Dama da noite
Dourada será a manhã, pois nela o sol brilha, iluminado pelo seu sorriso. Espero que o dia chegue logo, pois agora caminho na noite. E é de noite que me guio por reflexos na lua e sigo por uma estrada deserta, sem ter um mapa, que é para não me perder. O vento que vem manso traz para mim seu cheiro leve de ervas do anoitecer, deixando meu coração em êxtase. Segunda-feira estava tudo bem: você sorria e o sol lambia seu cabelo castanho. Mas na terça você já desapareceu, deixando pegadas na areia que sigo desde então. Onde foi parar a dama da noite que não floriu hoje aqui, deixando-me nessa busca por seu amor? Caio de joelhos no escuro. Todos os insetos e bichos ao redor aproveitam para se alimentar do meu sofrimento; ficam calados ao me verem dobrado. Mas quando me levanto, eles cantam e gritam mais alto do que já se ouviu. Não posso desistir no meio do caminho. A lua já ia se escondendo para dormir quando vejo, em minha frente, uma única pétala caída sobre a areia fria, fresca, como se o orvalho tivesse acabado de chorar por nós. E é aí que não paro para chorar. Aperto o passo e sinto o sobressalto das sombras dobrando a esquina do vento. E a noite, finalmente cheirando a recomeço... É ali que enfim posso descansar e descobrir a curva final da praia, onde suas pegadas paravam para me esperar.
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