Amar é se permitir
A beleza da experiência
Ainda que ela se mostre ilusão
É abraçar forte uma verdade como se ela fosse absoluta
Ainda que ela se mostre relativa
É se doar completamente, ainda que seja para ser ferido
É uma entrega não solicitada, ainda que possa ser devolvida
É fazer de um momento, a própria razão de existir
Ainda que a existência trabalhe contra a razão do momento
É a ingenuidade tornada mártir
O êxtase do ser perante a banalidade
O clamor da alma contra a mera atração e a mera suficiência
É a soma que se faz, mesmo sem ter certeza do resultado
É o abraço grego da tragédia, desejando-se a comédia
É a fé religiosa tornada carnal
E a carnalidade tornada liturgia
É uma porção do Paraíso
Que se faz na Terra
E que, ainda que dure pouco,
Gera impressões eternas.
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Encontro-me cansado
De ser
Minha única companhia
Nessa pandemia
A verdade é que não sou meu melhor amigo
Pois não me basto em mim
Minha finitude se faz sentir
A cada momento
Minha visão torna-se embaçada
Sem outras lentes
Minhas mãos não têm a quem tocar
Na solidão de meu quarto
Só o travesseiro a abraçar
E o espelho a refletir
Possíveis diálogos viram monólogos
E o eco é a resposta às minhas preces
O que poderia eu vir a oferecer
A um mundo tão autossuficiente
Com um modus operandi tão estabelecido
Que eu não tenho nada a acrescentar?
Que impressões causei a esse Cosmos?
Que almas eu encaminhei ao bom senso?
Que vidas foram iluminadas com meu olhar?
Agora, porém, só posso oferecer a distância
Não a distância sentida
Mas a autoimposta
Isolando-me, encontro meu vazio
Cada fala, uma prece
Nesse lar-templo
Refúgio do corpo
Fuga das missões
E nisso a alma se abate
Pois o corpo é templo ambulante
O anima se estagna como as catedrais
E anjos viram gárgulas
No interior do eu
Esse templo que, sem a luz externa
Vira caverna
Que, sem carícia,
Cria estalagmites e estalactites
Que, sem ceia,
Vira sobrevivência
Sem novas capturas
Vídeo vira imagem
Mas o mundo gira
Eis o descompasso
Com a inércia do corpo
A alma joga-se violentamente
A algum lugar do eu
Onde torna-se difícil se guiar
A lanterna está se desgastando
Deus, aonde encosto a palma da minha mão?
Aos poucos, vou tateando
Com medo de nunca mais sentir
O Eu
Que, de tanto se tatear
Se perdeu.
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Vida que segue
Segue adiante
Não sei pra onde
Mas segue seguindo
Per-seguindo
Sub-seguindo
Se perdendo
Se encontrando
Deslizando pelas minhas mãos
Procurando novidades que nunca surgem
Descobrindo outras, que nem cheguei a pedir
Anseando conquistas que, tão logo chegam, são esquecidas
Formando vínculos que crescem e se dissipam
Construindo torres que desmoronam
Beijando lábios doces que me mordem
Gritando palavras desesperadas no deserto
Dançando melodias únicas que só eu ouço
Compondo pra ninguém ouvir
Respirando ares que me inspiram e me confundem
Fogem depressa
Chegam sem bater
Me embaralham, me movem, me encantam e me ignoram
Fazendo perguntas que ninguém responde
Respondendo coisas que ninguém pergunta
Compondo salmos e provérbios proibidos
Me dizendo verdades que não posso expressar
Na mentira do mundo
A vida é uma onda que ainda aprendo a surfar
Com uma prancha improvisada por mim mesmo
Feita de lágrimas que se solidificam à medida que eu cresço
Sou uma utopia ambulante
Numa distopia
Um romantismo em meio ao realismo
A fé em meio ao ceticismo
E a razão em meio ao fanatismo
Onde me encaixo? Não sei bem
Sou uma peça de quebra-cabeças perdida
Querendo pertencer a algo ou alguém
Sem eira nem beira
Encontrando sentido na incerteza
Aborrecendo verdades absolutas do além
Que relativizam as verdades concretas do agora
Estou numa arena de loucuras que me confortam
E de uma quietude que me leva ao delírio
Sou um peão, dentre vários outros
Que quer depor a Rainha chamada Status Quo
Que quer montar o Cavalo chamado Autonomia
Que quer driblar a Torre chamada Ignorância
Que quer saudar o Bispo chamado Reforma
E dar o cheque-mate no Rei chamado Medo
Num tabuleiro de casas cinzas
Mas sou apenas um peão
Que se vê na contramão
Numa subjetiva ascensão
É um jogo cujas regras eu conheço
Mas não sou bom em jogar
E sigo nessa valsa
Que me deixa tonto
E enquanto recobro os sentidos
Eu vivo
Sem saber
Se a vida é pra mim
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O que pra ti foi efêmero
Pra mim é perene
O que pra ti foi explosão de sentidos
Pra mim foi um estado de coisas
O que pra ti foi conto
Pra mim foi romance
O que pra ti foi página
Pra mim foi livro
O que pra ti foi lago
Pra mim foi oceano
O que pra ti foi vela
Pra mim foi o Sol
O que pra ti foi achar
Pra mim foi saber
O que pra ti foi escala
Pra mim foi destino
O que pra ti foi passatempo
Pra mim foi significado
O que pra ti foi momento
Pra mim foi vida
O que pra mim foi início
Pra ti foi inicio, meio e fim
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Seus olhos escuros cruzando os meus
Brilham mais, muito mais que o ouro e a lua
Sua boca sorrindo eleva minha alma
O chão vira nuvem nessa caminhada
O tempo congelou
E o espaço se ofuscou
Quando você encostou
Em mim e me falou:
"Não quero que isso acabe"
Sua voz é a própria doçura em alto-falante
Seu corpo me faz homem, paralisa e derrete
Quando estou com você, não importa o lugar
Tudo o que me importa é você a me levar
Ninando o meu andar, ao segurar minha mão
E eu presto atenção ao som da sua voz
Mais do que nas palavras
Não sei se tu és só minha
Mas sei que eu sou só seu
Eu sei que não posso lhe dar tudo o que merece
Tudo o que eu tenho pra dar é o amor eterno
Carinho e ternura não podem tirar a sede
Do corpo
Mas sei que saciam a mim e a ti
Na alma
E é com este mesmo vigor que eu vou correr
Eu vou correr atrás daquilo que é meu
E o que é meu é seu
O "nosso" é o apogeu
Com todo o meu suor eu vou correr
Até lhe alcançar
Até chegar à vida em que todo dia
Vou poder lhe abraçar
Beijar-lhe até cansar
E em ti eu me deitar
Depois, levantar e sair para trabalhar
Contando as horas do dia pra poder voltar
E se pra você nosso amor muito intenso estiver
Te dou todo o tempo e o espaço que você quiser
Depois, então, voltar
Voltar a lhe beijar
Beijar, beijar, beijar
Beijar-lhe até cansar
Cansar até morrer
Morrer de tanto viver
Viver bem com você
Viver, viver você
Não sei viver sem você
Você é o meu viver
Você é viver e viver é você pra mim
Viver, "vicê "
Viver, "vover" você
Viver após morrer
E, então, poder dizer:
"Não quero que isso acabe"
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Seu olhar me ilumina
Seus cabelos prendem meu olhar a você
Sua boca aquece meu corpo inteiro
Seus braços me acalentam
Sua pele é macia como a de um ser único
Seu sorriso me faz acreditar nos anjos
Sua risada faz meu ser se elevar
Sua voz transmite a pureza de uma criança e a maturidade de um adulto
Quando estou com você
Sinto-me em um sonho
Voando nas nuvens
Quando não está
A certeza de que mora ao lado
Me dá esperança
No futuro
Quando se for para outro lugar
Quero ir com você
Pois minha alma está presa à sua
Como um imã
Os poucos momentos com vc
Valem por muitos.
Uma hora com você
Faz valer a semana
E me faz desejar a eternidade
Ao seu lado.
Obrigado por ser meu anjo.
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Queria viver num mundo
Em que o "tudo bem?" fosse mais uma pergunta sincera do que uma saudação
Em que família fosse mais uma comunidade do que cadeiras preenchidas ao redor de uma mesa
Em que amigos interagissem mais do que por likes nas redes sociais
Em que alguém se sentisse realmente responsável pelo outro
Pois, afinal, não somos todos irmãos?
Filhos da mãe Eva e do pai Adão?
A quanto tempo não nos damos as mãos?
E não ceiamos juntos comendo do mesmo diário pão?
O Pão Nosso de cada dia
Que somos nós, em harmonia
Saindo da rotina do nosso dia-a-dia
E vivendo um pouco além de nós mesmos
Quão lindo seria!
Se soubéssemos guardar todas as pessoas que a vida nos dá
E as aproveitassemos ao máximo
Como se o Apocalipse fosse amanhã
O que estamos fazendo conosco?
Se não é de agora que vivemos uma pandemia
De uma vida de apatia
Das relações, a distopia
A liquidez social
Sou eu uma mera partícula social
Que não dá peso ao Cosmos?
Sou eu uma pena a voar
Que ninguém vê nem sente?
Uma sacola vazia que o vento leva
E não sabe pra onde vai?
Só sei o que sei
O vazio é pesado demais
De tanto dar e não receber
De tanto ansear e não ter
De tanto esfregar os olhos e não enxergar
De tanto amar e, por isso mesmo, sofrer
De tanta êxtase, a agonia
De tanto sonhar com esta bela utopia
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Sou grato, mas, ai de mim, pois houve um tempo
Em que era mais importante ler do que saber
Saber do que sentir
Conseguir do que tentar
Piores, ainda, são os que colam pra burlar
O sistema numérico desse "Bom Lugar"
Ai de mim, pois eu queria mais prestígio do que informação!
Mais uma vara de correção do que uma mão
Que me guiasse pra longe de mim mesmo
Presente na classe eu estive
Só não sei se as fórmulas ainda estão presentes em mim
Pois o assunto é de vocês e a absorção é minha
O quadro são vocês mas o cérebro é meu
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Presente na sala-de-aula
Ausente na minha sacada
Meu nome está nessa chamada
Mas será que está também no Livro da Vida?
Tenho que sentar no assento e prestar bastante atenção ao quadro
Faço isso com todo prazer, mas me pergunto: Quem está prestando atenção em mim?
É muita informação pra ganhar ponto, mas muita distração para se ler um conto
Em que o protagonista não sou eu,
É o livro que carrego quase em meu peito.
"Bate o sino, pequenino, sino de desdém
Ao meu eu e aos meus desejos, para o nosso bem
Bate o sino, pequenino, isso não faz mal
Se for pra passar de ano, isso é moral?!"
Esse assunto até que é legal, mas agora será que posso...? NÃO! Não posso!
Opa, Hora do Recreio! É quando vou poder respirar por pouco tempo
Até voltar a ser só um pouco de mim
"Bate o sino, pequenino, já pode brincar
Durante quinze minutos, pra depois voltar
Nós vamos te encher de coisa que não vais lembrar
Tuas necessidades bem vamos ignorar"
Apenas sentar e ouvir, sempre obedecer , nunca desdizer
Sempre percorrer, sem nem mesmo ver
O que estamos nos tornando nesse entardecer
Onde estou agora? Pra onde é que meus pontos me levaram?
Eu não sei, gostaria de saber
Conhecimento é tudo nessa vida, mas quem é que decide os trilhos desse trem?
Qual foi o vagão que peguei, sem nem mesmo saber meu destino?
Em que estação parei, depois do sistema de ensino?
O aprendizado continua, com ou sem testes
Depois de tanto decorar, é que, enfim, chego a pensar
Podia ter sido mais cedo, no tempo em que eu queria mais reter do que filtrar
Parabéns pra mim! Fui o melhor pro sistema e o pior pra mim mesmo
Meu pai está perdido nas drogas, mas, ei, tenho que saber o quadrado do cateto da hipotenusa
Quero colocar dinheiro na mesa de minha mãe desde já
Mas primeiro... "vejamos aqui, senhores, as propriedades das mitocondrias"!
"Por obriga... digo, por gentileza!"
Mas obrigado pela disciplina, mesmo definindo a minha própria estima
Seus ensinos vou sempre guardar
Pelo menos, aquilo que eu lembrar
Pra me aperfeiçoar
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Para de marginalizar teu irmão
Jovem rico! Que acha que tem as sandálias da salvação
Presta atenção, tá descalço e ainda na contra-mão
Vocês prenderam Barrabás, mas soltaram Caifas
Deixaram de ser mártires pra passar a martirizar
Lavando as mãos como Pilatos, com muito sangue a jorrar
Ao seu redor, sim, enxergue isso
Acredite nos furos das palmas da mão do oprimido
Deixa de ser Tomé pro teu irmão renegado
Acorda! Jesus tá bem do teu lado!
É o teu irmão pedindo ajuda
E você chama de mimimi
Chega de ir até a Caverna para encontrar a Lâmpada e esfregá-la
Para que Deus se manifeste a nós
E se foi dEle mesmo a força para irmos até lá ?
A caverna são os templos
Dos quais Ele já saiu há muito tempo.
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