A escultura de argila
Todos os dias eu via aquela escultura de argila. Era magnífica. Mas, por algum motivo, parecia incompleta. Inacabada — por mais que ele sempre trabalhasse nela. Dia e noite — não importava o que. Tuas mãos ásperas trabalhavam com tanta delicadeza quando se tratava daquela escultura. Aquela exata imagem de tristeza, que sempre tentava expressar através da arte. Mais vívida do que nunca. E ainda assim faltava algo. Talvez menos tristeza? E mais empatia? Não. Ela era como deveria ser. Um reflexo da própria alma do artista. E que, de algum jeito, transmitia a mesma sensação em qualquer pessoa que a visse ou tocasse. Dor. Sofrimento. E arrependimento. Então por que o pobre moço não parava de tentar mudá-la cada vez mais? E esse era o real sentido da obra. Por mais que tentássemos chegar à perfeição, nunca conseguiríamos. E no meio desse caminho, nos sentiríamos inúteis. Tristes. Cansados. E não importaria quanto tempo passasse — ainda nos esforçaríamos em coisas sem sentido. Problemas que nem existem. Angústias que só nós mesmos veríamos. Mas mesmo sabendo de tudo isso — para aquele artista ainda havia um fio de esperança. Uma mínima chance de que tudo fosse perfeito. E assim como passou os primeiros anos da tua vida, dando tudo de si por aquela escultura. Passaria os últimos insistindo nos detalhes do que já está perfeito.
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