Luz quente
Sombra fria
Tem sangue seu na pia
Luz quente
Sombra fria
Tem sangue meu na cozinha
Tem sangue seu, também
No chão
Da nossa cozinha
Sangue meu
No chão
Pintado, secando
Está na cozinha
Os meninos chegando
O sangue na cozinha
Secando...
Você dormindo
Eu, pensando
E o sangue secando
Secando
Pingando
Secando
Pingando
Cortinas limpas
Fachada varrida
Sangue
Nas dobras e dobradiças
Esperando
Transbordando
Apenas você
Poderia saber
Sobre o sangue
Secando
Só você
Me viu morrer
E renascer
E limpar, e sangrar
E secar, secar, secar o chão
De sangue
Na pia, na cozinha
Nos rejuntes
Nas paredes
Da sua casa
Minha casa
Sua casa
Uma casa
Algum dia
Será uma casa
Uma casa, uma casca
Sem sangue
Secando, secando
Secando...
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Eu não sou perfeito, amor,
eu nem estou tentando ser.
Eu sou quieto, sim,
sou certo de mim.
Embora também esteja certo
de que quero você aqui.
E sem você,
não sei se quero a mim.
Mas que seja sem pressa.
O tempo é seu.
Isso é muito maior que eu.
Afinal,
você é espuma do mar.
Sua beleza, pra mim, é livre, menina
é milenar.
Eu não vou mentir:
às vezes perco a linha,
às vezes fantasio que você é minha.
Mas eu juro,
não sou assim.
É que, te vendo...
bem... é mais forte que eu.
Mas seja como você quiser.
Que eu seja Morfeu,
e você, minha Íris.
Que isso vá além de nós.
E quando a noite chegar,
e a morte atacar,
eu descanso ao seu lado —
ou, se você quiser,
também pode ser abaixo.
Se for da sua vontade.
Só se for da sua vontade,
meu bem.
Eu só quero o que você quer também.
Esse conto é seu.
Me dê dois minutos, nesse seu infinito,
nesse seu absurdo.
Dois minutos,
juntos dos inúmeros outros,
no nosso Palácio de Memórias.
Nosso,
que é mais teu,
porque tudo é teu.
Tudo são seus aspectos,
seus momentos,
meus pensamentos.
E todos os meus modos
são, sem faltar,
apenas outros modos
de te amar.
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Você é tão linda
Tão linda, tão linda
Tão linda
É como a luz do sol
A luz do sol para as plantas após dias de chuva
Você é o vento que sopra
É semente que germina
É o fruto que alimenta
É um pobre coitado que perece de fome em grama macia
Você é o primeiro vôo
De um pássaro outrora confinado
Menina, você é o abstrato
O abstrato conceito
De tudo que não consegui dizer
Tudo que já guardei no peito
Eu te vejo todos os dias
Te respiro em todos os lugares
Você é tudo que brilha
Tudo que queima
É euforia
Agonia
Você é tudo que já foi perdido e depois achado
Tudo que foi limpo
Tudo que é sagrado
De bom grado, eu derramo
Eu te entrego, eu te amo
Como se você fosse Deus
Como se você fosse Deus
Como se nós fossemos maiores
Como se fossemos melhores
Como se o mundo fosse seguro
Como se o mundo não fosse obscuro
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Eu moveria oceanos.
Menina, eu afogaria o mundo.
Todos os poemas e mitos, à sua imagem.
Todos os deuses e deusas, à sua vontade.
Eu te amaria completamente,
poeticamente, amor.
E se você desejar que eu te toque,
que seja como devoto.
Pois eu te amo como romântico,
e eu só sei ser romântico… religiosamente.
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Se você me permitisse...
Ah, amor,
Se você me permitisse.
Eu seria Ícaro;
você, Apolo, Hélio.
Você, Estige;
eu, Hades
Zagreu, Cérbero.
Você, Hiacinto.
você, Patroclo.
Minha Helen,
minha Penélope.
Eu seria seu Aquiles,
seu Paris,
seu Odisseu.
Eu seria o tolo,
o amante, o devoto.
O pintor.
Você, a musa,
você, a deusa.
Você seria o nascer, o crescer;
você seria viver.
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Ansioso por natureza
Sou turbulência
Mas tento me manter clareza
Se eu cair, caio nesse chão
De onde eu vim
Se fez toda a criação
Eu estou cansado de mentiras
Essa noite será diferente
Vou deitar nessa cama de agulhas
Fechar meus olhos
Vou sonhar com você
Pra amanhã
Eu correr pra te ver
E te falar com carinho
O quanto estou precisando
Daquele sorriso
Daquele beijo
Daquele olhar de aviso
Perigo
Perigo
Eu estou correndo um sério risco
De me apaixonar
De me perder
De amar
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Eu derramo
Sem motivo algum
Lágrimas de quem não tem lugar nenhum
Lentamente
O desespero da minha alma
Acha calma
Nessa ilusão de alívio
Nessa estranha sensação de abrigo
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Se eu fecho os olhos
A gaiola
Se eu tento dormir
A janela
Se eu me debato no sono
As grades
Nos meus sonhos
As grades
Eu sempre vou me lembrar
Das grades
Eu sempre vou temer
A gaiola
A janela
As grades
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