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Talia

@monicki · desde 2022

Escrevo para não me esquecer

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Dia 06 de outubro Hoje andei sob a chuva Pela primeira vez em algum tempo Não foi destrutiva, não encharquei as roupas Mas levei o sapato ao conserto Levei a mente ao sossego E antes de Sapo é Sapo Vou ler Pedro Páramo primeiro Hoje a chuva foi tranquila Hoje sorri até para o eletricista Apesar de adorar jantar a luz de velas Prefiro minha casa iluminada E as ruas bonitas Hoje, aposto Passei pelas ruas despercebida Voei longe com meu salto quebrado A chuva deixou até a avenida bem vestida E quando cheguei em casa, ganhei dois abraços Isso que é vida.

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Te vejo em pequenos detalhes do dia a dia Num pote de chocolate em pó No sentimento de liberdade Que ao seu lado morria Te escuto em algumas músicas Que cotidianamente ouvia Sejam as que falam sobre deixar ir Sejam aquelas que pedem a Deus para alguém voltar Eu sinto falta do que ao seu lado Tão pouco ou quase nada vivi Sinto - me premeditada E quando penso com clareza Confirmo Fui mesmo, muito usada Mas ainda me lembro de você Mesmo que aos poucos Cada vez mais distante Mas o suficiente para me tirar do conforto É tão fácil tentar fazer tudo dar certo Quando o outro já está quebrado o suficiente Dizer que vai mudar quando não há esperança Quando se criou alguém do seu lado Com um amor unilateral e inexperiente Mas ainda sim te vejo em algumas coisas Como quando reflito sobre Um simples sonho destruído

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Exagero

Agora, parece que por exagero Vindo de mim, sempre tão exagerada Que as coisas foram-se Levadas, amenizando Tirando sua culpa, deixando-me culpada Agora, por mais que lute contra o sentimento Mesmo que leve, um dia foi o motivo Pelo qual meu coração quase parava De tanta angústia e acho que isso também conta Fico presa na pergunta Agora, eu tenho tão pouco quanto tinha antes E muito do que jamais sonhei em ter Agora, palavras bonitas e arrependimentos tardios Não desfazem maldições, não voltam no tempo Não param no ar o sereno Que no meu rosto, foi o único a acariciar Agora, quando me lembro Esqueço-me de ser humilde Falar sobre finais é tão cansativo Quanto vive-los de fato Suplico então, para que o tempo passe rápido E arraste com ele até o rancor A raiva, o cansaço E tudo que me lembre Que aquilo foi confundido miseravelmente com amor

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Se essa for, enfim a sensação De andar com os pés descalços Mesmo correndo De salto Atrasada para o trabalho Então estou bem assim Se essa for a sensação De olhar nos olhos de alguém E rir sem medo Mesmo envergonhada Talvez corada Por um rostinho bonito Então estou bem assim Se essa for a sensação De me olhar no espelho E ver uma mulher linda Mesmo desarrumada Bagunçada, mesmo feinha Estou bem assim Se essa for a sensação De desfazer o que jamais deveria Ter acontecido Então, vou desfazer quantas vezes for preciso

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Seu precioso coração

Se a pele oliva Se avermelha no sol, Acovarda-se do calor E entrega ao colo o vigor De ser jovem E tão linda quanto uma flor. Se os olhos não suportam a luz Da escaldante paisagem, Da sede que seca a imagem, E a desesperança, como pólen no ar, Aos espirros te conduz. Se as pernas bambeiam Fazendo de cada passo Um triste pisar, Enquanto a morte caminha E estende o chegar. Se a garganta arder E nem sequer miragem avistar, Chorar é vantagem: Existe ali a gota d'água Fácil de alcançar. Se ficar assim, Como eu, minha linda, Estirada ao chão, Fios secos no crânio, Ossos em abandono E a míase a te devorar... Não me olhe assim.. Ande logo.. Arranque E enterre, Antes que desintegre Seu precioso coração.

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Viveria então?

Posso então um dia voltar em dois, três meses, um ano se eu muito rezar? ​Posso ter mais vislumbres, posso sentir nos meus lábios a sensação do primeiro beijo, o coração volúvel? ​O coração ainda bate de propósito ou o coração tropeça em meus soluços? Seria ainda somente meu, este coração? Se não, onde o escondi em meu mundo? ​Se o achasse, acho que engoliria de volta. Poderia assim então ser digerido, dissolvido em suco gástrico, fétido e feio, iria com a descarga, sem volta. ​Talvez pudesse seguir à risca a cicatriz, colocá-lo de volta no peito. Não me anima ver o sangue escorrer ou esguichar, chafariz... Um chafariz vermelho, é... não me anima. ​Viver piscando lento, a pele pálida, é o melhor jeito. Não me bronzeia a pele o brilho do sol. ​Assim nenhum homem me olharia de novo com aquele olhar. Assim nem mesmo o que amo conseguiria de fato amar ou odiar. Viveria então em paz?

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Sou apenas eu

As vezes é bom dar a mão a minha insegurança Ajuda-la a se levantar As vezes me esqueço que para genuinamente Perdoar É necessário esquecer Por vezes me recordo Antes fossem lágrimas O que escorre com a lembrança Todos os traços do meu rosto Deslizam sobre si E pingam Pele parda no chão Alguns fios de cabelo Algumas gotas de sangue Um par de olhos Já não choro, me recuso de antemão Borbulham como base desperdiçada Não maquia mais nada Depois que alcança a sujeira do chão Se corro para o banheiro Oh Deus, que terrível imagem no espelho Se deixar escorrer pelo ralo Não adianta Antes fossem lágrimas Até fico bonitinha de rosto inchado Depois de um longo chorar Depois de um pesado recordar Assim talvez seja melhor Ajudá-la a se levantar Coloco me, assim, no meu devido lugar Apenas e sempre criança medíocre E não se fixam mais olhares e um belo corpo esculpido Não se aproxima a intimidar Não.. nos meus pensamentos agora Sou apenas eu E infelizmente não posso me esquecer disso

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Um dia

Um dia Senti as finas gotas de chuva que caíam Forrando junto a neblina As imensas araucárias que moravam ali Elas tocavam minha pele, agressivas Geladas demais De longe eram bonitas De perto, um tanto selvagens Mas caiam livres da imensidão azul Minha mente pensava no instante No exato momento onde tudo acontecia Não lembrava se vira o sol antes Não me importei se o viria depois Nem mesmo se aquela chuva cessaria É ainda melhor participar Do que observar de algum galho qualquer Esperando que passe Torcendo as penas que molhassem Fechando os miúdos olhinhos Caso alguma gota respingasse Cortei o vento Sem procurar aonde pousar Não queria precisar parar.. Um dia Eu voei

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Você não vê amor O quanto meu peito dói Se contorce inteiro O quanto a cada dia que passa Conforme os dias contados Mais e mais me odeio Como mãe Deveria eu ter o coração cheio De fato, a beleza da maternidade Está em tudo que se envolve Mas nem tudo relevo, nem tudo aceito Como posso ficar tanto tempo sem dormir Como posso limpar a casa em um loop infinito Não aprendi a fazer nada sem sentir Não soube desde cedo, que não poderia viver escondido O meu segredo Sou uma pessoa ruim Se acalentar meus filhos após meus próprios exageros Não há cansaço Não há exaustão Não existe nenhuma forma de automutilação Que transfira a dor do peito Para a ferida aberta sangrenta Petrificada Abafa meus batimentos Me sufoca a todo momento a cada nova culpa Após cada choro Em toda minha vida nua e crua Não ha esperança para mim Mas há lembranças de mim Do meu cheiro Da minha voz Da cor do meu cabelo Dos meus batimentos cardíacos Vou continuar sempre respirando Conhecendo o caminho, ou perdido Escrevo, dessa vez, para tentar me esquecer

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Ordinário

Há quilômetros de proximidade eu vejo tão longe seus olhos eu sinto tão de perto a fuligem, vaidade ​Eu quero sempre mais sentir tão pouco sempre assim, a escrita, enfim é o meu maior sufoco ​Meu coração vê-se no espelho é tão ordinário quanto as cinzas no chão já não me suporto

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