Jean Bertrand @sholinbertrand
História

Ébano no Lavrado

No chão de Roraima, onde o sol é rei, E o lavrado se estende sob a mesma lei, Minha pele é um mapa que eu não sei ler, Uma história noturna, sem amanhecer. Sou um rosto no espelho, um eco distante, De que África venho? Em que instante Perdi o meu nome, o meu povo, o meu chão? Resta apenas o sangue, a interrogação. Aqui, entre poucos, meu tom se revela, Uma ilha de ébano, uma sentinela. Os olhares me medem, me vêem, mas não sentem O vazio de um povo em mim pressentem. Não tenho o batuque que me guie na dança, Nem o nome de um Orixá na lembrança. Sou raiz arrancada, plantada ao acaso, Um verso perdido num livro tão raso. Mas neste calor que me abraça e me forma, Uma nova ancestralidade toma norma. Meus pés ficam força na terra vermelha, Minha história sou eu, sem nenhuma centelha De um passado que o mar engoliu e levou. Sou o negro de agora o que aqui ficou. Em Roraima, eu sou meu próprio quilombo, um futuro que nasceu de cada escombro, Um rio que começa a correr para o mar, Sem saber a nascente, mas sabendo chegar.

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