Eu
Se desligar dos barulhos tem sido bom, me deixar levar pelo silêncio opaco, pelo brilho do sol ao entardecer, tem aquecido meu coração. Pensamentos intrusivos insistem em me atormentar, mas com respirações curtas me acalmo. Esse silêncio me lembra a infância onde era entediante ver as horas passarem. Onde eu não sentia falta, dos prazeres da carne como tenho hoje, dos dias em que não eram regados a cigarro e café. Das noites que meu único temor era o escuro, e não as crises de abstinência, as lembranças horríveis das noites de loucura, regadas a pó e a reveria. Sem comer, sem dormir, sem sentir. Esse tempo se foi, e não faz falta nenhuma, contudo é como um fantasma e que ainda me encara, pela fresta da porta. Será que ainda lhe devo algo, senhor demônio da noite, será que tudo que você já levou não fora o suficiente. Se foi minha vida, pelo ralo sombrio e frio da encruzilhada. Se é isso que quer, eu me rendo, abraço a minha amargura e a minha tristeza, abraço a solidão por ter afastado todos que eu amava e abraço a culpa da minha responsabilidade sobre isso. Eu as vezes posso sentir como era, é tão forte que posso até vê-la, a minha versão de sonhos, a minha versão de esperança, a minha versão que pedia tanto para ser feliz. Eu estou aqui, contudo eu sobrevivi, não foi como a Amy Winehouse que eu morri, eu ainda tenho tempo, eu ainda tenho tempo, eu ainda tenho tempo...
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