Fábio B. Reis @fabinhoreis
Vida

Interior

Encontro-me cansado De ser Minha única companhia Nessa pandemia A verdade é que não sou meu melhor amigo Pois não me basto em mim Minha finitude se faz sentir A cada momento Minha visão torna-se embaçada Sem outras lentes Minhas mãos não têm a quem tocar Na solidão de meu quarto Só o travesseiro a abraçar E o espelho a refletir Possíveis diálogos viram monólogos E o eco é a resposta às minhas preces O que poderia eu vir a oferecer A um mundo tão autossuficiente Com um modus operandi tão estabelecido Que eu não tenho nada a acrescentar? Que impressões causei a esse Cosmos? Que almas eu encaminhei ao bom senso? Que vidas foram iluminadas com meu olhar? Agora, porém, só posso oferecer a distância Não a distância sentida Mas a autoimposta Isolando-me, encontro meu vazio Cada fala, uma prece Nesse lar-templo Refúgio do corpo Fuga das missões E nisso a alma se abate Pois o corpo é templo ambulante O anima se estagna como as catedrais E anjos viram gárgulas No interior do eu Esse templo que, sem a luz externa Vira caverna Que, sem carícia, Cria estalagmites e estalactites Que, sem ceia, Vira sobrevivência Sem novas capturas Vídeo vira imagem Mas o mundo gira Eis o descompasso Com a inércia do corpo A alma joga-se violentamente A algum lugar do eu Onde torna-se difícil se guiar A lanterna está se desgastando Deus, aonde encosto a palma da minha mão? Aos poucos, vou tateando Com medo de nunca mais sentir O Eu Que, de tanto se tatear Se perdeu.

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