A parede pálida
Me encara
Não há jarro de flores
Nem quadros
Nem um mísero enfeite sequer
Para distrair olhos compridos
A tinta alva
É tudo o que há
Tão desprovida de animosidade
Que se eu encostar a ponta dos dedos
A textura sequiosa irá me corroer
Ainda mais
Longos minutos
Observando a parede muda
Hipnotizado no vazio
E então toda sorte de pensamentos
Aproveitam a deixa
Derramam
Escorrem e pigam
Até o rodapé
Causando uma enorme bagunça
Que só eu vejo
Na parede crua.
Teus olhos gigantes
Parenciam dois faróis
Apontados na minha direção
Não desviei nem nada
Fiquei ali parado sem reação
A cada minuto que se passava
Subtraía-se um quilômetro
Da minha escuridão.
Não muito distante vejo o cais
O sol já está se pondo
Revelando somente metade de si
Sereno
Beija as águas claras do mar em despedida
Suas pequenas ondas o recebem com gentileza
Refletindo o brilho alaranjado de seu encontro
Dá pra ver os pássaros cortando o céu
Movimentando-se de tal forma
O qual arrisco-me a dizer
Que há um espaço entre o bater de suas asas
E o caminho do vento sob cada pena delicada
E esse espaço é preenchido unicamente
Por pura sinfonia
Quase que imperceptível
Mais adiante pedra e terra sinalizam a margem
A ideia de solidez acalenta-me a alma
Depois de tantas noites perdido
Velejando no escuro
Pois a neblina cobrira absolutamente tudo
Então já não era mais possível encontrar o leme
As estruturas do meu barco puseram-se em tom de súplica
E eu temi ser tragado por minhas misérias ali mesmo
No descontentamendo adormeci
Ao abrir os olhos vi os primeiros indícios tímidos da manhã
Senti o calor esquentar o corpo
Porém o abracei imaginando ser o delírio de uma doce memória
De um dia bom
Depois de um longo tempo forcei-me para ficar de pé
E finalmente pude ver o cais aceso de expectação
Os raios dourados do sol atravessavam-me o peito
Com os olhos enxutos
Recostei-me ao leme aliviado
Pela luz do dia.
Meu bem não carece muita coisa não
Vovó disse uma vez que o amor
É o principal ornamento do coração
Falou que quem tem amor no peito
Transparece na feição
Pessoal inventa tanta coisa
Mas é só ilusão
Esse negócio de aflingir o corpo por causa de um padrão
Um bocado de gente triste buscando aceitação
Valha-me Deus
Que judiação
Não se esmureça com isso deixe de mão
Abra esse sorriso você não precisa pedir pros outros aprovação
Beleza não é superfície é dimensão
De vez enquando também caio nessa tentação
É dolorido não nego não
Mas penso que a vida da gente
Não pode ficar presa em alheia opinião
Fique sabendo que a única coisa
Que eu ainda pelejo pra enfeitar são esses versos na mão.
Mais uma vez observo o vapor do café escapar pela xícara
Pela manhã aquilo me parecia um tanto enigmático
Pois haviam tantas coisas a se fazer que soou irrelevante
Distrair-me com tal feito rotineiro
Dono de um maço de pendências com prazos vencidos
Precisava correr para cumpri-los um por um com afinco
Mas durante todo o dia dedicar-lhes meus pensamentos foi o máximo que fiz
Não refiro-me a um plano estratégico, bem trabalhado
Meus pensamentos assemelhavam-se mais a um disco arranhado
Que era capaz de rodar somente uma faixa: "Eu preciso fazer"
E o tempo tratou de passar arrastado com a melodia maçante
Agora já é noite e eu observo o vapor do café escapar pela xícara
Tal simbologia pode possuir uma infinitude de significados
Mas agora só consigo ver o dia dissipando-se lentamente diante do meu rosto
Como a fumaça que se levanta sobre o líquido escuro
E em pouco tempo some sem deixar rastro algum
Pergunto-me para que tanto alarde?
Se no fim acabei sendo engolido novamente pela procrastinação
Não compreendo como aflinjo-me para cumprir compromissos cotidianos com os outros
Mas peco gravemente para comigo
Invalidando promessas cujo destinatário e remetente é um só
Negligenciando minha construção despretenciosamente
Ora não deveria eu estimar-me já que habito em mim?
Pois bem, amanhã quando o alarme tocar
Tornarei a observar o café recém saído das chamas
Afim de atribuir-lhe um novo conceito
Sim, um novo.
Caminhei pela calçada
coberta por folhas amareladas e avermelhadas
que pareciam terem sido depositadas ali cuidadosamente
pelos próprios galhos agora nús
de sua antiga morada
pouco a pouco elas iam sendo carregadas pelo vento sem protestar
apesar do destino indefinido
deixavam-se ir
para quem sabe algumas tivessem a sorte
de repousar no colo da terra mais uma vez
e ali pudessem alimentar o solo de sua matéria prima
admirei-me daquilo
porém de uma certa forma
as folhas secas entristeciam-me um pouco
talvez por recordar de minha própria sequidão
o que não fazia jus somente ao outono
dava-se em qualquer estação
mas o que mais me doía
era o estalar das folhas sendo pisadas pelas botas que eu calçava
o barulho de algo se desfazendo
incomodou-me a tal ponto de fazer escapolir um soluço
preso a tantos dias
no fundo eu sabia que também era esmagado
e também estalava em pedaços sob um rastro de botas negras
que por acaso também pertenciam a mim.
Minha alma tem o peso da luz
Tem o peso da música
Tem o peso da palavra nunca dita,
Prestes quem sabe a ser dita
Tem o peso de uma lembrança
Tem o peso de uma saudade
Tem o peso de um olhar
Pesa como pesa uma ausência
E a lágrima que não chorou
Tem o imaterial peso de uma solidão
No meio dos outros
- Clarice Lispector -
Um dia
me despedacei
como uma peça de vidro
excedida pelo peso
pelo peso do mundo
desde esse dia específico
nunca mais fui o mesmo
até hoje
junto os pedaços
e quando já estou quase completo
torno a quebrar-me novamente
me pergunto
se a vida adulta é assim mesmo
cheia de cacos
ou se mais uma vez
eu tomei o caminho errado.
Observo a cidade
enquanto ouço meus sapatos gastos
protestando contra o chão escorregadio
rostos desconhecidos passam por mim, ligeiros
e seguem para os seus destinos
como se estivessem delineados a sua frente
por vezes
olhos desconhecidos
se cruzam com os meus
e eu desejo aos céus
saber o que se passa além de suas retinas
se não fosse o álcool embargando minhas emoções
me atreveria a dizer que
todos eles de alguma forma
estão tentando sair do fundo do poço
as luzes da cidade se acendem
e aos poucos os carros começam a se amontoar
um deles estaciona próximo a calçada
me privando de olhar para as pessoas do outro lado da rua
antes que eu possa abrir a boca para praguejar o motorista
me deparo com o reflexo na pintura polida
apesar do tamanho anormal dos meus olhos estampados na lataria escarlate
sei exatamente o que eles querem dizer
já não preciso apelar aos céus nem ao vinho barato
para constatar minha localização.
Todos os dias
eu sento em frente a tv
com a expectativa gigante
materializada ao meu lado no sofá
Todos os dias
meu cérebro faz
um trabalho impecável para
captar qualquer boa notícia
Todos os dias
meu peito arde para ouvir
a palavra progresso
como adjetivo ao meu sofrido país
Todos os dias
o gosto amargo do ódio
me vem a boca
ao ver o desgoverno
delinquente e
insensível a vida
Todos os dias
eu vejo a hipocrisia
nos que pregam empatia e resiliência
enquanto um convite para aglomerações
lhes parece irresistível
Todos os dias
desde quando tudo isso começou
meu coração se rasga como papel
ao ver aqueles números alarmantes
de suspiros que se esvaíram
Mas apesar de tudo isso
todos os dias
em frente a tv
me sinto ligado a uma corrente de brasileiros
que apesar da dor
não se dão por vencidos
e carregam dentro de si a esperança de dias melhores.