Ostracismo moral III
O coitado morreu e hoje debruçam-se sobre seu caixão os únicos que o amavam de verdade. Partiu tão cedo deixando saudades no peito de todos que amou. As lágrimas vivas de sua viúva rolavam até cair sobre seu corpo desfalecido, e ela dizia que aquele sofrimento que ela o viu sentir a fez desacreditar de seus dogmas. Mas ela fala tão alto que alguém que não chorava pelo morto escutou, e veio dizer que eram os planos do ser dogmático e que ela não deveria chorar ou se importar com isso, pois tudo tinha um porquê. E foi por isso que... Ela então o atinge com um tapa não com sua mão, mas com sua boca ao dizer que importa sim, pois o viu sofrer, e que todos ao seu redor vão continuar a sofrer sua ausência. A conclusão dela era de que ser algum em sua magnitude faria isso a seres tão frágeis. Completou dizendo que é tão de praxe que pessoas que seguem seus dogmas de forma tão ortodoxa se importem menos com as pessoas, pois, para quem sofre, uma recompensa no final o conforta... O dogmático se calou, com o peso da verdade cravado na pele. Não havia oração que tapasse a ferida, nem promessa que apagasse a ausência. A viúva deu as costas ao consolo, voltou a chorar o seu morto e, na vastidão daquele silêncio, encontrou a única santidade que resta: a humanidade de sentir a dor até o fim. E eu, ouvindo isso, achei tão desnecessariamente necessário...
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