Rotina (Parte 2)
Surpreendentemente não foi tão difícil cair no sono mas ao acordar aquilo ainda perturbava minha cabeça. Parecia que havia alguém me observando a todo momento, não é coisa da minha cabeça, isso é certo, certa vez vi um homem de sorriso cínico passando pela minha janela, usava um chapéu a moda antiga, era alto e era possível ver o ódio em seus olhos, tem passos tão silenciosos mas sua presença é notável. Desde então, essa visão passou a ser mais frequente, estava no reflexo do espelho, no canto do quarto, enfrente das janelas, estava no silêncio e inquietação da madrugada e nos meus pesadelos mais assustadores. Minhas olheiras estão cada vez mais profundas, cada barulho inesperado resultava em um pulo e um coração acelerado. O único momento que tenho paz é quando estou trabalhando e estou tão ocupada que esqueço. De um dia para outro tudo parecia estar mais tranquilo, talvez eu apenas estivesse cega pelo medo e fiquei imaginando coisas por um tempo. Com minha vida novamente nos eixos finalmente pude ter uma noite de sono decente, ao acordar no dia seguinte a minha rotina era a mesma, o lugar era o mesmo mas havia algo diferente, algo que não pude notar de primeira mas ao olhar no espelho percebi o que era, os meus olhos não eram os mesmos e agora eu estava cercada por sombras e no meio delas lá estava ele, a figura que me assombrava por semanas. Relutei em olhar nos seus olhos, em vão, já não possuo tanto poder sobre mim, fui obrigada a olhar em seus olhos enquanto sussurrava seus malditos planos em meus ouvidos. Segui minha rotina, e nada pude fazer, era o meu corpo, mas sequer possuo controle, no piloto automático faço tudo que normalmente eu faria, sem poder alterar nada, apenas observar, parecendo mais uma alma presa em seu corpo. Fiz meu café da manhã e fui trabalhar. Chegando lá, eram os mesmos diálogos de uma quinta normal, eu e mais duas pessoas ficamos encarregadas de cuidar da casa de uma senhora e fazer doces para sua lojinha.
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