Desejo no olhar
O desejo dela não estava no corpo. Estava no olhar. Foi o olhar que me prendeu primeiro. Não era um olhar comum. Era um olhar que sabia. Que sabia o que queria e não tinha pressa de ter. Ela olhava de canto. De baixo pra cima. Com a cabeça levemente inclinada, e os olhos meio fechados, como quem mede, como quem já imagina. Tinha um brilho molhado ali. Não de lágrima. De vontade. De quem segura o riso pra não entregar o que está pensando. Mas o olho entrega tudo. Quando ela me olhou pela primeira vez de verdade, o mundo ficou em silêncio. Não foi um olhar rápido. Foi um olhar que ficou. Que percorreu. Que demorou na minha boca, depois nos meus olhos, depois de novo na minha boca, como se dissesse sem palavras: eu quero. O desejo de uma garota não grita. Ele sussurra. Ele está no jeito que ela morde o lábio inferior bem de leve quando você fala. No jeito que ela pisca mais devagar quando está perto. No jeito que a pupila dilata, que a sobrancelha levanta só um pouco, que o olhar cai e volta, com medo e com coragem ao mesmo tempo. Ela não precisou me tocar. O olhar dela me tocou. Me tocou como se a mão dela já soubesse o caminho do meu rosto, do meu pescoço, do meu peito. Tinha fogo e tinha água naquele olhar. Fogo que queima, água que afoga. Era um convite e um desafio. Era um "vem" e um "será que você consegue me ter?". E eu vi ali dentro, bem no fundo daquele castanho escuro, uma história que ainda não tinha sido escrita. Um quarto escuro. Uma luz baixa. O cabelo dela solto. O silêncio quebrado só pela respiração acelerada. Ela olhava como quem já tinha me despido na mente. Como quem já sabia o gosto do meu beijo antes mesmo de me beijar. E isso... isso é o que enlouquece. Porque o desejo mais bonito não é o do corpo que se oferece. É o do olhar que promete, que provoca, que espera, que diz tudo sem dizer nada, e te deixa sem dormir só por causa de um olhar. O dela ainda mora em mim.
Comentários · 0
Nenhum comentário ainda. Entre para ser o primeiro a comentar.