A rua,
silenciosa,
é chuva,
poema e prosa,
é dor,
lágrima de uma rosa;
pétalas de uma flor
que caem fora de hora,
oferecida a um túmulo;
despedida, silenciosa
e
vazia n'um barulho,
n'um jazigo, n'uma noite chuvosa.
A Lua,
silenciosa,
é culpa,
poema e prosa,
é o seu pôr,
noite escura e luminosa;
pétalas de uma flor
que, à noite, desabrocha,
oferecida à um túmulo;
também viva, é quem chora,
quem sorri, quem é noturno;
também viva, está morta.
O luar entre nuvens
colide com o vento morno
e me chama à rua,
me chama a ser solto,
mas não
me é possível;
meu silêncio é choro,
é vazio invisível
que está em todos,
que está inaudível
em
quem é recluso, ansioso.
O luar entre nuvens
colide com o vazio que ouço
e seu aroma de ferrugem
me chama a ser solto,
mas não,
sou invisível;
meu tempo é pouco,
é vazio muito sensível
que está em todos,
que está perceptível
em
quem é noturno, morto.
Only
alone;
digito isso
em meu telefone
não sei
o porquê;
a quem leu até aqui,
e ainda lê:
este sou eu, a partir,
e apesar de não querer,
lido com o não conseguir,
só o que me resta.
Only
alone;
digito isso,
é o que me consome,
não sei
o porquê;
a quem leu até aqui
isto que estou a escrever:
este sou eu, desejo-de-fim,
e apesar de ainda estar a ler,
ainda não posso ir,
esta é minha guerra.
A Lua,
nesta fase, é foice;
minguante, é luz na rua,
escuridão na noite,
tema disto que falo,
que sinto, que se ouve;
pela janela do meu quarto
o vento é morno, hoje.
A Lua,
é na cidade, luz-da-noite;
minguante, é gatilho de culpa,
escuridão torpe,
tema disto que falo,
que sinto, que sempre houve;
pela janela do meu quarto
o tempo é morto; hoje.
E é noite,
onde estou
há mar,
a Lua a se pôr
é vento morno e frio,
a ventar;
e é noite,
por onde vou
a andar,
a Lua, quando se for,
será tempo solto e perdido,
coruja a cantar.
Meu lar.
- 21/11/2020 -
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Morrerei sem sentir dor,
E quem sente minha falta?
O papel?
O túmulo chama pelo meu nome,
Não consigo ir.
Não tenho coragem para tentar,
Não há nada a me impedir,
Apenas há
Vozes me encorajando a tentar,
Mas eu não consigo
Criar coragem
E ir.
Ninguém sentirá saudade,
Ninguém fará um velório,
Ninguém reconhece minha arte,
Ninguém, ninguém... simplório.
A solidão é a única companhia
E o único vazio,
Eu me tornei ela,
Eu me sorrio
Sem saber o motivo.
Eu sonho estar morrendo
E a sensação é boa,
É uma droga acordar
No dia seguinte
E ver tudo se repetir,
A mesma gilete,
O mesmo pulso,
O mesmo sangue,
O mesmo a cair.
Sou imortal?
Talvez o seja.
Não suporto mais,
Sou apenas tristeza,
Nenhum sentido faz
Nem é suposto fazer.
Não é suposto
Alguém como eu viver,
Não acertei nada na vida,
A morte será o único acerto,
O único jeito.
Não é suposto
Viver porventura,
Morrerei sem que pranteiem por mim,
Enquanto minha insônia madruga,
Enquanto minha esperança é o fim.
Não há ninguém por mim,
Não há consolação,
Não há ninguém comigo,
Não há cura na solidão,
Caminho sem volta
E sem luz, só escuridão.
Meu viver não foi alegre,
Meu morrer será trágico,
Meu viver não foi nada,
Que diferença faz no mundo um solitário?
A pistola não resultou,
O remédio não resultou,
A água não resultou,
O gás não resultou,
A gilete não resultou,
O veneno não resultou,
O salto não resultou,
O autocarro não resultou,
O LSD não resultou,
Nada resultou,
Sou imortal.
É meu inferno!
Nasci para morrer
Por mim mesmo,
Nasci para querer
Andar a esmo
Pela rodovia
E pela ferrovia
Sem semáforo
E sem olhar para os lados,
Mas nasci com o azar
De isso não resultar também.
Tantas pessoas morrem,
Mas eu não consigo,
Injusto!
Não sentirão saudades,
Nem na Ilha da Madeira
Nem em Lisboa.
Viver é minha tristeza,
Interminável
Não por escolha
Mas por azar;
A morte não teve a audácia,
Recorrerei a euthanasia,
Infalível.
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