Dia 06 de outubro
Hoje andei sob a chuva
Pela primeira vez em algum tempo
Não foi destrutiva, não encharquei as roupas
Mas levei o sapato ao conserto
Levei a mente ao sossego
E antes de Sapo é Sapo
Vou ler Pedro Páramo primeiro
Hoje a chuva foi tranquila
Hoje sorri até para o eletricista
Apesar de adorar jantar a luz de velas
Prefiro minha casa iluminada
E as ruas bonitas
Hoje, aposto
Passei pelas ruas despercebida
Voei longe com meu salto quebrado
A chuva deixou até a avenida bem vestida
E quando cheguei em casa, ganhei dois abraços
Isso que é vida.
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Te vejo em pequenos detalhes do dia a dia
Num pote de chocolate em pó
No sentimento de liberdade
Que ao seu lado morria
Te escuto em algumas músicas
Que cotidianamente ouvia
Sejam as que falam sobre deixar ir
Sejam aquelas que pedem a Deus para alguém voltar
Eu sinto falta do que ao seu lado
Tão pouco ou quase nada vivi
Sinto - me premeditada
E quando penso com clareza
Confirmo
Fui mesmo, muito usada
Mas ainda me lembro de você
Mesmo que aos poucos
Cada vez mais distante
Mas o suficiente para me tirar do conforto
É tão fácil tentar fazer tudo dar certo
Quando o outro já está quebrado o suficiente
Dizer que vai mudar quando não há esperança
Quando se criou alguém do seu lado
Com um amor unilateral e inexperiente
Mas ainda sim te vejo em algumas coisas
Como quando reflito sobre
Um simples sonho destruído
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Agora, parece que por exagero
Vindo de mim, sempre tão exagerada
Que as coisas foram-se
Levadas, amenizando
Tirando sua culpa, deixando-me culpada
Agora, por mais que lute contra o sentimento
Mesmo que leve, um dia foi o motivo
Pelo qual meu coração quase parava
De tanta angústia e acho que isso também conta
Fico presa na pergunta
Agora, eu tenho tão pouco quanto tinha antes
E muito do que jamais sonhei em ter
Agora, palavras bonitas e arrependimentos tardios
Não desfazem maldições, não voltam no tempo
Não param no ar o sereno
Que no meu rosto, foi o único a acariciar
Agora, quando me lembro
Esqueço-me de ser humilde
Falar sobre finais é tão cansativo
Quanto vive-los de fato
Suplico então, para que o tempo passe rápido
E arraste com ele até o rancor
A raiva, o cansaço
E tudo que me lembre
Que aquilo foi confundido miseravelmente com amor
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Se essa for, enfim a sensação
De andar com os pés descalços
Mesmo correndo
De salto
Atrasada para o trabalho
Então estou bem assim
Se essa for a sensação
De olhar nos olhos de alguém
E rir sem medo
Mesmo envergonhada
Talvez corada
Por um rostinho bonito
Então estou bem assim
Se essa for a sensação
De me olhar no espelho
E ver uma mulher linda
Mesmo desarrumada
Bagunçada, mesmo feinha
Estou bem assim
Se essa for a sensação
De desfazer o que jamais deveria
Ter acontecido
Então, vou desfazer quantas vezes for preciso
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Se a pele oliva
Se avermelha no sol,
Acovarda-se do calor
E entrega ao colo o vigor
De ser jovem
E tão linda quanto uma flor.
Se os olhos não suportam a luz
Da escaldante paisagem,
Da sede que seca a imagem,
E a desesperança, como pólen no ar,
Aos espirros te conduz.
Se as pernas bambeiam
Fazendo de cada passo
Um triste pisar,
Enquanto a morte caminha
E estende o chegar.
Se a garganta arder
E nem sequer miragem avistar,
Chorar é vantagem:
Existe ali a gota d'água
Fácil de alcançar.
Se ficar assim,
Como eu, minha linda,
Estirada ao chão,
Fios secos no crânio,
Ossos em abandono
E a míase a te devorar...
Não me olhe assim..
Ande logo..
Arranque
E enterre,
Antes que desintegre
Seu precioso coração.
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Posso então um dia voltar
em dois, três meses,
um ano se eu muito rezar?
Posso ter mais vislumbres,
posso sentir nos meus lábios
a sensação do primeiro beijo,
o coração volúvel?
O coração ainda bate de propósito
ou o coração tropeça em meus soluços?
Seria ainda somente meu, este coração?
Se não, onde o escondi em meu mundo?
Se o achasse, acho que engoliria de volta.
Poderia assim então ser digerido,
dissolvido em suco gástrico,
fétido e feio, iria com a descarga, sem volta.
Talvez pudesse seguir à risca a cicatriz,
colocá-lo de volta no peito.
Não me anima ver o sangue escorrer
ou esguichar, chafariz...
Um chafariz vermelho,
é... não me anima.
Viver piscando lento,
a pele pálida,
é o melhor jeito.
Não me bronzeia a pele
o brilho do sol.
Assim nenhum homem
me olharia de novo com aquele olhar.
Assim nem mesmo o que amo
conseguiria de fato amar ou odiar.
Viveria então em paz?
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As vezes é bom dar a mão a minha insegurança
Ajuda-la a se levantar
As vezes me esqueço que para genuinamente
Perdoar
É necessário esquecer
Por vezes me recordo
Antes fossem lágrimas
O que escorre com a lembrança
Todos os traços do meu rosto
Deslizam sobre si
E pingam
Pele parda no chão
Alguns fios de cabelo
Algumas gotas de sangue
Um par de olhos
Já não choro, me recuso de antemão
Borbulham como base desperdiçada
Não maquia mais nada
Depois que alcança a sujeira do chão
Se corro para o banheiro
Oh Deus, que terrível imagem no espelho
Se deixar escorrer pelo ralo
Não adianta
Antes fossem lágrimas
Até fico bonitinha de rosto inchado
Depois de um longo chorar
Depois de um pesado recordar
Assim talvez seja melhor
Ajudá-la a se levantar
Coloco me, assim, no meu devido lugar
Apenas e sempre criança medíocre
E não se fixam mais olhares e um belo corpo esculpido
Não se aproxima a intimidar
Não.. nos meus pensamentos agora
Sou apenas eu
E infelizmente não posso me esquecer disso
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Um dia
Senti as finas gotas de chuva que caíam
Forrando junto a neblina
As imensas araucárias que moravam ali
Elas tocavam minha pele, agressivas
Geladas demais
De longe eram bonitas
De perto, um tanto selvagens
Mas caiam livres da imensidão azul
Minha mente pensava no instante
No exato momento onde tudo acontecia
Não lembrava se vira o sol antes
Não me importei se o viria depois
Nem mesmo se aquela chuva cessaria
É ainda melhor participar
Do que observar de algum galho qualquer
Esperando que passe
Torcendo as penas que molhassem
Fechando os miúdos olhinhos
Caso alguma gota respingasse
Cortei o vento
Sem procurar aonde pousar
Não queria precisar parar..
Um dia
Eu voei
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Você não vê amor
O quanto meu peito dói
Se contorce inteiro
O quanto a cada dia que passa
Conforme os dias contados
Mais e mais me odeio
Como mãe
Deveria eu ter o coração cheio
De fato, a beleza da maternidade
Está em tudo que se envolve
Mas nem tudo relevo, nem tudo aceito
Como posso ficar tanto tempo sem dormir
Como posso limpar a casa em um loop infinito
Não aprendi a fazer nada sem sentir
Não soube desde cedo, que não poderia viver escondido
O meu segredo
Sou uma pessoa ruim
Se acalentar meus filhos após meus próprios exageros
Não há cansaço
Não há exaustão
Não existe nenhuma forma de automutilação
Que transfira a dor do peito
Para a ferida aberta sangrenta
Petrificada
Abafa meus batimentos
Me sufoca a todo momento
a cada nova culpa
Após cada choro
Em toda minha vida nua e crua
Não ha esperança para mim
Mas há lembranças de mim
Do meu cheiro
Da minha voz
Da cor do meu cabelo
Dos meus batimentos cardíacos
Vou continuar sempre respirando
Conhecendo o caminho, ou perdido
Escrevo, dessa vez, para tentar me esquecer
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Há quilômetros
de proximidade
eu vejo tão longe seus olhos
eu sinto tão de perto a fuligem, vaidade
Eu quero sempre mais
sentir tão pouco
sempre assim, a escrita, enfim
é o meu maior sufoco
Meu coração vê-se no espelho
é tão ordinário quanto as cinzas no chão
já não me suporto
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