Do útero até a morte
Um número sem sorte
Nada de bom me resta no fim
A opção já tá morta
Coração não importa
Deus, por que me criou assim?
Eu só traria prejuízo
Contaminaria o paraíso
Meu fúnebre sofrimento eterno
Agora é só aceitar, sei o destino
O tempo a passar, desde menino
Irei para o escaldante inferno
Pai nosso que estás no céu
Eu mereço esse fim cruel?
Santificado seja o vosso nome
Não sou suficiente pra ser homem
Que todo mal caia sobre terra
Que eu morra na luta interna
Eu sou a casca inútil de um ovo
Quebrada e descartada de novo
Para minha vida, a reprodução
Jamais passará de uma ilusão
O fim do meu ato é mais que decisivo
Poupando os que ainda estão vivos
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Eu me olho no espelho
Vejo um defunto me encarando
Seus olhos mostram injustiça
Seu rosto revela o tempo curto
Tempo
O tempo que preciso preencher
Com as minhas ações e escolhas
Eu sei que eu vou morrer
Mas como preencher esse tempo?
Como preencher?
Viver pelos outros o torna infeliz
Viver pelo mundo o torna orgulhoso, mas insatisfeito
Viver por mim é como viver em vão
Ninguém gosta do que eu faço
Ninguém gosta
No teatro, gritam, não dando para ouvir
A voz da bruxa que voa sobre suas cabeças
Enquanto obras profundas e melancólicas
Apodrecem no esquecimento
Livros, poucos lêem
E não é certeza se lerão o que escrevo
Eu não cumpro a função humana
Não preencho esse espaço limitado
Não me encaixo nem na função biológica
Eu só encaro a verdade
Verdade
Está um belo dia
Sonhos fúteis
Desejos inúteis
Passo o batom das mentiras
Passo o pó da felicidade
Faço o contorno das regras
Uso o rímel anti lágrimas
O cadáver sorriu para mim
Eu sorri de volta
Abro a porta da minha casa
E saio para o mundo
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Como poderei viver todo dia
Se o dia a dia é só sobrevivência
E ninguém me concederá clemência
No meio dessa eterna correria
Como posso manter essa alegria
Quando tantos censuram minha essência
E ninguém tem nenhuma paciência
Para manter vívida a harmonia
Tempo passa e a vida a se apodrecer
A emoção é banal e o dinheiro é apático
Eu cresci e falhar não tem mais desculpa
O Sol se oculta, vindo o anovescer
Revelo que sou um boêmio dramático
A noite é dos poetas e das putas
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De noite, um anjo pousou
E então ele me informou
Que eu sou o que mais temia
Como seria difícil a minha vida
Alguns dizem que sou safado
Mas sei que eu estou destinado
A ser uma pessoa tão ruim
Então só aguardo meu fim
Religiosos me ameaçaram
Com ofensas me atacaram
Mas se o seu Deus é feito e valoriza o amor
Por que o seu Deus por isso me condenou?
Direitos frequentemente cortados
Como que alguém vive tão cansado?
Algumas vezes, eu até posso ir e vir
Mas preciso me justificar por existir
Gente como eu é piada na esquina
Julgada em banheiro, loja e piscina
Se gente assim estiver em propaganda famosa
Essa empresa vai falir em menos de uma hora
Tendo uma vida impura
E não existe uma cura
Como um produto defeituoso
Pode um dia se tornar honroso
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Nada daquilo era real
A sua cabeça está mal
Eu vou consertar você
E perfeito você vai ser
Eu vou apagar o seu rosto
Vou te deixar quase morto
O seu corpo será um manequim
E é feito sob medida para mim
O seu sorriso olha vazio pro teto
Os braços tortos e o seu pé reto
Vou consertar o seu pensamento
Vai doer só por um breve momento
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Começou uma guerra
Na minha linda terra
Fui perseguido e o motivo
É só porque eu estou vivo
O mar azul
Indo pro sul
Não há ninguém pra conversar ou ver
Não há sofrimento e nem mesmo prazer
Sozinho no oceano
Sozinho observando a água na minha frente
Memórias que amo
São a única coisa que mantém minha mente
Não sou bem vindo no meu país
Na terra onde está a minha raiz
Então eu vou de continente em continente
Caçando onde sou considerado inocente
O vento soprando
O barco balançando
Lembro de alguns sorrisos
E depois de gritos aflitos
Sozinho no oceano
Sozinho observando a água na minha frente
Memórias que amo
São a única coisa que mantém minha mente
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Desde a época da escola
Me chamavam de boiola
Eu nunca tive uma namorada
Nunca tive uma pessoa amada
Não sei se sou hétero ou gay
Mas uma vez eu me apaixonei
Foi algo bem esquisito
Era o Marcelo de vestido
O vestido caía muito bem a ele
Mas não vi masculinidade nele
Uma mulher também não parecia
Mas com certeza era muito bonita
Parecia frágil, mas ele ganhou em uma briga de três
Que zombaram dele, mas se arrependeram de vez
Às vezes, eu ainda me sinto muito aflito
Quando lembro do Marcelo de vestido
— Se um Marcelo estiver lendo isso, saiba que eu não me inspirei em você, na verdade o nome pro poema foi escolhido a dedo.
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É uma das minhas músicas preferidas
Muito bem tocada e muito bem ouvida
A música acabou
E meu amigo falou
Uma promessa tão pessoal
E é uma promessa tão real
O artista canta com tanta destreza
Promessa de amizade verdadeira
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Sempre só gira e gira
Estou no alto e depois abaixo
Essa é a minha vida
Sei que nada sossega o facho
Já aceitei ajuda
Mas eu volto pro chão
O ciclo não muda
Então mudar é em vão
Talvez eu possa me jogar
Dessa maldita cabine
Pois se eu só me lamentar
Isso nunca termine
Já aceitei ajuda
Mas eu volto pro chão
O ciclo não muda
Então mudar é em vão
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Não há mais nada em meu pé
Perdi a esperança e a minha fé
Mas aquele corpo, de quem é?
Parece comigo, até usa um boné
Não sinto nenhuma emoção
Mas ao redor só há comoção
Claro que esse sou eu então
Oh não...
Que injusto...
Mesmo depois da morte
O segredo sujo me entope
Sei que suicídio eu resolvi escolher
Mas o motivo não havia como deter
Ninguém ia se quer escutar ou ver
Invisível vivo e até depois de morrer
Não cumpri a minha função
Mas ao redor só há escuridão
Eu rejeitei qualquer boa mão
Oh não...
Que injusto...
Mesmo depois da morte
O segredo sujo me entope
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