Compasso
"Tua cabeça recostada ao meu ombro é meu violino, num momento de pausa." — J. G. de Araújo Jorge, Música. Sorte daquele que ouve pela primeira vez.. Daquele que sente o corpo desprender-se do chão ao primeiro acorde, como se a melodia descobrisse, antes dele, o caminho exato do peito. Daquele que recebe cada nota como se nenhuma outra tivesse existido; que encosta o silêncio ao ouvido e o escuta respirar feito um violino soluçando sobre um ombro. — Você ouve? Sorte daquele que vive a música como quem ainda não conhece o fim da canção. Ela o acompanha em surdina, ao pé do ouvido, pelas ruas, pelos dias, até que a própria pele aprende o refrão. Há uma coragem estranha em dividir o mesmo fone durante anos e descobrir que o som não se desgasta. Há quem more em cada tom como quem escolhe permanecer. Correm notas altas, baixas, graves, leves — e todas resistem, como se uma força invisível as chamasse de volta. Existe a música que seca a boca como a terra sob um sol antigo. Existe aquela que faz as mãos suarem antes mesmo da primeira batida. Existe a que envelhece, arranha o disco, repete o mesmo verso, falha, hesita. Arranha, arranha, mas nunca se quebra. Porque algumas melodias não sobrevivem pela perfeição, e sim pela vontade de continuar sendo ouvidas. E quando o peito acompanha o compasso — tão alto que já não se sabe se é música ou coração, talvez a verdadeira sorte nunca tenha sido ouvir uma canção pela primeira vez. Talvez tenha sido encontrar alguém que a escutasse como se também fosse a sua primeira.
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