Prefácio da alma
Antes de qualquer nome, havia silêncio. E no silêncio, uma centelha, essa força que chamamos de alma, que insiste em pulsar mesmo quando o corpo se cansa. A alma é o livro que ninguém lê por completo. Cada página é escrita entre quedas e renascimentos, entre ausências e reencontros. Ela não fala em voz alta, mas sussurra nos instantes em que o mundo se cala, quando um olhar nos atravessa, quando a solidão pesa, quando o tempo desacelera e nos força a olhar pra dentro. Há quem viva fugindo dela, ocupando-se de ruídos para não ouvir o que ecoa no fundo. Mas a alma tem paciência. Espera. E quando não é escutada, cria o caos necessário para ser notada. Porque o caos também é linguagem divina. A alma não quer certezas, quer sentido. Não busca poder, busca presença. Não deseja vencer, deseja entender. Ela sabe que o brilho da superfície engana, e que a verdadeira luz mora nas frestas, no meio das imperfeições, onde o orgulho se desfaz e o ser se revela. O prefácio da alma é sempre uma lembrança: você não é o que te aconteceu, é o que permanece em silêncio depois de tudo. E talvez viver seja isso, reler-se com ternura, reescrever-se com coragem e aceitar que algumas páginas só fazem sentido quando já se aprendeu a amar o próprio enredo
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