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Alana Santos

@AlanaSantos · desde 2020

Não sei se o que escrevo é poesia, mas cada letra é autêntica vinda de um ser que sente muito.

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Aguarde naquela sala

A parede pálida Me encara Não há jarro de flores Nem quadros Nem um mísero enfeite sequer Para distrair olhos compridos A tinta alva É tudo o que há Tão desprovida de animosidade Que se eu encostar a ponta dos dedos A textura sequiosa irá me corroer Ainda mais Longos minutos Observando a parede muda Hipnotizado no vazio E então toda sorte de pensamentos Aproveitam a deixa Derramam Escorrem e pigam Até o rodapé Causando uma enorme bagunça Que só eu vejo Na parede crua.

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Poesia

Encontro

Teus olhos gigantes Parenciam dois faróis Apontados na minha direção Não desviei nem nada Fiquei ali parado sem reação A cada minuto que se passava Subtraía-se um quilômetro Da minha escuridão.

Poesia

Brisa

Não muito distante vejo o cais O sol já está se pondo Revelando somente metade de si Sereno Beija as águas claras do mar em despedida Suas pequenas ondas o recebem com gentileza Refletindo o brilho alaranjado de seu encontro Dá pra ver os pássaros cortando o céu Movimentando-se de tal forma O qual arrisco-me a dizer Que há um espaço entre o bater de suas asas E o caminho do vento sob cada pena delicada E esse espaço é preenchido unicamente Por pura sinfonia Quase que imperceptível Mais adiante pedra e terra sinalizam a margem A ideia de solidez acalenta-me a alma Depois de tantas noites perdido Velejando no escuro Pois a neblina cobrira absolutamente tudo Então já não era mais possível encontrar o leme As estruturas do meu barco puseram-se em tom de súplica E eu temi ser tragado por minhas misérias ali mesmo No descontentamendo adormeci Ao abrir os olhos vi os primeiros indícios tímidos da manhã Senti o calor esquentar o corpo Porém o abracei imaginando ser o delírio de uma doce memória De um dia bom Depois de um longo tempo forcei-me para ficar de pé E finalmente pude ver o cais aceso de expectação Os raios dourados do sol atravessavam-me o peito Com os olhos enxutos Recostei-me ao leme aliviado Pela luz do dia.

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Poesia

Beleza

Meu bem não carece muita coisa não Vovó disse uma vez que o amor É o principal ornamento do coração Falou que quem tem amor no peito Transparece na feição Pessoal inventa tanta coisa Mas é só ilusão Esse negócio de aflingir o corpo por causa de um padrão Um bocado de gente triste buscando aceitação Valha-me Deus Que judiação Não se esmureça com isso deixe de mão Abra esse sorriso você não precisa pedir pros outros aprovação Beleza não é superfície é dimensão De vez enquando também caio nessa tentação É dolorido não nego não Mas penso que a vida da gente Não pode ficar presa em alheia opinião Fique sabendo que a única coisa Que eu ainda pelejo pra enfeitar são esses versos na mão.

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Procrastinação

Mais uma vez observo o vapor do café escapar pela xícara Pela manhã aquilo me parecia um tanto enigmático Pois haviam tantas coisas a se fazer que soou irrelevante Distrair-me com tal feito rotineiro Dono de um maço de pendências com prazos vencidos Precisava correr para cumpri-los um por um com afinco Mas durante todo o dia dedicar-lhes meus pensamentos foi o máximo que fiz Não refiro-me a um plano estratégico, bem trabalhado Meus pensamentos assemelhavam-se mais a um disco arranhado Que era capaz de rodar somente uma faixa: "Eu preciso fazer" E o tempo tratou de passar arrastado com a melodia maçante Agora já é noite e eu observo o vapor do café escapar pela xícara Tal simbologia pode possuir uma infinitude de significados Mas agora só consigo ver o dia dissipando-se lentamente diante do meu rosto Como a fumaça que se levanta sobre o líquido escuro E em pouco tempo some sem deixar rastro algum Pergunto-me para que tanto alarde? Se no fim acabei sendo engolido novamente pela procrastinação Não compreendo como aflinjo-me para cumprir compromissos cotidianos com os outros Mas peco gravemente para comigo Invalidando promessas cujo destinatário e remetente é um só Negligenciando minha construção despretenciosamente Ora não deveria eu estimar-me já que habito em mim? Pois bem, amanhã quando o alarme tocar Tornarei a observar o café recém saído das chamas Afim de atribuir-lhe um novo conceito Sim, um novo.

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Poesia

Sabotagem

Caminhei pela calçada coberta por folhas amareladas e avermelhadas que pareciam terem sido depositadas ali cuidadosamente pelos próprios galhos agora nús de sua antiga morada pouco a pouco elas iam sendo carregadas pelo vento sem protestar apesar do destino indefinido deixavam-se ir para quem sabe algumas tivessem a sorte de repousar no colo da terra mais uma vez e ali pudessem alimentar o solo de sua matéria prima admirei-me daquilo porém de uma certa forma as folhas secas entristeciam-me um pouco talvez por recordar de minha própria sequidão o que não fazia jus somente ao outono dava-se em qualquer estação mas o que mais me doía era o estalar das folhas sendo pisadas pelas botas que eu calçava o barulho de algo se desfazendo incomodou-me a tal ponto de fazer escapolir um soluço preso a tantos dias no fundo eu sabia que também era esmagado e também estalava em pedaços sob um rastro de botas negras que por acaso também pertenciam a mim.

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Poema

Alma luz

Minha alma tem o peso da luz Tem o peso da música Tem o peso da palavra nunca dita, Prestes quem sabe a ser dita Tem o peso de uma lembrança Tem o peso de uma saudade Tem o peso de um olhar Pesa como pesa uma ausência E a lágrima que não chorou Tem o imaterial peso de uma solidão No meio dos outros - Clarice Lispector -

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Retrato

Um dia me despedacei como uma peça de vidro excedida pelo peso pelo peso do mundo desde esse dia específico nunca mais fui o mesmo até hoje junto os pedaços e quando já estou quase completo torno a quebrar-me novamente me pergunto se a vida adulta é assim mesmo cheia de cacos ou se mais uma vez eu tomei o caminho errado.

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Fundo do poço

Observo a cidade enquanto ouço meus sapatos gastos protestando contra o chão escorregadio rostos desconhecidos passam por mim, ligeiros e seguem para os seus destinos como se estivessem delineados a sua frente por vezes olhos desconhecidos se cruzam com os meus e eu desejo aos céus saber o que se passa além de suas retinas se não fosse o álcool embargando minhas emoções me atreveria a dizer que todos eles de alguma forma estão tentando sair do fundo do poço as luzes da cidade se acendem e aos poucos os carros começam a se amontoar um deles estaciona próximo a calçada me privando de olhar para as pessoas do outro lado da rua antes que eu possa abrir a boca para praguejar o motorista me deparo com o reflexo na pintura polida apesar do tamanho anormal dos meus olhos estampados na lataria escarlate sei exatamente o que eles querem dizer já não preciso apelar aos céus nem ao vinho barato para constatar minha localização.

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Cura

Todos os dias eu sento em frente a tv com a expectativa gigante materializada ao meu lado no sofá Todos os dias meu cérebro faz um trabalho impecável para captar qualquer boa notícia Todos os dias meu peito arde para ouvir a palavra progresso como adjetivo ao meu sofrido país Todos os dias o gosto amargo do ódio me vem a boca ao ver o desgoverno delinquente e insensível a vida Todos os dias eu vejo a hipocrisia nos que pregam empatia e resiliência enquanto um convite para aglomerações lhes parece irresistível Todos os dias desde quando tudo isso começou meu coração se rasga como papel ao ver aqueles números alarmantes de suspiros que se esvaíram Mas apesar de tudo isso todos os dias em frente a tv me sinto ligado a uma corrente de brasileiros que apesar da dor não se dão por vencidos e carregam dentro de si a esperança de dias melhores.

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