Sentia que habitava um mundo
que não era dele,
e falava um idioma
que ninguém entendia.
Por isso se obrigou
a seguir regras
que não o importavam.
Passou a ser ferro e fogo
contra ele mesmo.
Exigiu de si
que fosse igual a todo mundo.
Mas não era.
Ninguém é.
Agora,
encontrou sua linguagem espiritual.
E se recusa
a se encaixar
em outro idioma.
Agora é
como nunca antes foi.
Regressou ao seu lar.
É o regresso de um estrangeiro
que sempre pertenceu àquela terra.
— Amanda Corvo
Continuar lendo
Não posso dizer que te entendo
quando dizes ter visto a aurora.
Não vi a mesma aurora que tu,
mas vi sim uma aurora.
Não precisas tentar explicar.
Serias como quem descreve a aurora
a um cego.
Basta que eu te diga:
essa aurora também amanheceu em mim.
— Amanda Corvo
Continuar lendo
Por um tempo incontável
me senti descabida.
Como caberia num lugar,
se o que buscava
era uma lacuna
que se encaixasse
à matéria?
Falava de corpo.
Desejava uma lacuna
onde meu corpo coubesse.
Agora não me sinto descabida.
Não porque encontrei a lacuna.
Mas porque desisti dela.
E em seu lugar,
achei um universo inteiro
para minha alma.
— Amanda Corvo
Continuar lendo
Você diz sem dizer,
e eu leio sem ler.
Então entendo sem entender.
— o que é o suficiente,
e depois já não é mais.
Sei que você esteve em cada uma das palavras escritas,
sem estar.
Sinto-te lá,
mas tu não estás.
Eu estou?
Não estou.
Encontro rastros de uma não palavra.
Sou feita de vestígios de uma não presença.
— Amanda Corvo
Continuar lendo
Sentei à mesa e me deparei com um banquete completo. No início, tive medo de experimentar sequer uma castanha.
Então escolhi começar pelas uvas, já que é difícil não gostar de uvas. Dito e feito, como esperado, as uvas eram deliciosas... mas mais do que isso, eram uvas das quais eu nunca havia experimentado.
Então me vi novamente em frente a todo aquele banquete. E conforme ia experimentando, mais fome eu tinha.
A fome que eu sinto algum dia poderá ser saciada? Sentei à mesa com intenção de saciá-la, mas agora já não sou a mesma. Não busco matar a fome, busco senti-la.
A sensação é realmente essa: de que aquele banquete não é apenas comida, mas matéria orgânica, densa, saborosa e por vezes difícil de mastigar.
Quero a dificuldade da digestão. Quero mastigar cada átomo e senti-lo descer por minha garganta.
Já não mastigo a comida.
Mastigo a fome.
E me descubro sendo a fome que mastigo.
— Amanda Corvo
Continuar lendo
O espelho para mim é um portal para o outro lado — o lado de dentro.
Sempre sinto esse outro lado, mas só o vejo ao me assistir no espelho.
O outro lado se esconde nas sombras.
Eu consigo ver seus olhos assustados.
Eu me olho, e meu eu me olha de volta.
Você pode me ouvir?
O outro lado tem medo e não sabe bem do que.
Há muito tempo vive assim, e eu só o percebo quando me assisto no espelho.
O outro lado não chora, não pisca.
O outro lado vê o tempo passar e não vive, apenas observa.
Vivo atrás de uma armadura que está enferrujada e se desfazendo.
Meu eu, suplico a ti: me ajude a tirar essa armadura.
Não se esconda! Preciso de você.
O tempo está passando.
Não me deixe só.
E não fique só.
Só temos essa vida para viver.
Saia das sombras.
Me ajude a ser eu.
Me ajude a tirar essa armadura que carrego.
Me ajude a tirar esse peso de mim — o peso de não ser você.
-Amanda Alves
Continuar lendo
Cada gota que cai do chuveiro tem uma vida breve.
Enquanto gota, sua forma se mantém — redonda, translúcida, úmida.
Não dá tempo de ser o que quer que sonhasse ser antes da queda.
E agora,
a gota que era gota
encontrou minha pele que era só pele.
Agora a gota perde sua forma
e é só essência.
E minha pele não é apenas pele — é pele molhada.
Penso:
quantas existências minúsculas e redondas se dissolvem em mim?
Quantos encontros minha pele teve antes de realmente notar a existência de uma gota?
De quantas gotas meu corpo é feito?
Quantas gotas carrego em mim?
Quantas são de chuva,
quantas são do suor de alguém que amei,
quantas são de lágrimas que eu mesma derramei?
Hoje, sob o chuveiro,
já não sei onde termina a gota
e onde começo eu.
-Amanda Alves
Continuar lendo
Quando algo realmente acaba?
Quando nos damos conta de que nunca fez sentido,
Ou quando deixamos de sentir?
Em nossas vidas somos os protagonistas, mesmo que eu não tivesse te conhecido eu ainda seria eu.
Talvez com menos calos, menos cicatrizes e um coração menos dolorido.
Me sinto mais forte mas me sinto cansada.
Já não choro ao lembrar de você e já não tenho sonhos que me atormentam.
Sua lembrança em minha vida, é apenas mais uma história.
Uma história que me marcou e que me doeu.
Mas eu já não choro ao fechar os olhos e sentir que vc me observa em pensamentos.
Já posso ser eu sem que sua sombra me atormente
Já amo de novo, um amor que me cura
-Amanda Alves
Continuar lendo
Tem algo preso em minha garganta, é por isso que não consigo falar.
Apenas sinto, sinto mais do que aguento
e não aguento mais sentir.
As coisas estão ficando diferentes, acho que ninguém mais notou.
As vezes o mundo desaba e ninguém percebe.
Quem sabe eu prefira mesmo estar sozinha nesse desmoronamento.
Talvez só eu veja porque estou desmoronando também.
Falar sobre isso é como contar um segredo que deveria ser guardado
Mas eu nunca fui boa em guardar esse tipo de segredo...
Se eu não falo eles saem de mim de qualquer forma, seja um grito ou uma implosão.
Ultimamente tenho implodido
Procuro em todos os cantos que existem em mim, palavras que possam descrever...
Talvez o que eu queira é vomitar palavras que deveriam sair de forma simples
Mas ao contrário disso faço rodeios esperando que uma hora a frase certa apareça, que o poema certo apareça.
Me descreveria em constante busca. Me encontro e isso não me satisfaz, quero ser algo além de mim mesma.
Porque?
Porque não sei me contentar com o que já tenho de mim?
Quero mais
Quero constantemente mais de mim.
-Amanda Corvo
Continuar lendo
Sentimentos fragmentados sob a mancha do tempo.
Impossibilitados de serem diferenciados,
Implodem.
Causam um novo sentimento, um que devasta e não pode ser nomeado.
Ao mesmo tempo que é um vazio, é tudo.
Tudo o que tenho dentro...
Preenchem as linhas da minha história
Não se encaixam mais na realidade, mas ainda estão lá.
Fragmentados sobre a mancha do tempo.
Explodem devastando tudo por dentro.
Luto todos os dias pra que isso não aconteça, mas tem dias que eles vazam por meus olhos, e inundam meu coração.
São selvagens e não posso os controlar
São espertos e me enganam
Se escondem por um tempo, mas sei que sempre estarão lá... sempre estiveram lá.
Em uma outra vida ou em uma outra historia, sempre foi assim?
Sentimentos fragmentados... mancham as linhas da minha história
-Amanda Alves
Continuar lendo