Jean Bertrand @sholinbertrand
Lágrimas

O Deserto dos Olhos Secos

Há dias que o peito carrega um oceano, Uma vontade imensa de desabar em pranto, Mas a alma, em seu silêncio soberano, Nega o alívio e mantém o seu manto. Sinto o eco amargo de ser uma fraude, Um fracasso pintado em cores de futuro incerto, Onde o medo do amanhã é o que mais agride, E o desemprego parece um deserto aberto. Busquei nas notas de uma música triste A chave para abrir o cadeado do olhar, Mas a lágrima é teimosa, ela resiste, Como se tivesse esquecido como transbordar. A lembrança me leva àquela dor aguda, Ao abandono frio, ao hospital, à injeção; Será que a minha sensibilidade ficou muda, E só desperta na dor física e na solidão? Ou será que, no fundo, sob essa armadura, Mora uma força que se recusa a ceder? Pois quem se esforça e encara a noite escura Sabe que o melhor de si ainda está por vir a ser. O medo é o preço de quem ousa o caminho, De quem se arrisca a sair do ordinário e do chão; Pois só quem caminha, mesmo que sozinho, Pode encontrar o extraordinário na imensidão.

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