Um cadáver bem maquiado
Eu me olho no espelho Vejo um defunto me encarando Seus olhos mostram injustiça Seu rosto revela o tempo curto Tempo O tempo que preciso preencher Com as minhas ações e escolhas Eu sei que eu vou morrer Mas como preencher esse tempo? Como preencher? Viver pelos outros o torna infeliz Viver pelo mundo o torna orgulhoso, mas insatisfeito Viver por mim é como viver em vão Ninguém gosta do que eu faço Ninguém gosta No teatro, gritam, não dando para ouvir A voz da bruxa que voa sobre suas cabeças Enquanto obras profundas e melancólicas Apodrecem no esquecimento Livros, poucos lêem E não é certeza se lerão o que escrevo Eu não cumpro a função humana Não preencho esse espaço limitado Não me encaixo nem na função biológica Eu só encaro a verdade Verdade Está um belo dia Sonhos fúteis Desejos inúteis Passo o batom das mentiras Passo o pó da felicidade Faço o contorno das regras Uso o rímel anti lágrimas O cadáver sorriu para mim Eu sorri de volta Abro a porta da minha casa E saio para o mundo
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