Rafa @poetadegaveta08
Poesia

Plano de fuga

De repente o mapa dos dias Tinha portas demais. Começa simples, mas de repente devo partir as pressas, de onde já fiz abrigo. Parecia tudo igual O ambiente, as pessoas O mesmo desenho de luz caindo no chão Mas havia um deslocamento nas coisas Como se alguém tivesse movido o mundo alguns centímetros fora do eixo E só eu tivesse percebido. Nessa nova atmosfera, ficar exige mais coragem do que partir. Quando o espaço começa a esvaziar Meu corpo já procurava mapas invisíveis Calculando trajetos silenciosos Medindo o tempo antes que seja vista Como quem aprende a atravessar ruas perigosas. Peguei a mochila como quem pega um casaco antes que o frio admita seu nome. Caminhei até a porta com a calma treinada dos fugitivos que não querem ser vistos correndo. Fora, a cidade abriu seus pequenos esconderijos. A esquina que dobra o campo de visão, o reflexo do vidro que impede o encontro direto, os pequenos buracos do cotidiano onde alguém pode caber inteira sem precisar explicar a própria ausência. Houve um instante em que a realidade quase me alcançou um gesto comum dessas gentilezas que antes eram abrigo e agora são buracos abertos no chão da memória. Sorri rápido uma dessas despedidas que são quase senha e atravessei a rua como quem encontra um alçapão invisível. Desde então ando estudando arquitetura catalogo passagens laterais, aprendo a dobrar esquinas por dentro, descubro como caber em frestas de rotina onde ninguém chama meu nome. alguns abrigos quando deixam de existir continuam de pé apenas como miragem. Há um tipo de saudade que não pede retorno pede apenas distância suficiente para que o coração não precise se defender o tempo todo. E assim sigo colecionando saídas aprendendo novas formas de não estar porque às vezes amadurecer é aceitar que certos lugares continuam bonitos mas já não são seguros para permanecer. R&J. 06/02/2025.

Comentários · 1

  1. Eric

    vamos fugir então