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Pó de giz

@po_de_giz · desde 2020

-- Giovana Lucas -- ______________ "Real? O real é a rocha que o poeta lapida" https://campsite.bio/giovanalucas

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Auto-estima

O que não deixa de ser uma história de amor

Não faz muito tempo que você fechou aquela porta.  Mas já há uma eternidade eu estou sozinha.  É difícil lembrar do que eu era antes de sermos nós.  Mais difícil é entender o que eu devo ser, agora que já não somos.  Você ainda sabe para onde ir? Eu mudei minha rota por você.  Talvez nem fosse sua intenção, mas você me tirou dos trilhos. E admito, isso foi bom. Pelo menos, por um tempo. No entanto, agora tua ausência não me deixa muita alternativa. Eu preciso me reencontrar. Preciso me revisitar.  Reaprender a ser eu, sem o nosso nós.  Eu vou sentir sua falta, já prevejo isso.  Mas hoje sinto mais falta de mim.  E nada dói mais do que a saudade de saber quem sou.  Não é o dia mais apropriado para uma despedida, eu sei.  É 12 de junho, e o fato é que você não está aqui. Mas eu estou, e à procura de mim.  Essa não deixa de ser uma história de amor.  (06/2022 - Por: Giovana Lucas)

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Auto-estima

O cinza da praia

Tudo cinza. Tarde cinza de um dia cinza, com um céu sem cor sobre o mar acinzentado.  Algumas gaivotas, igualmente acinzentadas, encolhiam-se sobre a areia desbotada, como se quisessem buscar agasalho do vento que, se tivesse cor, seria cinza também.  E então, eu descalcei as botas. Permiti que meus pés – arroxeados, e não cinza – afundassem no gelado da areia fofa. E permiti a todos os meus sentidos que contemplassem o frio da paisagem. O vento insistia contra o meu rosto como se quisesse me manter acordada. O cinza insistia contra meus olhos como se quisesse me mostrar o infinito. O som regular das ondas quebrando me fazia abstrair algum tipo de estabilidade, algum sentido de permanência que eu não sentia em mim.  Esse conceito – essa certeza – aos poucos tentava me invadir. Havia uma verdade inconsolável no céu cinzento. Havia uma constante absurda no frio da areia. Havia um desespero colorido em mim.  Não havia nada de cinzento em mim, embora eu costumasse vestir um bom tanto de frio. É que não era um frio como do vento cortante, nem frio como do mar de inverno, mas um frio como o de uma lata de tinta fresca, que é, afinal, feita de cor.  Eu contrastava na paisagem cinza. Eu oscilava na eternidade da praia. Eu tremia e talvez nem fosse mais de frio. Eu tremia era de cor. Mas havia algo entre o cinza e a confusão. Era o meu pé na areia, o roxo que se fantasiava, coberto de cinza. Entre meu pé e a areia, algo da praia era meu, algo em mim era a praia. (05/2022 - Por: Giovana Lucas)

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Auto-estima

Paisagem de espelho

Eu hoje quis quebrar todos os espelhos dessa casa.  Apenas deixei de espelhos e olhei para fora.  Me debrucei na janela, e não é tão diferente. Não posso ter o mundo, mas o mundo tem tanto de mim… Eu me vi na paisagem.  E foi o suficiente para encarar de volta o espelho.  Com um pouco mais de ternura dessa vez.  Contemplação, até.  Pelo mundo. Pela paisagem. Por mim. Porque, no fundo, somos uma coisa só. Coisa que não merece ser quebrada.  (04/2022 - Por: Giovana Lucas)

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Auto-estima

Sobre seguir a caminho

Sigo cantando sem saber cantar.  Ainda danço sem coreografia.  Na falta de abraços, procuro distribuir sorrisos.  Nem que seja um sorriso de olhar. Sorrio com o olhar. E choro também.  Ainda evito segurar o choro.  Vejo muita verdade em sentir e assumir. Sigo lutando pra ser de verdade.  Continuo caindo em minha própria mentira.  Ainda constantemente errando.  Ainda constantemente tentando aprender.  E o que é que eu sei? Ainda tento me encontrar.  Esse é um caminho longo.  Esse é um caminho incerto.  Sigo a caminho.  (03/22 - Por: Giovana Lucas)

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Amor

Pense na toalha sobre a cama

Ainda penso em você.  E ainda penso na gente. Na toalha em cima da cama que invariavelmente terminava em uma briga boba. E nas muitas brigas bobas que invariavelmente terminavam com a gente dando risada junto. A última briga não foi nada boba. A gente não deu risada. Você levou a toalha embora. E minha cama parece imensamente vazia sem a toalha e sem você aqui. (02/22 - Por: Giovana Lucas)

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Vida

Para-raios

Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar.  Mas isso nunca foi um problema.  Porque, se o céu não para quieto, Eu também ando em tempestade. (01/22 - Por: Giovana Lucas)

Amor

Sobre imaginar meu amor comigo

Imagino você aqui.  Imagino seu cheiro em mim. Imagino seus braços na minha cintura.  Imagino minha boca na tua.  Imagino a cama maior.  Ou menor, já que você ocupa metade.  Imagino minha metade ao meu lado.  Ou sob, sobre, dentro.  Imagino você e eu.  Imagino nosso nós. (01/22 - Por: Giovana Lucas)

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Vida

Saudade de quem não fui

(Compartilhar com vocês a crise existencial dessa madrugada) Eu hoje senti saudade.  Não de alguém ou de algum lugar.  Senti falta de mim, e não de quem eu fui ou sou.  Eu hoje senti saudade de quem eu poderia ter sido.  De quem eu seria se tivesse escolhido não o que escolhi para ser quem sou hoje.  Não é arrependimento, porque eu me orgulho do agora.  É quase uma curiosidade, mas a melancolia me impede de chamar tão simples assim.  Mesmo nostalgia parece não abarcar tudo o que sinto.  Não que a saudade abarque, porém parece delinear com um pouco mais de precisão.  Não, precisão não.  Totalmente impreciso, brevemente delineado, mas com um tanto a mais de beleza. Sim, porque sentir saudade é ainda mais nostálgico do que sentir nostalgia. E hoje senti saudade de quem eu não cheguei a ser. É muito louco pensar no caminho de cada um. Nas escolhas. Nas bifurcações.  Destino existe? É muito louco pensar na incerteza de cada dia.  Não sei nada de agora e muito menos de amanhã.  Mal entendo meu ontem e ainda me vem a saudade de alguns ontens que não cheguei a viver.  Ou dos vários hojes que poderiam ser.  Melhor ou pior não existem, eu acho.  Porque por enquanto eu só conheço o agora.  Este agora.  O hoje que eu construí ontem.  Que não é nem melhor nem pior do que o hoje que eu não cheguei a construir, simplesmente porque esse outro hoje não vai existir.  Eu só existo assim, seja destino, escolha ou coincidência. Eu só existo agora.  E só sou assim agora por quem fui em um outro agora, que hoje eu já posso chamar de antes.  (12/21 - Por: Giovana Lucas)

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Auto-estima

Sobre o caos por trás das fachadas

Todo caos vem de dentro. Afinal, de que servem as fachadas, senão para esconder o caos dos alicerces? Pois é, alicerces quase nunca são bonitos.  São caóticos.  Há um caos em mim.  E em você.  É caótico pensar, mas há um caos em cada um.  Sempre caos e sempre dentro.  E quase nunca bonito.  Não sei bem se você me entende.  Não sei bem se isso faz sentido. Talvez só o caos faça sentido.  Não que eu entenda.  Às vezes, meu caos se esgueira para além da fachada.  Escorre pelo vão das portas ou evapora pelas frestas das janelas.  Não sei bem, não entendo o caos.  Talvez meu caos queira encontrar o seu.  Ou ver o caos de qualquer um.  De qualquer outro, pois eu sou meu um.  Talvez meu caos tente misturar na canaleta do meio-fio o caos que escorre sob cada porta de cada fachada.  Ou talvez o caos nem queira nada.  Decerto o caos só quer poder não fazer sentido. E ele pode. Mas a fachada em geral até que cobre bem o caos.  É o que fazem as fachadas. Você só acha um prédio bonito porque não vê o encanamento apodrecendo, é fato.  Minha fachada até parece bonita.  E é quase sem querer.  Uma fachada tenta ser boa fachada, é claro.  Mas eu nem planejei isso. Já nem sei se tenho escolha.  Nem da fachada e nem do caos.  Estou alicerçada aqui.  Olhando de fora, daria até para dizer que a fachada é resistente.  Mas não assopre muito, por favor.  Para além da minha fachada, há um caos que apenas espera por um vento forte.  (11/21 - Por: Giovana Lucas)

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Auto-estima

A quem segura o peso do mundo

Às vezes eu sinto o peso do mundo, e há um mundo entalado na minha garganta.  Meu peito contorce, cabeça palpita. Eu caio e recaio. Levanto e ressinto. Não penso, mas temo, meu medo e meu tempo.  Há um mundo entalado na minha garganta.  É o tempo invertido na minha cabeça.  Há um caos complicado ainda dentro de mim.  Talvez um tantinho, ou muito, nem sei. Mas o mundo é pesado, e eu já cansei. (11/21 - Por: Giovana Lucas)

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