Muiraquitã, o mito das Amazonas
Ela me devorou; não com a violência da antropofagia, mas com uma entrega febril que me desfazia por dentro. Nosso suor se misturava ao orvalho da noite; o cheiro de terra molhada e flor de vitória-régia parecia brotar da pele dela. A cada toque, a selva se fechava ao nosso redor, quente e sufocante, fazendo-me esquecer de onde vim e de quem eu era. O tempo simplesmente parou. Ela parecia ler minha mente: sorria com dentes claros na penumbra, sussurrando que aquilo era só o começo que deixaria uma marca minha nela e um presente dela em mim. Meu peito queimava e o coração batia num compasso estranho: quase humano, quase bicho. No céu, a lua parecia uma ferida estática. Nenhum vento movia as folhas; ouvia-se apenas o eco trêmulo do uirapuru e o coaxar distante de uma rã, ditando o ritmo do nosso transe. Aninhado em seus braços quentes, deixei-me afundar num sono sem fundo. Quando despertei, a noite ainda era escura. Chorei em silêncio, sentindo o vazio da mata ao meu redor... até que notei algo absurdamente pesado e gelado sobre meu peito: uma rã esculpida em pedra. Peguei-me pensando se havia enlouquecido. Voltei ao local várias vezes, porém nunca mais vi aquela mulher. Hoje sei que o muiraquitã, presente da guerreira amazona, é a proteção divina esculpida com todo o seu amor místico. E quando coloco o amuleto sobre o peito, ainda consigo ouvir o canto do uirapuru e compreender que o amor de uma amazona não se prende ao tempo: ele se torna eterno.
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