Oficina, não ferro-velho
Estou com a sensação de que chegarei atrasada em meu estágio hoje. É um dia daqueles. Sabe… Dias em que o tempo não passa, pessoas se exaltam e acidentes… Eles se tornam muito, mas muito mais propícios a acontecer. Lá vou eu em um ônibus que, por fora, é novo, mas por dentro, barulhento. Parece que, a qualquer momento, vai desmontar. Peça por peça. Às vezes me sinto como ele. Aparento ser aquilo que sou: uma garota autêntica, cheia de confiança, sem medos, sem rancor ou ressentimentos. Porém, quando vista por dentro… Espera. Espera o quê, menina? A queda. A hora em que se desmontará. A hora em que não restará mais nada no lugar. Onde haverá apenas a estrutura. Sem rodas para andar. Sem algo para protegê-la do vento. Apenas alguns ferros que sobraram do que antes era um ônibus. Um ônibus que andava. Que levava. Que carregava consigo jovens sonhadores. Mas que hoje está ali, jogado, esperando o momento de ser levado para um ferro-velho. Porém… Não pode ele ser consertado? Reestruturado? Afinal, ele carregava memórias, sonhos e esperanças. Pobre e podre ilusão de um mundo sem descasos ou simplesmente desinteresses. Por favor… Mandem-me para uma oficina. Não para o ferro-velho. Onde serei apenas mais um entulho em meio a outros que deixaram de sonhar. Se vier a me consertar, prometo. Mas prometo mesmo: nunca mais quebrar. Então, por favor… Mecânico, rogo que venha me ajudar. Que minhas falhas venha consertar. Por favor. -Vaiolett
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