consigo? Não importa o escuro, eu sempre dou meu jeito e ilumino tudo ao redor. Mas e em momentos como esse? Onde você não sente nem as próprias mãos? Talvez eu devesse ser flor. Ou melhor, qualquer coisa do que ser humano.

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O dia que decidi mudar

No dia em que decidi mudar, eu estava morta há pelo menos 10 anos. Começou aos 12 e finalmente morri por completo aos 22. Porém, deixei de lado tudo que eu era e passei a ser uma pessoa completamente diferente. Ultrapassei todos os limites possíveis e criei uma realidade em que eu realmente vivia. Não precisava de mais nada. A tristeza ainda existia, é claro, mas ela já não tomava mais conta do meu peito. Sempre tentei sair disso tudo, mas nunca consegui e quem poderia me culpar? Você sabe que estaria mentindo se dissesse que tudo aconteceu por um motivo. Não existem razões, mas existe alguém que sempre pediu ajuda e nesse dia morreu. Aliás, nesse dia, ascendeu e viveu. Estava cansada dos amores falsos, das promessas vazias e de mim mesma. Sabe o que é ter um coração tomado por ansiedade e depressão? Estou há alguns meses sem me mover, ou melhor, sei que houve uma evolução, mas não consigo enxergar nesse momento. Sinceramente, só quero algo que acabe essa dor, mas não encontrarei nada diferente se cometer os mesmos erros, um após o outro. A vida é tão frágil... A qualquer momento ela rasga e acaba. E eu já estive perto de perdê-la, então, entendo perfeitamente o que é isso. Meu sorriso não tem mais cor, meus olhos não brilham e meu peito não floresce há um tempo. Mas... Sabe que dia é hoje? O dia que mencionei nas primeiras linhas desse texto: o dia que decidi mudar.

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No meio da noite:

Caminho e corro para longe, Como se tivesse perdido minha fé, Enquanto a chuva cai sobre meus ombros. Estou extremamente vulnerável na rua, Não vejo uma pessoa sequer E eu precisava de alguém agora. Vou para onde meu coração não funciona: Longe de tudo que tu fostes. Eu ainda não consigo ver, Mas você me tirou tudo que eu sou. Como posso superar, Se, por um momento, você era tudo. Tudo que eu conhecia. E não falo somente de amor. Passo em frente a flores no chão, É noite e o Sol não parece vir tão cedo. Mas eu estou apenas correndo Para acalmar algo aqui dentro. Não. Eu não perdi minha fé. No fim, a perdida sou eu. Mas tudo isso não ocorreu lá fora, Ocorreu dentro do meu quarto, Em uma madrugada qualquer.

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Morrer X viver

Eu preciso escrever, como quem precisa de oxigênio. Mas eu não sou boa em estar viva e nem em criar textos. A história poderia ter sido diferente, mas o meu destino está fadado ao fracasso. Você acha que eu me orgulho disso? Mesmo com milhões de pensamentos ruins na mente, tentei como pude. É até engraçado que eu nunca tenha parado, desde que tive depressão: estudo, trabalho, amores, terapia... Acontece que eu sempre vi um sentido, mesmo quando ele não estava visível. Mas hoje, sabe quando você cansa de esperar por algo que nunca irá chegar? Porque, por mais que eu fique bem, sempre viverei com medo da próxima crise. Estarei entre a vida e a morte, antes mesmo de tudo acabar. Porém, tudo é questão de escolha e eu escolhi, por muito tempo, querer viver - apesar disso não significar que realmente vivi. Meus pensamentos não são reais nesse momento e eu sei disso, não posso confiar. Todavia, não deixo de pensar no "e se...?". No mesmo instante que sou puramente caos, sou inteiramente esperança e não escrevo agora com nenhum outro sentido, senão me organizar internamente. Percebe-se nas entrelinhas uma dúvida constante entre morrer e viver, mas eu nunca quis a primeira opção. Até acho estranho que um dia eu não esteja mais aqui. Sei lá. Como posso pensar nisso com tanta coisa boa ao redor?

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Eu tentei por você, por nós:

Penso em tudo que fomos E algo atravessa minha espinha. Estou eletrizada de algo que não consigo ver, Mas somente eu consigo sentir. Deixou de ser algo a dois E passou a ser unilateral. Caio de joelhos e imploro: "Por favor, apenas me ame." Você dá as costas sem olhar meus olhos Que ainda refletiam nós dois. Então grito contra a sua sombra: "Por que não lutou pela nossa família?" Às vezes parece tão difícil que alguém me escolha. Eu juro que tentei salvar tudo que fomos. Mas isso está me matando. Eu não perdi apenas você Perdi tudo que você via em mim. Mas até que ponto isso foi ruim?

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Acabou:

Talvez o que mais me doa É ter tanto para dizer E não ter você para ouvir. Lembro de todas as noites, De você falar que mudei. Mas na verdade, Eu só estava enxergando você. Quando passei a intervir E não aceitar tudo, Tu me deixasse num limbo. Não me explicou sua decisão, Falou com outras pessoas, Menos comigo. Me dói muito saber que não fui nada, Enquanto, por muito tempo, Você significou tudo que eu tinha. Talvez tenha sido melhor assim, né? Enfim, livre para ser o que você queria: Alguém sem responsabilidade afetiva. E eu...? Bom, ainda sinto falta. Porque um sentimento não acaba de repente, Mas você me disse que não sentia mais nada. Como posso entender, Se não está ao meu alcance? Ontem eu disse a uma amiga Que não entendia as atitudes das pessoas, Porque eu não faria o mesmo. Mas isso é ingênuo demais: Esperar gentileza, carinho e atenção De pessoas que não sentem isso Nem por elas mesmas.

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A sociedade e suas máscaras:

É confuso sentir que não pertenço A nenhum lugar e a ninguém. Que todos fazem parte de um padrão, Seja de beleza ou social. Consigo observar as máscaras em cada um E elas caem pouco a pouco. Inclusive, me encaixo em algumas, Porque preciso esconder quem sou. No fim, todos somos hipócritas, Lutamos por algo que não existe em concreto, Apenas na nossa sociedade. E isso cansa. Cansa muito. Eu queria ser livre, Porém, sinto que estou presa Na ideia dessa liberdade que tanto almejo.

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Momentos de pureza

Há vezes em que despersonalizo tanto, Que fico crua, da mesma forma que vim. Sem vaidade. Sem inveja. Sem remorso. Mas hoje é só mais um dia, entre tantos. Viro criança novamente e tudo me fere. Tenho dado tanto e recebido pouco. Cansativo seria se eu tivesse desistido. Por isso, continuo mesmo na insatisfação, Porque sei que um dia chego lá. Eu sei que coisas são apenas coisas, Que elas não fazem 1% do que sou. Mas também sei que importam. Não deveria, né? Na verdade, Peco tanto por me importar Perco tanto tentando entender. Peço tanto a Deus... Que já não sei mais o que orar. Só peço perdão pelos devaneios E pela alma pura Nesses momentos de extrema vulnerabilidade.

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