Atraso
Nesta manhã, atrasei-me para o trabalho, não costumo passar por estas ruas, se não necessário. Obriguei-me a tomar aquele atalho, de passos leves, solitários. Uma rua conhecida de outrora, de risadas altas — ecos no ar; hoje, um silêncio que devora, duro, denso, a me sufocar. À medida que avanço, cai como um peso, tudo vem à tona, sem qualquer apreço; estremeço — esmago lembranças num atalho sem fim, ruas que gritam nomes, memórias em mim. Retravo, apago, esqueço, ignoro — e prossigo sozinho. A vida é, de fato, tão frágil, recuso-me a torná-la fútil; algo tão belo e tão ágil não deve ser gasto no inútil. Na manhã seguinte, se eu me atrasar, tomarei o caminho mais longo, sem hesitar; não me importo com o horário — chegarei… eu sempre chego, necessário.
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