Niely @Ampulheta

Sobre a escrita

Passo dias sem excitação relacionada à escrita. De repente, despretensiosa, ela se torna indomável. Tento, com afinco, arrancá-la de quem sou, mas ela gruda na pele e faz-me implorar por míseras palavras. Como posso dizer que sou escritora, se escrevo quando sou possuída por um princípio incontrolável de desejo? Se eu pudesse ser algo, seria um diário velho, daqueles que você expulsa seus pensamentos, um por um, nas folhas amareladas. Acompanharia alguém uma vida inteira: sabendo segredos, partidos e o mais obscuro da vida. Queria ser levada ao mar, num dia qualquer, ter minhas páginas arrancadas e largadas na água cristalina, pois se a dor vem em ondas, sou oceano. Acho que Iemanjá adoraria ler quem sou. Quase como de súbito, penso em acabar esse texto, afinal, pus para fora uma parte de mim que somente a escrita conhece. Não se pode arrancar algo de um escritor tão facilmente, por isso, todos os dias peço que não me arranquem a vida, pois sem ela, não consigo tocar a quantidade de corações que planejei.

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